Três perguntas para Matheus Nachtergaele

“Um dia, sempre, o peso real das coisas retorna e colocamos os pés no solo firme. E ficamos em pé”

Foto: Leo Aversa/Divulgação

Era 1968 quando Maria Cecília Nachtergaele, mãe de Matheus, faleceu aos 22 anos. Ele só tinha três meses. Dezesseis anos depois, o filho recebeu do pai uma pasta com 30 poemas da mãe. Já adulto, o ator decidiu que era hora de levar esses poemas para o palco, com o espetáculo “Processo de Conscerto do Desejo”.

Em cena, Matheus presta uma homenagem e incorpora o eu lírico da sua mãe, interpretando os escritos ao lado dos músicos Luã Belik, Henrique Rohrmann e Bryan Diaz.

A peça estreou em 2015 e agora volta a ocupar os teatros no Brasil. Em Brasília, as sessões acontecem de 8 a 11 de novembro, na Caixa Cultural.

A Revista Seca bateu um papo rápido com Matheus Nachtergaele. Na conversa: teatro, amor, saudade e esperança. Confira:

O que lhe motivou a voltar com o espetáculo “Processo de Conscerto do Desejo”?
Quando finalmente, a cerca de três anos, resolvi tomar coragem para colocar em cena de forma poética, ritual e absolutamente sincera os poemas de minha mãe Maria Cecília, sabia que a peça estaria comigo pra sempre. Desde sempre minha tragédia de origem me forma, deforma, encanta e transforma, e a peça tende a tornar-se minha obra de maturidade em perpétua transformação. Desde a estreia até agora, dependendo do amadurecimento de mim, de meu entendimento acerca dos poemas, da interação dos músicos e músicas com o espetáculo e o público, dos espaços diversos que ocupamos e o momento emocional e político em que as récitas ocorrem, o processo vai caminhando em eterna adaptação poética e ética. Voltar agora a Brasília, meses após as ultimas apresentações no Teatro da Caixa do Rio de Janeiro, após ter feito Molière no teatro com Renato Borghi e grande elenco, a peça estará necessariamente diferente: a dor é a mesma, mas a pérola é sempre recriada na obra humana… Além de tudo, acabamos de entrar num novo governo, de extrema direita, o que muda a face do Brasil. Fazer a peça agora será um novo aprendizado, e aprender sempre me motiva.

Quando você tinha 16 anos, seu pai lhe entregou uma pasta com 30 poemas de Maria Cecília. Você recorda qual foi a sua primeira reação ao ler aqueles escritos?
Um susto aliviado, creio. De cara, a sensação terrível de que minha mãe tinha se machucado a si mesma a ponto de morrer me abateu muito. Depois, lendo os poemas, me senti enfim podendo estar com ela, ouvindo ela. E isso era bom. Uma infinita tristeza de mim ganhou forma definitiva, e o artista que sou começou sua formação. Antes de abrir a pasta, lembro, tive um frio na barriga, como aquele que sentimos na montanha russa quando o carro despenca junto à aceleração da gravidade, e perdemos o peso, a cor rosada da face, mas sabendo que abaixo o chão retornará em breve. Um dia, sempre, o peso real das coisas retorna e colocamos os pés no solo firme. E ficamos em pé.

Você, como multiartista que está em cartaz com uma peça que celebra a memória e o amor, qual conselho você nos daria para (sobre)viver a tempos de tanto ódio?
Essa peça é para dar luz ao que parecia escuro, voz aos que se calam. É para dançar com a vida, apesar da morte. Como rezar, mas de forma blasfema e blasfemar de modo a sagrar a vida. Creio que no momento sombrio, como esse talvez seja, estarmos juntos no Teatro prestando homenagem às coisas boas que se foram e tornando o desaste uma arte, será, no mínimo, reconfortante. To muito feliz pela oportunidade de reencontrar o PROCESSO DO CONSCERTO DO DESEJO agora. Um grande beijo a todos! Nos vemos lá!

 

“Processo de Conscerto do Desejo”
De 08 a 11 de novembro de 2018, quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h, na Caixa Cultural Brasília (SBS, Quadra 4, Lotes 3/4; 3206-6456). Ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos.

 


Maíra de Deus Brito

7 de novembro de 2018