“Quem muda o mundo são os artistas”

Entrevistamos o cineasta Silvio Tendler, diretor de “Dedo na Ferida”, filme vencedor do Prêmio do Júri Popular no Festival do Rio em outubro

Foto: Maycon Almeida / Reprodução

Silvio Tendler é um cineasta formado no movimento dos cineclubes. Da época em que artistas e intelectuais batiam no peito e gritavam sua vertente política com orgulho. Era um exercício de cidadania. Tinha 14 anos de idade quando o golpe de 1964 interrompeu um dos sempre curtos períodos de democracia no país. Caminhando nas ruas de Copacabana naquele dia 1° de abril, soube claramente a quem o golpe servia, ao comparar a reação da elite carioca nas ruas e de seus porteiros, grudados nos rádios, esperando notícias da resistência que nunca aconteceu.

Aos 19, já era presidente da Federação dos Cineclubes do Rio de Janeiro. Foi quando realizou seu primeiro filme, um documentário sobre a Revolta da Chibata. Silvio conheceu e entrevistou João Cândido, o Almirante Negro, pessoalmente. A repressão dos anos de chumbo queimou o negativo do filme, que não mais se recupera.

Nos anos 1980, fundou a produtora Caliban. Ao longo da carreira, Silvio discutiu profundamente a ditadura, provavelmente seu grande tema. Dirigiu o seriado “Anos Rebeldes” (1992), montou narrativas que abordam a luta de resistência – como o “Utopia e Barbárie” (2009), “Marighella – Retrato falado do guerrilheiro” (2001), “Há Muitas Noites na Noite” (série sobre o poeta Ferreira Gullar), “Os Advogados Contra a Ditadura” (2014), “Os Militares da Democracia” (2014).

Silvio também discutiu bastante o cenário político pré-golpe, com filmes como “Jango” (1984) e “Os anos JK” (1980). Mais recentemente, abordou a globalização no premiado filme “Encontro com Milton Santos” (2006), as políticas de privatização, o agronegócio, os agrotóxicos, e agora o sistema financeiro.

“Dedo na Ferida” (2017), produção mais recente do prolífico cineasta, acaba de ganhar o Prêmio do Júri Popular no Festival de Cinema do Rio.

A Revista Seca, claro, foi atrás de trocar uma ideia sobre a sua obra e suas análises de conjuntura.

Revista Seca – No filme “Utopia e Barbárie”, o cineasta Fernando Solanas diz que “As canções, as pinturas, as novelas, os poemas são o espelho mais profundo dos fantasmas, das alegrias, das memórias, dos sonhos e dos personagens que tem uma comunidade”. Você acha também que a arte descreve bem a comunidade, tão bem quanto a ciência? Ou melhor do que a ciência, a sociologia, a economia?

Sílvio Tendler – Eu acho que a linguagem da arte estabelece um diálogo mais profundo com os atores sociais. Eu não estou, com isso, querendo, de maneira nenhuma, desmerecer a ciência. Até porque eu acho que a transformação da sociedade é fruto da conjunção da arte, da política e da ciência. A política como uma expressão pública da ação coletiva; a arte como uma expressão reflexiva; e a ciência como forma de aprofundar os conhecimentos. Da conjunção dessas três vertentes é que você consegue transformar o mundo. Agora, eu acho que a arte tem a capacidade de estabelecer um diálogo com as pessoas. Eu considero a arte um grande agente transformador da sociedade. Mais do que a política. Não na área do conhecimento, mas de uma forma mais palatável que a ciência. A ciência trabalha com formas de comunicação muito fechadas, é mais difícil você entender o discurso científico do que o discurso artístico. Eu acho que a arte, no final das contas, se torna o grande agente transformador da sociedade.

RS – Pensando nisso, tem uma formulação do filósofo Jacques Rancière que estabelece que a arte e a política têm a mesma fonte comum, que é a construção da subjetividade, da sensibilidade. É um pouco por aí?

