“Júpiter Maçã: A efervescente vida & obra” ganha lançamento em Brasília

Conversamos sobre música e o processo de escrever uma biografia com o jornalista Pedro Brandt, um dos autores de livro sobre o músico gaúcho Júpiter Maçã, que será lançado no dia 26 de janeiro

Fotos: Marcos Bragatto/Reprodução (no alto)  ///  Plus Editora/Reprodução (abaixo)

No dia 26 de janeiro, o músico gaúcho Flávio Basso, mais conhecido como Júpiter Maçã, completaria 51 anos. O artista, no entanto, sofreu uma morte precoce e se foi no final de 2015, aos 47 anos, após um infarto agudo do miocárdio. No mesmo dia deste ano, em homenagem ao aniversário do músico, a biografia “Júpiter Maçã: A efervescente vida & obra” será lançada em Brasília, na Mercearia, uma loja colaborativa na 412 Norte que mistura gastronomia e cultura. O artista é autor do hit “Um lugar do caralho” e trabalhou, em suas canções, influências que passam pelo rock inglês de Beatles, Rolling Stones, Kinks, The Who, Pink Floyd e ainda por fontes como Bob Dylan, bossa nova, Tropicália e o som dos grupos Stereolab e Franz Ferdinand.

O livro, editado pela Plus Editora, é um trabalho feito a quatro mãos e muita pesquisa: o jornalista gaúcho Cristiano Bastos e o jornalista brasiliense Pedro Brandt foram os responsáveis por passar a limpo a turbulenta trajetória do artista que, atualmente, é tido como um ícone do rock do Rio Grande do Sul. Ambos os jornalistas vasculharam blogs, revistas, fanzines, jornais, sites, gravações de rádio e viajaram para encontrar novos materiais ou entrevistar pessoas próximas ao músico gaúcho. Cantor, compositor e multi-instrumentista, Flávio Basso integrou as bandas de rock TNT e Cascavelletes e, em carreira solo, lançou discos com os pseudônimos Júpiter Maçã e Jupiter Apple.

De acordo com os autores, a biografia traça a vida do músico do nascimento à morte, passando por suas vitórias (uma irregular, porém cultuada, carreira de rockstar – quase incomparável no Brasil) e tragédias (alcoolismo, paranoia, a morte precoce de seu único filho) com riqueza de detalhes, revelações e informações inéditas. Ao longo de 420 páginas, é possível ainda observar uma grande pesquisa iconográfica que resultou em um farto material composto por pôsteres, cartas, panfletos e muitas fotografias raras ou inéditas. Com o intuito de mergulhar um pouco mais no livro, conversamos com Pedro Brandt. O jornalista, que se encantou com as descobertas que foram feitas durante todo o processo de pesquisa da obra, se deparou também com um artista auto-sabotador e com sérios problemas pessoais, o que mostra a complexidade inerente a todo ser humano. Confira:

Como surgiu o impulso inicial para concretizar essa biografia? É um projeto post mortem ou vocês já alimentavam a ideia antes?

Acredito que o impulso determinante para a existência desse projeto foi o convite, por parte da editora porto-alegrense Artes & Ofícios, para que o Cristiano Bastos fizesse uma biografia do Júpiter Maçã. Ele havia lançado recentemente, pela mesma editora, a biografia do cantor e compositor gaúcho Julio Reny, que teve uma recepção muito boa no Rio Grande do Sul. Então nada mais lógico do que, com a morte do Júpiter, em dezembro de 2015, a editora quisesse mais uma biografia sobre um notório músico gaúcho. Ainda no começo da apuração, em março de 2016, embarquei oficialmente no projeto, a convite do Cristiano. A presença da Artes & Ofícios nessa história era a garantia de que o livro existiria, de que fazia sentido pesquisar e escrever. Entretanto, por questões orçamentárias, eles desistiram de lançar a biografia, que só alguns meses antes do lançamento (setembro de 2018) conseguiu uma editora, a Plus – até então uma editora de livros sob encomenda.

Mas voltando à pergunta principal: eu sempre quis escrever uma biografia sobre o Júpiter. Se me perguntassem, em 2009, qual biografia eu gostaria de escrever, a resposta seria Júpiter Maçã. Não apenas por ser fã do trabalho dele, mas por saber que a vida do Flávio Basso/Júpiter Maçã foi repleta de fases distintas, nas quais ele encarnou diferentes personas; indo da fama à lama, e da lama à fama de novo (e de novo), uma narrativa com ultraje e baixaria, amor e sexo, altos e baixos e muitas reviravoltas. E muita música. E os músicos brasileiros – do rock ou não – geralmente têm uma trajetória muito linear e desinteressante. Escrever sobre um personagem complexo me parecia a coisa mais estimulante a fazer. Além disso, as informações que eu encontrava por aí sobre o Júpiter sempre me pareciam insuficientes. Ninguém sabia, por exemplo, quem eram o Pereiras Azuiz, banda com quem ele gravou, em maio de 1995, uma famosa demo tape, na qual estão presentes várias de suas músicas mais conhecidas. Pouco ou nada se sabia também sobre sua fase folk. Voltando ainda mais no tempo, nunca me pareceu muito claras as circunstâncias da saída do Flávio do TNT para fundar os Cascavelletes e o próprio fim dos Cascavelletes. Havia muito a desvendar entre suas mutações estilísticas. Enfim, eu percebia a trajetória do Flávio/Júpiter como algo que ainda não havia sido devidamente contada.

