tatiana nascimento, 37

Antes de ser poeta, compositora, cantora, tradutora, editora de livros artesanais, zineira e blogueira, tatiana é ela. E ponto final

Fotos: Janine Moraes/Revista Seca

Ainda era verão quando encontrei com tatiana nascimento dos santos pela primeira vez. Acho que tinha chovido por aqueles dias – ou até mesmo naquele dia – então, o cerrado estava úmido, o dia meio nublado e o sol logo partiu. Tanto que, quando Janine Moraes foi fotografá-la, já quase não tinha luz. Mas como profissional porreta que é, Janine fez imagens lindas de tate (apelido de tatiana), me deixando ainda mais ansiosa por esse texto. Deveria ser um texto honesto e cuidadoso – como são as palavras e os escritos de tatiana – e deveria ser poético e talentoso – assim como as fotografias de Janine. Não sei se dei conta.

Mas… papo vai, papo vem, e vi uma hora passar voando naquele café no final da Asa Sul.

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Quem é ela?

tatiana nascimento (nome que ela utiliza nos trabalhos artísticos) começou me surpreendendo logo de cara. Eu pergunto: “Poeta, compositora, cantora, tradutora, editora de livros artesanais, zineira e blogueira. De tudo isso, o que você é primeiro?”:

“ – sou tatiana nascimento. Sou uma pessoa bem simples e acho desnecessário tantas credenciais. Mas eu entendo que a gente se movimente humanamente por conta disso. Saber o que a pessoa faz. O que executa.  Eu gosto de pensar que sou uma .

Porque tem muita gente acompanhando meu trabalho e o Facebook é uma janela. É uma rede social muito maldita e ao mesmo tempo muito próspera. Muita gente tem acompanhado as coisas que eu faço e isso tem me causado muita angústia. Pensando só até a metade do caminho: é bem legal que as coisas que eu faço cheguem para as pessoas, porque a gente é mamífero e tá aqui para se conectar. Às vezes, acho que falo coisas importantes de serem compartilhadas. Da mesma forma que eu gosto que as pessoas me falem coisas importantes porque eu aprendo com elas. Por outro lado, avançando só um pouquinho: me deixa angustiada como as pessoas gostam de criar ídolos. Nesse momento que está tão importante as discussões sobre negritude e sobre feminismo negro, e pensar representatividade… Isso pra mim tem sido muito perigoso. A galera gosta de colocar uma pessoa na frente para dar conta de tudo que é necessário naquele momento. Poucas pessoas se responsabilizam sabe? Eu gosto de pensar que antes de tudo eu sou filha, sou irmã, sou cachorreira, vivo com um monte de gato… Sinto angústia às vezes, mas também sinto muita felicidade, muita gratidão. Sou muito abençoada, muito cuidada, muito protegida. Também sou uma pessoa que tem muita dificuldade em se comunicar, se relacionar e que acha um atalho pelas palavras”.

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Fase acadêmica

tatiana não gosta muito das credenciais, mas confesso que pensei nas perguntas dessa entrevista a partir delas. Daí, me interessa saber, por exemplo, quem é a tate licenciada em letras – português pela Universidade de Brasília (UnB) e doutora em estudos da tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Também tenho curiosidade em saber o porquê de escrever em letras minúsculas, seja na academia, seja na poesia.

“acho mais bonito escrever em minúsculas. e isso também tem a ver com meus projetos de zine que fazia no começo dos anos 2000. quando conheci a produção de tânia navarro swain e de bell hooks usando esse mesmo grafismo como proposta de anti-hierarquização de saberes achei legal e fortaleceu meu uso”, explica tatiana.

Atualmente, ela está bem satisfeita por estar formalmente longe da Universidade. De acordo com tate, o fim do doutorado em 2014 foi o encerramento de um ciclo de 10 anos que começou meio atropelado.

“comecei algumas graduações…. então, terminar essa jornada, que teve início em 2004, foi muito importante porque eu tenho muita iniciativa e pouca acabativa. entrei para letras e fiz parte da primeira turma de cotas da universidade de brasília. fiquei seis anos. foi muito penoso esse percurso, mas assim que eu terminei eu fiz vestibular de novo. porque eu pensei: ‘e agora?’. aí eu tentei para tradução, mas eu não continuei porque, simultaneamente, fiz uma seleção de mestrado em santa catarina, passei e fui pra lá. na qualificação, fui convidada para entrar no doutorado direito o foi uma benção, pois estava no limite da vida acadêmica”.