ST – Tem o trabalho do Adolfo Sánchez Vásquez, da Universidade Nacional Autônoma do México. Na sua pesquisa, ele fala justamente das vanguardas artísticas e políticas, lamentando alguns desencontros entre algumas delas em alguns momentos. Mas ele fala que a arte e a política são os grandes fatores de dominação e de transformação. Ele apenas lamenta que, em alguns momentos, elas se desencontram. A arte, por exemplo, precisa de toda a liberdade para a expressão plena das questões que ela está abordando. E, muitas vezes, a política é castradora. Acho que ele estava, nesse momento, se referindo um pouco à questão da Revolução Cubana, que tem uma vertente profundamente libertária, mas também, em alguns momentos, uma vertente um tanto quanto repressora. Aí, ele se referia a isso. Mas eu acho que ele tem certa razão.

Foto: Captura de tela “Dedo na Ferida” / Reprodução

RS – Falando do seu trabalho especificamente, a política sempre foi uma questão central.

ST – Sim, no meu trabalho a política é determinante. Porque é por onde eu vejo as transformações que realmente ocorreram, e é como você consegue conjugar diversas forças em uma ação coletiva. A arte é um produto de reflexão sobre a sociedade. E ela é a expressão maior da transformação. Eu acho que quem muda o mundo são os artistas, mas nem sempre a gente consegue, através da arte, expressar aquela coisa que a gente quer. Então a política é importante. É dessa conjugação que nascem meus filmes.

RS – Você não é apenas um artista que não esconde sua orientação política. Você é um artista que faz da sua orientação política o seu objeto artístico. Como fazer isso nesse Brasil e nesse mundo de hoje, polarizados e conservadores ferozes? Qual é o papel que desempenha esse artista nessa sociedade em que vivemos hoje?

ST – Eu vou te falar de um paradoxo. Hoje nós estamos vivendo um dos momentos mais difíceis que o Brasil já viveu. Um dos momentos mais sórdidos. E é nesse momento que a arte se torna mais importante, se torna fundamental. Eu acho muito importante o que a gente está fazendo agora. “Dedo na Ferida”, por exemplo, que é o meu trabalho mais recente, é expressão disso. Está todo mundo cobrando, querendo assistir a esse filme com a mesma indignação com que se assistiu ao “Jango”, em 1984. Havia um esvaziamento do cinema político atualmente. As salas estavam vazias, os cinemas não conseguiam atingir grandes públicos, e agora nós estamos percebendo a importância que tem o cinema político. Então, está voltando a funcionar aquela velha dobradinha entre arte e política. E num dos momentos, na política do Brasil, mais difíceis. É a hora em que a arte mostra sua importância.

Não é uma relação imediata porque a gente tem, nesses últimos anos, sobretudo de neoliberalismo e globalização, vivido muito pressionados pela arte apenas como entretenimento. Então as pessoas passaram a ter esse preconceito com a arte política. Mas é no momento de crise que a arte mostra sua força como expressão política. Eu acho que é nesse momento que a gente cresce. No caso do Jango, nós estávamos no momento das Diretas Já, e o resgate da história e da política serviam como alavanca para o futuro. E nessa questão do sistema financeiro, que é o problema que a gente vive hoje, que é a verdadeira grande ditadura, o filme vai funcionar também como uma alavanca de reflexão coletiva para a transformação em uma vida melhor.

Vídeo: Arquivo pessoal Tao Burity / Reprodução

RS – Falando sobre o “Dedo na Ferida” então, o filme busca elucidar de que maneiras essa gestão nefasta do mundo realizada pelo capital financeiro, que cooptou os Estados Nacionais, influencia de forma direta a vida dos cidadãos comuns. Como você estabeleceu essa relação entre o sistema financeiro e a vida do trabalhador comum?

ST – Eu mostrei um podólogo, que mora em Japeri, trabalha em Copacabana. Leva uma hora e quarenta de trem todo dia para o trabalho. Volta para casa, não tem meios para educar os filhos, não tem meios para nada. E aí eu vou mostrando todo o discurso do sistema financeiro, somado à vida de um cidadão comum, do cotidiano. Essa simbiose é que faz as pessoas entenderem o quanto aquele sistema financeiro – que para a imensa maioria das pessoas, que não jogam na bolsa, que não aplicam no mercado de capitais – passa a ter uma conotação material. Passa a ter um valor, as pessoas passam a entender esse discurso.

