O bamba do Bambambã

Revista Seca conta o que viu, ouviu e aprendeu ao visitar o melhor bar de Brasília

Era uma guerra entre França e Inglaterra pelo domínio da Holanda. Na Holanda se fazia uma bebida chamada Genever, que acabou fazendo muito sucesso entre os soldados ingleses. Bêbados, eles triplicavam sua ferocidade e audácia. Por causa dos beberrões de armadura, a bebida foi apelidada de “a coragem holandesa” e recebeu a culpa por milhares de atrocidades que os cães da rainha faziam pelo mundo. Os soldados, apaixonados por Genever, saquearam todas as fábricas de Holanda, encheram seus navios e começaram a comercializar a bebida em nome do Império.

Ainda na mesma época, mas alguns anos depois, o escorbuto – a doença do pirata – era uma grande epidemia na Europa. Descobriu-se que a casca de uma árvore andina chamada Quina servia como remédio. Provavelmente pelas mãos da sórdida marinha inglesa, a casca da Quina foi parar na Índia. No país que encantou os Beatles, sábios locais conseguiram fazer um xarope da casca. Só restou um problema: ela era muito amarga para ser bebida pura.

Um alquimista local sugeriu misturar limão – que é fonte de vitamina C e bom para a saúde – naquele xarope, para ver se ele ficava mais fácil de ser ingerido. Não ficou. O problema só se resolveu de vez quando um abençoado resolveu misturar o Genever ao xarope de Quina com limão, criando um supermedicamento capaz de combater o escorbuto e também de prevenir a então temida peste bubônica. O gim é um neto do Genever e o remédio milagroso hoje é chamado de Gim Tônico.

Eu nunca saberia dessa passagem maravilhosa da história da humanidade se não tivesse descido as escadas do bloco E da CLN 408 e me sentado em uma mesa coberta por uma toalha florida junto com Gabriel – o mago dos drinks, o rei das camisas, o bamba que é dono do bar Bambambã.

“Você pode ver que não tenho nenhum cliente com escorbuto, mano”, ele arrematou.

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O Bambambã é um inferninho onde predomina a luz vermelha. É o único inferninho bem ventilado no hemisfério sul. Mesmo sendo no subsolo, tem oito mesas e um sofá para quem prefere beber sentado e ao ar livre. Na parte interna, algumas prateleiras à meia altura servem de amparo para os experientes que já têm calos nos cotovelos, e cuja maior preocupação referente ao conforto é assentar, com segurança, seus drinks para protege-los de qualquer infortúnio que possa leva-los ao chão. Você não precisa se decidir quanto a qual local ocupar no Bambambã, melhor, você pode sentar o cotovelo, depois sentar a bunda, depois sentar o cotovelo, tudo isso na mesma noite. Agora, o que você não pode deixar de fazer é tomar pelo menos um drink em pé, ralando a barriguinha no balcão principal, onde ouvirá melhor o som do vinil (no dia que fui rolou Alcione, Maria Betânia e Gal Costa; mas existem relatos de que já se pôde ouvir Radiohead, Elimar Santos e até mesmo Eminem, num dia em que o DJ Emídio se empolgou nos drinks), conhecerá outros bebedores e ouvirá as épicas histórias do Gabriel – que faz os drinks, serve as mesas, anota os pedidos, limpa o balcão, normalmente acompanhado por apenas um, nunca mais que dois, amigos fazendo freelance.

Os dois banheiros são unissex e têm um pequeno estoque de absorventes à disposição das mulheres. A construção em estilo industrial é decorada com pôsters colados diretamente na parede, na técnica do lambe-lambe. As imagens são um capítulo à parte e contam uma história peculiar: algumas fotos, grandes, de Edward Curtis, o fotógrafo que criou a imagem que conhecemos hoje do Velho Oeste e dos indígenas norte-americanos. Diversas imagens da China da Revolução, entre elas o único registro que se tem notícia do grande farol Mao Tse-Tung sorrindo. Tem parede ainda para um monte de reproduções de cartas de tarot, em tamanho a4, e para uma foto de um metro do rosto do cantor Belchior, o maior filósofo brasileiro do largar-tudo, que Gabriel diz que foi de extrema importância em seu processo que culminou com a abertura do bar.