O último capítulo dessa saga foi a defesa da tese “Letramento e tradução no espelho de Oxum: teoria lésbica negra em auto/re/conhecimentos” – da qual vamos falar um pouco mais adiante…

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As dores e as delícias da Mata Atlântica

Quando tatiana lembra dos tempos de Florianópolis, me conta dos prós e dos contras da capital catarinense.

Ela, que tem alguns gatos e cachorros, me chama a atenção para a cultura de abandono de bichos naquela cidade, sobretudo, no verão. Em compensação, os moradores de Floripa também desenvolveram uma cultura de cuidado e de responsabilização muito grande. Dessa maneira, os bichinhos abandonados são cuidados em clínicas solidárias e por moradores de diferentes classes sociais.

A mata atlântica, sua fauna e sua flora são saudades de tate. Assim como a rara gralha azul e a fecunda e exuberante mata ciliar. Porém, o tempo à beira mar também foi muito duro. Foi em Florianópolis onde ela viu e sentiu um racismo bem diferente daquele experimentado no cerrado do Planalto Central.

“eu vivia em uma cidade muito branca, mas com um branco diferente do que vi no DF. eu tinha que descobrir onde podia andar, onde não podia. eu era muito mal vista. as pessoas marcavam os corpos negros. lá, o racismo tem uma proporção que eu não estava acostumada a lidar”.

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Umbanda e candomblé

Frequentemente, o trabalho de tatiana nascimento faz referência aos orixás e a elementos da umbanda e do candomblé. Curiosa que sou, pergunto a ela se ela segue alguma dessas religiões. A resposta é não. Daí, ela me conta que a relação dela com o candomblé e com a umbanda é de estudiosa:

“eu fiquei muito deprimida por muitos anos. em um momento, tive um encontro com uma entidade muito maravilhosa que me ajudou a entender que a vida é muito bonita, válida e preciosa. cada vida humana e não humana. eu precisava de uma conexão mágica com o espiritual, com o religioso, com o imaterial para entender que a minha vida valia a pena. eu nunca tive isso. era mega marxista. entende?

foi tudo ao mesmo tempo. eu conheci essa entidade, audre lorde, movimento negro, movimento de mulheres negras e entendi que tinham coisas antes e depois de mim. aí fui perguntar, assuntar e acabei descobrindo os itans (histórias), inclusive os itans não heteronormativos. as ancestralidades negras e indígenas vivem o terceiro sexo ou terceiro gênero. existe, inclusive um espaço ritualístico, cheio de honraria para eles. isso me ensinou muito”, diz a aquariana que tem muitas coisas no signo de peixes e na casa de peixes.

Outra coisa me chama atenção: tatiana conecta o itan de quando Oxum seduz Iansã com as práticas de traduzir feministas negras (lembra que voltaríamos a falar da tese dela?). Com essa conexão, ela mostra como é importante lésbicas negras terem acesso à produção de outras lésbicas negras. Ao serem traduzidos e circulados entre nós, os textos de pessoas de diferentes partes da diáspora comprovam que essas existências são possíveis – afinal, todas as referências que temos de feminismo são brancas.

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Tradução

Uma das credenciais de tate é de tradutora. Ela tem um blog bem maneiro com várias traduções de textos de Audre Lorde, Jewelle Gomez, bell hooks e cheryl Clarke, entre outras. Assim, quero saber: à quantas andam essas traduções?

“está bem lento. Eu traduzi muito e por muitos anos. Cansei. Chegou o momento de escrever minhas próprias coisas, de cuidar da minha palavra. Tenho muita coisa traduzida que ainda não publiquei. Gosto de revisar, de voltar nos textos…”

Apesar do ritmo ainda ser outro, o blog segue com textos bem bons, publicados esporadicamente.

