Os melhores de 2017

Ao contrário dos melhores do ano do Faustão, em que só o povo da Globo concorre e ganha, a Revista Seca tentou ser a mais democrática possível e selecionou os top 5 na literatura, música, cinema, teatro e dança

Fim de ano é tempo de comprar coisa cara, fazer piada com Roberto Carlos e passar raiva com aquele seu familiar mala sem alça. Mas fim de ano também é tempo de fazer lista dos melhores na literatura, música, cinema, teatro e dança!

Ao contrário dos melhores do ano do Faustão, em que só o povo da Globo concorre e ganha, a Revista Seca tentou ser a mais democrática possível.

Eu, Vitor e Dan selecionamos nosso top 5 de 2017, ano de estreia da revista mais gente boa da praça.

Confiram nossa seleção:

 

Literatura Estrangeira

 

Foto: Companhia das Letras/Reprodução

“No seu pescoço” – Chimamanda Ngozi Adichie

Por que ler? É brega dizer que tudo o que a nigeriana escreve é bom, mas é verdade. Chimamanda é uma escritora excelente, que tem como maior qualidade a sensibilidade e a sinceridade na escrita. Os romances dela costumam ser longos e, por isso, podem não agradar a turma que é fã de contos. Pois bem, aqui a autora registra 12 contos sobre temas que os fãs dela já conhecem: imigração, racismo, conflitos religiosos e relações familiares.

 

Foto: Editora BoiTempo/Reprodução

“Mulheres, cultura e política” – Angela Davis

Vale a pena? Mais um livro de Angela escrito há um tempinho que só agora ganhou tradução em português. Antes tarde do que nunca. Publicado na década de 1980, nos Estados Unidos, o livro é extremamente contemporâneo para um Brasil conservador e retrógrado.

 

“Outros Jeitos de Usar a Boca” – Rupi Kaur

É bom mesmo? O livro da indiana foi lançado de maneira independente na Amazon, em 2014, e só em 2017 ganhou tradução em português e desembarcou em terras brasileiras. Virou uma febre e não por acaso. É livro feminista, com linguagem simples e direta.

 

“Moby Dick” – Chabouté

Quadrinho também é literatura? Certamente uma das melhores novidades do mercado editorial brasileiro em 2017 foi a fundação da editora Pipoca e Nanquim. Fruto do sucesso do canal de mesmo nome no Youtube, a editora já chegou com o pé na porta, trazendo ao Brasil obras de peso, sempre editadas com um cuidado gráfico e técnico que só fãs verdadeiros das obras teriam. A adaptação do clássico Moby Dick feita pelo quadrinista francês Christophe Chabouté é o maior destaque do catálogo até aqui.

 

“História da Menina Perdida” – Elena Ferrante

Jura que acabou? O último livro da tetralogia napolitana foi publicado em 2014, mas só ganhou uma edição brasileira neste ano. Um dos maiores fenômenos literários dos últimos tempos, talvez de sempre, a série de Elena Ferrante ganhou seu desfecho em português e deixou também os fãs no Brasil com aquela crise de abstinência que só as grandes paixões são capazes.

 

Literatura Brasileira

 

“Assim na Terra como Embaixo da Terra” – Ana Paula Maia

Terror ou cotidiano? A prosa de Ana Paula Maia é uma surra. A linguagem crua vai quebrando os ossos do leitor à medida que se desenham os arcos de seus personagens duros, embrutecidos. A trajetória da autora, desde sua primeira publicação pela Record com “Entre Rinhas de Cachorro e Porcos Abatidos” (2009), é marcada pela relação dos personagens tanto com seus trabalhos extenuantes, nojentos, degradantes e degradados, quanto com os animais, em alguns momentos se confundindo mesmo com eles. Seu novo romance conta os últimos dias de uma colônia penitenciária prestes a ser desativada, e Ana Paula Maia continua encontrando significado e beleza na secura e no horror.