RS – E como você conheceu a história do podólogo Anderson? Como você chegou até ele?

ST – Ele é meu podólogo. E aí, conversando com ele, eu vi que ele era o personagem que eu estava procurando. O personagem estava ao meu lado. Eu acho que, nesse sentido, foi até uma sorte muito grande. Mas eu buscava esse personagem.

Ele mora na estação mais longe da Central, do trem. Ele leva uma hora e quarenta para ir, mais uma hora e quarenta para voltar, que também coincide com a duração do filme, para mostrar a falta do lazer. É o tempo de uma sessão de cinema que ele passa chacoalhando no trem.

Foto: Captura de tela “Dedo na Ferida” / Reprodução

RS – Em uma entrevista recente sobre o filme, você disse: “Hoje o cancro é o sistema financeiro, mas tenho convicção de que o expeliremos e viveremos num mundo solidário e feliz.” Você já vislumbra esse caminho? Você já enxerga um projeto a que a gente tenha acesso, que você acredite ser capaz de fazer isso? Ou isso ainda é uma coisa a ser construída?

ST – Tem um economista que diz, no final do filme, que o jogo não está jogado. A gente pode ir para um lado ou para o outro. Na verdade, o filme é um convite às pessoas agirem de uma forma coletiva. Várias entrevistas no final do filme levam a essa reflexão, de que a gente tem que voltar a fortalecer o Estado por um lado, para regular as relações essenciais, você tem que resistir aos avanços dos fascistas e dos fascismos, que está se tornando insuportável. E você tem que lutar contra o sistema financeiro. Dessa luta nasce o novo. Eu não dou isso como pronto e acabado, eu estou junto das pessoas que querem chegar em algum lugar.

RS – Como o filme novo se posiciona e se encaixa na sua trajetória?

ST – Eu acho que o cinema é uma arma muito importante para as transformações políticas. Eu acho que “JK” foi uma lição de democracia em um momento que nós ainda tínhamos ditadura. O “Jango” retomou a questão social. No “Utopia e Barbárie” eu discuti o destino do mundo. “Milton Santos” foi a primeira crítica porrada na globalização, e agora tem que discutir o sistema financeiro. Eu acho que a arte política é fundamental. Eu tenho muito orgulho de fazer.

Foto: Arquivo pessoal Tao Burity / Reprodução

RS – Pouca gente se lembra hoje em dia, mas nos anos 1990 você foi secretário de cultura do DF, no governo Cristovam Buarque. Como foi essa experiência na política de gabinete?

ST – É muito pior. É horrível você ficar assinando cheque para dar dinheiro pros outros usarem [risos]. Eu ficava morrendo de inveja dos meus colegas. Eu prefiro mil vezes ser cineasta. Experiência administrativa, nunca mais.

RS – Como foi conhecer o João Cândido pessoalmente?

ST – Foi maravilhoso. Aos 19 anos de idade. Conhecer um dos maiores revolucionários do mundo foi muito importante. Eu tenho muito orgulho de mim mesmo. Eu gosto muito da minha trajetória como pessoa, como vida. Eu convivi com grandes pessoas e fiz trabalhos importantes.

RS – Grande parte do seu conteúdo, do conteúdo da Caliban, está disponível no Youtube. Isso é uma postura pensada politicamente também, de acesso à informação?

ST – Eu acho que o filme é feito para ser visto. Eu não vejo graça em fazer o filme, batalhar, e depois ele ir para uma prateleira. Como o cinema estava em uma fase muito ruim, você não conseguia chegar nas salas de exibição, eu disponibilizei no youtube como uma forma de ser visto. E foi uma estratégia que deu certo, porque todo mundo me conhece como cineasta, conhece meus filmes. Eu não fiquei rico, mas auxiliei na reflexão política sobre o Brasil. Então, eu acho que deu certo. As pessoas estão assistindo aos filmes e os filmes estão circulando. Em vez de ficar me lamentando que não tem público, eu criei público.


Vitor Camargo de Melo

31 de outubro de 2017