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Era uma vez, um livro…

Quando eu trabalhava em redação de jornal, ouvia frequentemente curiosas histórias de pessoas que sempre sonharam em escrever e publicar um livro. Como tate não para de me surpreender, ela diz que não há nenhum grande episódio para explicar o lançamento de “lundu”, livro de poemas publicado em 2016. “foi bem simples e objetivo”, ela avisa.

tatiana sempre fez poesia e, um dia, ela ganhou um livro de uma cartoneira da Argentina. Daí veio o insght: por que não lançar um livro daquele jeito, artesanal? tate diagramou sozinha o livro num software, imprimiu numa gráfica rápida e plim! “lundu” estava pronto.

O trabalho mais recente, “mil994” nasceu ainda mais rápido: a diagramação foi feita no word e, em uma tarde, o segundo livro tinha nascido.

Formado por aproximadamente 100 poemas, “lundu” está disponível em PDF para quem quiser baixar. “mil994” tem 37 poemas e foi lançado em 7 de fevereiro deste ano, data em que tatiana completou 37 anos.

“eu escrevo todos os dias um poema novo. E isso tem a ver com ter saído da depressão. é um compromisso da minha vida. a gente não pode se resumir a dor e permitir que a dor seja a única narrativa que nos legitima como preto na diáspora.

acho que a gente tá muito longe de chegar num momento poético, estético e narrativo de não depender mais da dor para que os nossos poemas sejam considerados emocionantes, importantes e representativos das nossas resistências. escrevo desde sempre e, nos 10 anos de depressão, escrevi muito sobre estar triste, estar mal e de não querer estar aqui. depois daquele encontro mágico, decidi que era importante escrever tudo sobre a minha vida, porque tudo é válido. não só a minha dor. a narrativa das minhas experiências me torna um ser único”.

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Ideias concretas

Em 2015, ao lado da poeta paulistana Bárbara Esmenia, tatiana fundou a padê editorial, editora brasiliense que publica autoras negras, lésbicas, transexuais, travestis em livros artesanais. Integrante do coletivo roda de autoras do DF, tate ainda produz a palavra preta – mostra nacional de negras autoras; a quanta!, série de música e poesia de artistas mulheres no DF; a semilla feyra de publicadoras; o slam das minas DF, primeira batalha de poesia falada exclusiva pra mulheres e lésbicas no brasil; e o sonora – ciclo internacional de compositoras seção brasília.

Recentemente, ela botou na praça a sementeira, edição da semilla para jovens escritores e escritoras; e o escrevivências, com o amigo Pedro Ivo. O projeto pensa na democratização da produção de livros de pessoas pretas e LGBTQ com oficinas que ensinam como fazer uma autopublicação artesanal.

De todas essas idealizações e realizações, quero contar a trajetória da palavra preta. Ela surgiu a partir de um convite da cantora baiana Luedji Luna e tornou-se um evento gigante logo na primeira edição, em Salvador. Trezentas pessoas lotaram o local nos três dias de programação. A segunda edição, em julho do ano passado, no Festival Latinidades, também foi um sucesso.

“é muito legal conhecer o trabalho de outras pretas, sobretudo a produção autoral. falta uma formação de público e de crítica. a crítica não enxerga as compositoras negras com o devido respeito. e no nosso trabalho de curadoria, também temos o cuidado de selecionar artistas pretas trans. é muito precioso selecionar várias linguagens artísticas. dessa maneira, a gente desmistifica que todo mundo canta igual – o que é uma arma bem potente de racismo. os estereótipos sobre a composição das mulheres negras colocam a gente como a rapper raivosa ou como a sensual. não é assim”.

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Luedji Luna

Uma das faixas mais impactantes de “Um corpo no mundo”, disco de estreia de Luedi Luna é de tatiana nascimento. “Iodo+Now Frágil” diz o seguinte:

“[…] funda turva escura dura

funda dura tumba escura

corta o vento cala chuva

Orí zonte é todo sal

 

é todo longe

é todo mágua

é todo roubo

colonial […]

as políticas

uterinas

de extermínio

dum povo que não é

reconhecido como civilização […]”

 

 

É praticamente impossível não se emocionar com essa canção.

O auspicioso encontro entre Luedi e tate se deu graças à Anne, amiga em comum lá de Salvador e que as colocou em contato.