A pesquisa do livro foi muito difícil? Quais caminhos vocês encontraram para buscar informações? Quem foram pessoas essenciais durante todo esse trabalho?

A pesquisa deu trabalho, mas não foi tão difícil, pois acredito que conseguimos encontrar respostas – ou, ao menos, indícios – para quase todas as perguntas que nos propusemos na biografia. Para isso, a apuração (que durou pouco mais de dois anos) foi feita em jornais, revistas, fanzines, sites, blogs, gravações de áudio e vídeo e, claro, entrevistas com pessoas próximas ao Flávio Basso/Júpiter Maçã, como familiares, amigos, mulheres com quem ele se relacionou, músicos com quem tocou, produtores com quem trabalhou, fãs, etc. Algumas pessoas, que eu diria que teriam uma contribuição importante para a biografia, não quiserem conceder entrevista. Por sorte, existe um farto material com depoimentos de quase todas elas para suprir essas ausências. O músico Marcio Petracco foi uma fonte essencial, pois foi amigo de Flávio Basso desde a adolescência (eles nasceram no mesmo hospital e no mesmo dia, 26 de janeiro de 1968). O Vini, produtor dos Cascavelletes, foi importantíssimo para falar da banda; assim como o Luciano Albo, que tocou baixo no grupo depois da saída do Frank Jorge. O baterista Clayton Martin e o tecladista Astronauta Pinguim também tiveram contribuições inestimáveis. O baterista Zito Wilfrido, dos Pereiras Azuis, contou toda a história da banda, coisa que ninguém sabia. E, claro, a Dona Iara, mãe do Flávio, e a Rachel, primeira mulher dele, revelaram muito da intimidade do biografado. Mas acho até difícil elencar os mais importantes, porque, muitas vezes, um depoimento se revela crucial no entendimento de determinada parte da narrativa, por mais breve que seja. Assim tornou-se possível ir tapando todos os buracos que a história tinha no começo.

O que te impressionou mais durante o processo, em suas descobertas? Qual é a imagem que você tinha dele antes, e qual ficou depois do livro? Que acontecimento te marcou?

Para mim, o mais gratificante foi chegar até informações que ninguém tinha. Comemorei cada descoberta como se encontrasse um tesouro. Como, além da história dos supracitados Pereiras Azuiz, descobrir gravações inéditas do Flávio Basso, em sua “fase folk”, algo que só o técnico de estúdio que as registrou e o próprio cantor sabiam da existência; e também conhecer os bastidores das gravações dos álbuns dos Cascavelletes e do Júpiter Maçã. São coisas que, como fã, eu tinha muita curiosidade. O “descortinar” do ser humano Flávio Basso – graças às entrevistas com pessoas muito próximas a ele – foi um processo interessante para entender, especialmente, os seus fracassos. Seu alcoolismo era público e notório. Mas “paranoico” foi uma palavra que apareceu com frequência nos depoimentos. Além disso, o Júpiter se auto-sabotava o tempo todo. Acredito que ele poderia ter sido um artista muito maior, com mais sucesso, e não o foi principalmente por conta de uma série de decisões equivocadas e um ego inflado que nublou sua percepção das situações em que se encontrava. Um exemplo disso foi, ao invés de lançar um álbum com as novas músicas em português compostas em 97/98 (que são ótimas), lançar o disco Plastic Soda (cantado em inglês, no qual ele adicionou bossa e sotaque jazzy em sua psicodelia) que, por mais que seja um grande álbum, rompeu com toda uma expectativa do público conquistado durante a divulgação do cultuado A sétima efervescência.

Vocês escreveram sobre um artista com várias obras e várias histórias, que marcou tanto pela produção musical quanto pela personalidade. Como tem sido a resposta do público ao entrar em contato com outras facetas dele?

A primeira tiragem do livro, de mil exemplares, está quase esgotada, o que mostra o interesse pelo biografado. Os poucos comentários que eu li ou ouvi de pessoas que leram a biografia foram breves, porém entusiasmados. Um amigo de Porto Alegre, que acompanha de perto o rock da cidade desde os anos 1990, me disse que chegou a chorar em determinadas passagens do livro (como o relato da morte do único filho do Flávio). Também vi um comentário no Facebook, de um cara que eu não conheço, reconhecendo a pesquisa do livro como minuciosa, rica em detalhes – o que, desde o início, foi a intenção desse projeto: apresentar muito mais informação do que a vida do biografado, mas coisas que orbitaram sua existência, de forma a trazer para o leitor um contexto mais abrangente. E não dá para mensurar o quanto os leitores percebem isso ou não, o quanto, pela leitura, eles entendem o que são informações inéditas apresentadas no livro e o quanto são coisas que já eram públicas. De toda forma, eu acharia ótimo, no lugar das loas dos fãs do Júpiter, conversar eventualmente com alguém que leu o livro e tenha comentários mais críticos a fazer.

LANÇAMENTO DA BIOGRAFIA “JÚPITER MAÇÃ: A EFERVESCENTE VIDA & OBRA” EM BRASÍLIA:

Dia 26 de janeiro, sábado, das 16h às 20h, na Mercearia (412 Norte Bloco E, Lojas 4/10), com a presença do autor Pedro Brandt. Entrada franca. Classificação indicativa livre. À venda no evento por R$ 70.

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Maíra Valério

22 de janeiro de 2019