Solidariedade e resistência: Festival Latinidades 2017

Bruna Pereira, coordenadora do Festival, fala sobre o cenário político e a decisão pelo financiamento coletivo para garantir a edição de 2017

Foto: Flickr/Latinidades/Reprodução

A historiadora Beatriz Nascimento define quilombo como uma das formas que o povo negro encontrou para resistir e manter sua identidade. Desde seu nascimento, em 2008, o Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha – ou Latinidades – tem seguido isso a risca e se consolidando como um espaço que reverbera as vozes e rostos das negras para o mundo, como a maior celebração da atuação e produção cultural, intelectual e política dessas mulheres nas Américas.

É por meio do reforço ao sentimento de pertencimento racial, o estabelecimento de um espaço seguro, a troca de conhecimentos e do fortalecimento individual e coletivo das mulheres negras que o Festival Latinidades resiste e chega a sua décima edição com uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, para ajudar a organização a dar conta dos quatro dias de evento e das já tradicionais atividades formativas que o compõe.

Para contribuir acesse a página do Festival Latinidades no Catarse.me.  É possível doar a partir de R$10 e as contribuições acima de R$20, dão direito a uma recompensa. Até o momento, o festival conseguiu pouco mais de 11% do valor que necessita. Qualquer contribuição é importante.

Sobre isso, conversamos com Bruna Pereira, coordenadora do Festival, que nos explicou como o cenário econômico e político do país estimulou desde a escolha o tema para a edição de 2017, até a opção pelo financiamento coletivo, acreditando na solidariedade do público e daqueles que reconhecem a importância do Festival. Ela, que está a frente das atividades formativas do Latinidades desde 2015, falou ainda sobre sua relação pessoal com o Festival e como aconteceu o convite para a participação do duo norte-americano Oshun, uma das principais atrações do Latinidades 2017.

Bruna optou por não revelar detalhes do livro Griôs da Diáspora Negra que acaba de ficar pronto.  Mas sabe-se que a publicação, organizada por Ana Flávia Magalhães Pinto, Chaia Dechen e Jaqueline Fernandes, retrata os aprendizados da edição histórica de 2014, com a contribuição de Angela Davis, Inaldete Pinheiro, Jurema Werneck, Patricia Hill Collins, Paulina Chiziane, Shirley Campbell Barr, Teresa Cárdenas entre outras e outros. O aguardado lançamento deve acontecer durante as atividades programadas para o Festival Latinidades 2017, que acontece de 27 a 30 de julho.

Foto: Flickr/Latinidades/Reprodução

Revista Seca: o que inspirou o tema para 2017?

Bruna Pereira: Celebramos a nossa décima edição e nos inspiramos em dois conceitos que têm orientado o pensamento de africanos/as e afrodescendentes na diáspora: Afrofuturismo e Sankofa. A partir deles, propomos um momento de reflexão coletiva, para pensarmos o nosso passado, presente e futuro, porém sem nos deixarmos limitar excessivamente pelos obstáculos que nos têm sido historicamente impostos. Em um momento político, social e econômico de muita dificuldade, resgatamos a importância de construir utopias conjuntas, que reflitam a urgência de mudanças, a diversidade e complexidade de nossas pautas.

RS – Qual a relação desse tema e o contexto político social e econômico que o país vive com relação à perda de direitos e o encrudescimento do pensamento conservador?

BP – A temática está diretamente relacionada ao momento político, social e econômico em que vivemos. Nós, mulheres negras, nunca desfrutamos plenamente e em condições de igualdade dos direitos fundamentais relacionados à cidadania, como tantas intelectuais negras não se cansam de apontar. Contudo, vemos as violações que nos atingem se acentuar no cenário atual, sem perspectivas de melhoria. Um dos impactos que sentimos e que é muito grave é a limitação em nossas possibilidades de sonhar, pois nos vemos muitas vezes restritas à luta para minimizar a perda de direitos, o nosso empobrecimento e a precarização de nossa situação na sociedade, em geral.