O processo

Gabriel era garçom em Brasília, no Café da Rua 8 – que, coincidentemente, ficava na mesma quadra em que hoje funciona o Bambambã. Ele estava terminando sua graduação em antropologia e muito, muito enjoado da cidade. Um dia tomou uma decisão: pegou um dinheiro emprestado com um amigo, pagou suas dívidas e, com trinta reais no bolso, entrou em um ônibus em direção a Luziânia, cidade goiana que fica há 60 quilômetros da capital. Parou em um posto de gasolina na cidade goiana onde os caminhoneiros recebiam propostas para serviços de frete (“levar cimento para Ribeirão Preto, quem quer? Tem que chegar na terça cedo, no máximo!”) e ajudantes de caminhão iam tentar pegar algum trampo. Ficou lá por cinco dias e, bom de papo, conseguiu fazer amizades. Ganhou umas fichas que valiam cinco minutos de banho e até sabonete, shampoo e condicionador – cortesia de uma moça que trabalhava na loja do posto e se compadeceu com o estado daquele cabelo que, então, era comprido. E ao final do quinto dia conseguiu uma carona em direção ao Rio de Janeiro.

Escolheu o Rio de Janeiro como destino porque seu grande amigo, Tiagão, estava morando lá. Mas Gabriel ligava, mandava e-mail, e não conseguia entrar em contato com ele. Em uma dessas coincidências que a realidade arruma só para testar a credibilidade do repórter, enquanto procurava sem sucesso por seu amigo, Gabriel recebeu um telefonema de uma garota com a qual tivera um affair e que também estava morando no Rio. Ela disse que estava com saudades e ele, da boleia de um caminhão, respondeu que ela poderia “colocar o Romaneé Conti para gelar, que eu estou chegando!”. Quinze dias depois Tiagão voltaria da aldeia, onde ficara incomunicável, e abrigaria Gabriel em definitivo.

Gabriel arrumou um emprego de garçom em uma hamburgueria e passou a jogar a pelada dos garçons que acontece de madrugada no Aterro do Flamengo. Canhoto e habilidoso, fininho, imagino que tenha se tornado o comandante da resenha em poucas partidas. As coisas foram se arrumando e ele arranjou um segundo emprego, no período diurno em uma livraria, que conciliava com a vida noturna de garçom e atleta amador. Voltou a escrever a sua monografia que abandonara e sua orientadora, generosa, disse que voltasse para defender. Ele defendeu, foi aprovado e se formou em antropologia. Formado, trabalhou no terceiro setor e no executivo, sempre com questões referentes à saúde ou educação. E assim foi até que, com o golpe de 2016, Gabriel, que estava trabalhando em um ministério, diz que surtou. Em uma reunião já com a equipe usurpadora, Gabriel, diante do enfado e do absurdo, deu um soco em seu próprio rosto. Levantou, pediu licença e foi embora para sempre. Ali criou corpo a ideia, antiga, de ter um bar. “Beber a bebida que eu quero, ouvir a música que eu gosto, estar com os amigos. Ter um bar é o sonho, mano!”.

Foi para Bahia tentar abrir um bar na praia, mas chegou em outubro e tudo que era arrendável já fora arrendado. Ficou amigo de Chico, que estava abrindo um bar, e passou a trampar para ele. Algum tempo depois chegou Bob, que passava cinco meses do ano trabalhando de barman em Ibiza, e convenceu Chico a servir drinks no bar que estava abrindo. Gabriel aprendeu com Bob a fazer coquetéis de forma rápida e em grandes quantidades, como deve ser em um bar.

Quando parecia que tudo estava encaminhado para continuar vivendo na praia e trabalhando em um bar, Gabriel teve que voltar às pressas para Brasília. O casal de chineses para os quais sublocava o apartamento que aluga simulou um assalto e fugiu às pressas, sem pagar o aluguel. Gabriel teve que voltar para lidar com o prejuízo.