 

“Anjo Noturno” – Sérgio Sant’Anna

Brasil contista? Apesar de hoje o gênero vender pouco, o Brasil, a partir dos anos 1960 e 1970, viu explodir sua produção de contos. Contistas anteriores já haviam escrito preciosidades, mas nada se compara ao volume de bons contos daqueles tempos. Aos 76 anos, Sérgio Sant’Anna era um dos principais nomes à época, e prova, com seu novo livro, que continua sendo. O volume traz contos, memórias e novelas, e é literatura de ponta.

 

“Última Hora” – José Almeida Júnior

Há literatura em Brasília? E dezembro, a contrariar o senso comum, ainda nos reservou um lançamento digno de nota. Escritor potiguar radicado em Brasília, José Almeida Júnior, apostou no anti-herói. Um protagonista com, digamos, certa maleabilidade moral, obrigado por forças externas a viver suas contradições. Esse é o jornalista que vai nos contar o Governo Vargas e os bastidores do jornal Última Hora nesse romance de época, vencedor do prêmio Sesc de Literatura em 2017.

 

“Acerto de Contas” – Daniel Galera (org.)

Acerto de contos? Daniel Galera é um dos bons nomes da nova geração de escritores brasileiros. Não é nenhum especialista em literatura policial. Ele mesmo é o primeiro a se entregar. Mas como bom escritor e, principalmente, bom leitor, aceitou o convite para organizar essa antologia de contos policiais por escritores latino-americanos contemporâneos. Em tempos tão difíceis por estas bandas, a leitura é pesada, mas reconhecer autores capazes de feito dessa qualidade é para voltar a ter fé no continente.

 

Revista “Quatro Cinco Um” – Fernanda Diamant & Paulo Werneck

Existe resenha sem jargões? Modelada a partir de publicações ultra tradicionais como The London Review of Books e The New York Review of Books, a Quatro Cinco Um é uma revista especializada em resenhar a produção editorial brasileira. Nascida de dentro da Piauí, é uma das grandes novidades que o cenário literário experimentou em 2017.

 

Música

 

“Esú” – Baco Exu do Blues

Vale a pena? “Exu do Blues tá de volta/Facção Carinhosa na escolta”. O trecho de “999”, música do trabalho anterior do rapper baiano sintetiza bem o que é o primeiro CD de Baco Exu do Blues. O cara tá volta, comprovando que o rap vai muito além da panelinha Rio-São Paulo, com rimas extremamente inteligentes e provocativas. Como ficamos tanto tempo sem Baco?

 

“Um corpo no mundo” – Luedji Luna

Por que ouvir? Também da Bahia, Luedji mora em São Paulo atualmente, selva de pedra que serviu de inspiração para a faixa-título de um trabalho que é a cara da diáspora africana no Brasil. Músicos de diversas partes do país e do mundo mostram a diversidade das sonoridades negras em letras emocionantes. O canto de Luedji é reza.

 

“Caravanas” – Chico Buarque

Chico ainda? Chico sempre. No pior momento do Brasil em muitos anos, Chico é, novamente, uma voz de alento. O disco grita duas das principais características que fizeram do Chico o Chico. É cheio de ternura, com direito a participação dos netos do Homem em duas faixas. Mas resgata também as letras ácidas, de teor político feroz. Irretocável.

 

“Unlikely” – Far From Alaska

O renascimento do Rock?

Um pouco mais pop que o também excelente disco anterior, “modeHuman” (2014), “Unlikely” é a melhor coisa do rock nacional desde o Roots, do Sepultura, lançado em 1996. Stoner rock da pesada, mas se quiser dançar também pode. Compartilhem até chegar na vocalista Emmily! ADD AÍ, EMILLY!

 

“DAMN” – Kendrick Lamar

O maior da história?

O rapper californiano é o maior nome de sua geração e já pode ser considerado um dos grandes gênios da história do rap. Em DAMN, com sua poesia eminentemente política e suas batidas soturnas, sombrias, ele mostra que não veio pra brincadeira, mesmo. Sem conversinha fiada, sem amizade com celebridade, sem instagram swag. RESPEITA QUE É TRUE BANDS!

 

Cinema

 

“Bingo – O rei das manhãs”

Por que assistir? É um filme brasileiro como há muito tempo não se via por aí. A estreia de Daniel Rezende na direção tem roteiro, fotografia e direção, claro, muito bem feitos. Além da atuação arrasadora de Vladimir Brichta. Digna de Oscar.