“fui lançar o ‘lundu’ em são paulo e luedji era uma das convidadas do evento. Ela começou a cantar e eu a chorar. Foi maravilhoso. Ela estava cantando uma música da aline lobo, outra amiga de salvador. [tate se emociona ao lembrar] fiquei honrada em pensar que uma pessoa tão grandiosa, tão acessível… porque eu convidei a luedji na maior despretensão e ela cantou lindamente. ela estava com o renan, um cara muito generoso também. Foi tudo muito grande… a gente se conectou muito.

eu sou muito abençoada muito mesmo. todas as coisas são favorecidas pra mim. posso não ter grana, emprego, mas tudo que eu tenho é exatamente o que eu preciso. e todos os encontros que eu tenho são abençoados. o encontro com luedji me ensinou muito sobre humildade. sou muito arrogante e ela muito humilde e isso pra mim foi um aprendizado gigante. aquela música é muito sofrida, mas muito importante. tem a ver com o mito que as pessoas fugiam dos navios negreiros voando. ela ouviu e pediu para gravar. quando me mandou a versão final pelo celular, fiquei surpreendida e chorei muito. a música é pesadona e o arranjo levita. achei maravilhoso”.

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A poesia

Das poetas, tatiana lê e ouve muito Kika Sena, Victória Sales, Raíssa Éris Grimm, Nanda Fer Pimenta, Iná Marina, Daisy Serena e Samuel Luis Borges. Mas quandopergunto sobre as influências, ela brinca – falando meio sério – que é chata para ler coisas novas…

“a sintaxe das outras pessoas me contamina muito facilmente e eu ainda não cheguei onde quero chegar com as minhas palavras. tenho não como influência, mas como inspiração, o palavrório de stela do patrocínio, mulher preta que foi internada no rio de janeiro, que morreu fazendo greve de fala e que transformaram em poeta. fiquei muito impressionada com as coisas que publicaram após a morte dela. pensei como minha poesia ainda tem que caminhar para chegar em um lugar que eu gostasse muito. agora do que eu li e me marcou muito: dione brand, poetisa, preta e sapatão. ‘lundu’, o poema, nasceu depois de ler um livro dela. outra grande inspiração também é mulher, preta e lésbica: audre lorde. leio manoel de barros, que é a coisa mais linda da poesia.  mas não aparece em nada no meu trabalho”.

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A música

Por fim, quero saber das influências musicais dela. tatiana me conta que ouve muita coisa e que desde que voltou a morar na casa da mãe, convive ainda mais intensamente com a música graças ao irmão, músico, e ao pai, que cantarola o dia inteiro.

“ele tem uma voz linda e um repertório incrível! meu pai canta muito gilberto gil, milton nascimento. djavan é uma grande referência melódica pra mim. mas eu quase não escuto música. minha onda é ficar com os bichos e ler. eu leio agatha christie, né? então sempre tem um livro para ler [risos]”.

 

Apesar da imersão nos livros, tatiana curte muito The Smiths, Radiohead e Maria Bethânia – principalmente quando canta Roberto Carlos.

“eu amo aquele disco: ‘as canções que você fez pra mim’. eu amo música de dor de cotovelo. mas ouço muito algumas compositoras novas, como aline lobo, nina ferreira, jadsa castro, karla da silva, neila kadhi, raquel leão, vera veronika, moara, tatá & danú. e adoro dona ivone lara! especialmente quando ela canta: ‘força da imaginação, vai lá. além dos pés e do chão, chega lá. o que a mão ainda não toca, coração um dia alcança”.

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tatiana, trovão

Eu queria terminar esses escritos sobre tatiana nascimento dos santos – que antes de cantora, compositora, poetisa, zineira, cachorreira, etc e tal, é pessoa, é filha, é irmã – com alguma poesia dela. A minha favorita é “taipa (o criacionismo do big-bang)”, que diz assim: “curar não significa nunca mais vai doer/ feliz não significa nunca mais vai chorar”.

tatiana também adora essa poesia, mas seria injusto não fechar essa história com “Iodo + Now Frágil”. Música é (quase?) uma oração:

“eu sei ser trovão?

que nada desfez?

eu já fui trovão e se eu já fui trovão, eu sei ser trovão!

eu sei ser trovão que nada,

nada

desfaz

Epahey Oyá!

eu sei ser

trovão

e nada

me desfaz”.

 

Nada parece desfazer tatiana nascimento dos santos.

 

 

 


Maíra de Deus Brito

14 de junho de 2018