O Bambambã

Enquanto lidava com o calote que tomou dos chineses, Gabriel viu a placa de aluga-se no lugar onde hoje é o Bambambã. Mesmo sem grana, ao ver o bom estado do imóvel, alugou. Montou o bar da forma mais barata que conseguiu: comprou a geladeira por 80 reais em um leilão, comprou as mesas e cadeiras na OLX, fez, ele mesmo, toda a parte de identidade visual do bar (a marca, a logo) e imprimiu e colou os pôsters (exceto os chineses, que Germano – amigo de longa data que, assim como Gustavo, também conhece o universo da coquetelaria e, quando em Brasília, desfila esse talento no balcão do Bambambã – trouxe da China).

Gabriel conta que, quando disse às pessoas que iria abrir um bar, algumas perguntavam qual seria o conceito. Boteco, ele respondia, boteco com drinks. Trabalhar com uma margem pequena que permita servir as bebidas em um preço justo (todos os drinks custam R$20 e são bem servidos. A exceção do Rabo de Galo Amazônico, que leva cachaça de jambu Meu Garoto e custa $25. A única cerveja vendida no bar, a Heineken de 600ml, custa $10,50) para formar um público consumidor de coquetéis.

Um dos momentos mais memoráveis do Bambambã, inclusive, teve como coadjuvante a tradicional cachaça de jambu. Lee Ranaldo, guitarrista da icônica banda Sonic Youth, estava em Brasília para um show e foi parar no bar. Ralando a barriguinha no balcão, decidiu experimentar essa bebida que é conhecida por deixar a boca dormente. Gabriel avisou, em um “inglês porco”, que aquilo era um anestésico amazônico. Talvez Lee não tenha compreendido, talvez tenha decidido se arriscar, mas fato é que depois que provou o jambu e sentiu adormecer a sua língua pensou que estava tendo um AVC e teve que ser levado para a área externa para respirar melhor. Ele mesmo postou essa história, resumidamente, em seu instagram:

Com parte do público já formado, incluindo aí um astro internacional do rock e muitas amizades construídas durante muitos anos de sangue-bonisse, Gabriel segue vivendo a vida que sempre mereceu, com bons papos, boas bebidas, boa música e boas pessoas em volta – tudo regado a gargalhadas estrondosas e fumaça de Marlboro Vermelho.

 

UM DRINK POR CENA

(Revista Seca propôs 4 cenas diferentes e pediu que Gabriel escolhesse o melhor drink para cada uma das ocasiões)

CENA 1: DIA DE SOL. BEIRA DE PISCINA. OCLÃO ESCURO, CHAPÉU, CENOURA&BRONZE NO CORPO:

DRINK: SPRITZ. Espumante, aperol, casca da laranja e água com gás. “Na taça grande e com sorriso safado”.

CENA 2: DIA RUIM. PROFISSIONAL DO MERCADO FINANCEIRO PERDEU 10 MILHÕES EM UMA TRANSAÇÃO. XINGADO PELO CHEFE, PROVOCADO PELOS COLEGAS. VOLTA PARA SEU LUXUOSO, TRISTE E FRIO APARTAMENTO EM SÃO PAULO.

DRINK: NEGRONI. Gim, vermute italiano e Campari. “Já é logo um tapa na nuca pra ficar esperto”.

CENA 3: UMA PESSOA ACORDA ANTES DO SOL NASCER. A CASA É TODA DE VIDRO E DELA SE VÊ UM LAGO. ELA ANDA, NUA, DESVIANDO DOS CORPOS NUS QUE AINDA DORMEM. BITUCAS, SERINGAS, CHICOTES E ATÉ MESMO UMA MÁSCARA DO JASON JOGADOS PELO CHÃO.

DRINK: BLOODY MARY. Suco de tomate, vodka, o verdadeiro molho inglês, pimenta tabasco e limão Tahiti. “Já rebate a ressaca e serve como café-da-manhã”.

CENA 4: DEPOIS DE GANHAR O PREMIO DE MELHOR DO MUNDO CRISTIANO RONALDO CHEGA AO BAMBAMBÃ, AINDA DE SMOKING. O QUE SERVIR PRA ELE?

DRINK: BEE-S KNEES. Gim, limão siciliano e charope de mel. “Esse era o drink que se tomava fechando negócios nos Estados Unidos nos anos 1920. É o drink do Leonardo di Caprio em O Grande Gatsby. É puro poder, mano”.

foto: Tiago de Aragão/Revista Seca


Danilo Oliveira

31 de outubro de 2017