 

“Mãe! (Mother!)”

Vale a pena? O diretor Darren Aronofsky é um homem de polêmicas. Assim como nos trabalhos anteriores (“Cisne Negro” e “A fonte da vida”), há quem ame e odeie “Mother”. A complexidade do roteiro e as cenas de tirar o fôlego são a esperança em tempos de filmes e remakes eternos de filmes sobre super-heróis.

 

“Star Wars: Episódio VIII”

É bom mesmo? A saga de Skywalker ficou tão pop nos últimos anos que até quem não entende a história topa ir ao cinema para ver o novo episódio em cartaz. O filme mais recente tem roteiro ágil, trilha sonora boa e não deixa pontas soltas no enredo da trilogia.

 

“Blade Runner 2049”

Androides sonham com ovelhas elétricas? Denis Villeneuve apareceu no radar com o drama “Incêndios”, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. De lá para cá, contou sempre histórias com ar de investigação, passeando por vários gêneros, como o thriller, o policial e o suspense. Seus últimos projetos foram em ficção científica e continuam mantendo o alto nível. Blade Runner 2049 é seu melhor filme, e é uma experiência. Quem gosta de cinema tem que encarar, mesmo que decida não gostar no final.

 

“Corra! (Get Out)”

Deu a louca na branquitude? Mesmo que o ato final do filme não mantenha o bom nível do seu desenvolvimento, “Get Out” é excelente. A aposta no terror social foi um acerto indiscutível e dá ao roteiro oportunidade de explorar, com colorações fortes de ironia, vários aspectos do racismo estadunidense, como a fetichização, a estereotipação, as estratégias de dominação e a violência propriamente dita. Filme inteligente e engraçado, mas que não perde as marcas do gênero do terror.

 

Teatro e dança

 Foto: Alice Macedo/Reprodução

“Gisberta”

Por que ver? Semanas depois de ver o monólogo estrelado por Luis Lobianco, ainda procuro um adjetivo para o espetáculo. Com texto de Rafael Souza-Ribeiro e direção de Renato Carrera, a peça leva o público do riso às lágrimas em instantes, provocando uma série de sentimentos diante da história da transexual brasileira torturada e assassinada em Portugal, em 2006. O maior acerto, sem dúvida, foi mostrar Gisberta a partir do olhar da família e de amigos, preservando a memória e a imagem da brasileira.

 

“Gira”

É bom mesmo? No trabalho mais recente, o grupo mineiro Corpo mostra coreografias inspiradas nos ritos da umbanda, ao som da especial trilha criada pela banda paulista Metá Metá. Difícil pensar como a fusão de Corpo e Metá Metá (além da coreografia de Rodrigo Pederneiras) poderia dar errado. É um espetáculo emocionante, sincero e inspirado.

 

“L, o musical”

Vale a pena? Milton já diria: “Qualquer maneira de amor vale amar”. Por isso mesmo, o musical parece tão necessário para os dias de hoje. Com dramaturgia e direção de Sérgio Maggio (“Eu Vou Tirar Você Deste Lugar – As Canções de Odair José”), a peça mostra a história de amor entre mulheres a partir de músicas de Cássia Eller, Zélia Ducan, Ellen Oléria, entre outras. É amor da cabeça aos pés.

 

“Áfricas”

“O teatro pode ser plural?” O primeiro espetáculo infanto-juvenil do Bando de Teatro Olodum estreou há oito anos, mas retornou a Brasília neste ano e por isso merece destaque. Com direção de Chica Carelli, a peça valoriza as histórias e culturas africanas e emociona adultos e crianças. Destaque para a atuação da super Valdinéia Soriano.

 

“BR-TRANS”

“Tudo novo de novo?” A estreia foi em 2013, porém, é um espetáculo que se faz muito necessário nos dias de hoje – assim como “Gisberta”, entre outras montagens-políticas. Em cena, Silvero Pereira – que depois bombou na telinha – mostra as vidas de travestis, transformistas e transexuais que (sobre)vivem neste Brasil transfóbico. Direção certeira de Jezebel De Carli.


Maíra de Deus Brito

29 de dezembro de 2017