Entendemos que é importante reforçar o Latinidades como um espaço de (re)articulação, um espaço seguro para reivindicarmos nosso direito e nossa necessidade de construir horizontes de luta e de liberdade que estejam além do tenebroso panorama que temos à frente de nossos olhos. Vemos essa iniciativa como um momento de liberdade e ousadia, uma estratégia de resistência que nos chega como um legado de nossas ancestrais.

RS – Quais os motivos para que, depois de 10 anos, o maior festival de mulheres negras da América Latina precise de uma campanha no Catarse?

BP – Algumas instituições que foram nossas parceiras em anos anteriores reduziram muito o valor de apoio para esta edição, ou mesmo não nos apoiarão em 2017. Outra dificuldade que temos é a de transmitir para agências de fomento a importância do Latinidades. É difícil explicar como as edições têm um efeito profundo e duradouro nas participantes.

Entendemos que todas as atividades do Latinidades devem continuar tendo acesso gratuito ao público, mesmo que tenhamos que trabalhar com um orçamento reduzido. A saída que encontramos foi buscar outras possibilidades de parceria e de financiamento e a campanha foi uma das iniciativas que consideramos. Contamos com a solidariedade do nosso público e de pessoas que reconhecem a importância do festival, no que nos inspiramos nas redes de solidariedade com que nós, mulheres negras, sempre contamos, frente às dificuldades econômicas. Os recursos que já assegurados para esta edição são ainda bem escassos. Por isso, cada contribuição, por menor que seja, importa.

RS – O Festival está consolidado por trazer as vozes de grandes mulheres negras. Você conseguiria destacar alguns momentos que para vocês da produção são inesquecíveis?

BP – Eu acho que cada edição marca as pessoas envolvidas na produção de uma forma diferente. Cada ano tem uma “química” própria, feita da equipe e das convidadas, e isso é muito interessante. Nem um ano é igual ao outro, nem nas dificuldades, nem nas boas surpresas. Sempre encontramos muito carinho e solidariedade, e é emocionante sentir que as pessoas compartilham do nosso amor pelo projeto.

Posso falar por mim de um momento inesquecível. 2015 foi o primeiro ano em que trabalhei como Coordenadora de Atividades Formativas. Apaixonada pelo Latinidades, sentia um peso muito grande sobre os ombros, além da satisfação de participar como organizadora. Tinha que dar certo. Me lembro do primeiro dia, quando exibíamos o documentário da Elza Soares no Cine Brasília e eu trabalhava no meu computador de um cantinho escondido ao lado da plateia. Eu tinha muitas coisas para fazer e não podia prestar atenção no documentário, mas chorava muito, emocionada com a Elza cantando. Quando me levantei do meu canto, vi que a sala estava tão lotada que era impossível andar. Fui tomada por uma sensação indescritível, que misturava a alegria de estar ali; uma sensação de que eu fazia parte de algo muito maior, e que envolvia toda a produção, o público, a artista que aparecia no filme e que se apresentaria depois, no show; uma força coletiva que brotava daquele lugar que nós, mulheres negras, construímos; uma paixão louca e uma vontade de garantir que tudo aquilo continuasse indefinidamente.

Foto: itstheorematic.tumblr.com/Reprodução

RS – Como foi a articulação com o duo americano Oshun e qual a importância da participação dessas artistas no Latinidades 2017?

BP – É emocionante ver como as pessoas acreditam no Latinidades e como fazem questão de contribuir. A importância da presença e da participação dessa dupla é muito grande, por vários motivos: são mulheres negras; com nome de uma divindade que é uma mulher negra e que faz referência à nossa força e beleza; estão em sintonia com o tema da edição; fazem parte de um cenário independente – o que nós adoramos. E tem mais um motivo: por mais que elas já tenham uma carreira consolidada, não são ainda amplamente conhecidas pelo público brasileiro. E isso é a cara do Latinidades: apresentar para o nosso público algumas coisas maravilhosas, que ainda não têm o reconhecimento que merecem. Ou melhor: apresentar mulheres negras incríveis para outras mulheres negras incríveis.


Mara Karina Silva

26 de junho de 2017