“A arte é uma libertação”

Entrevista com Beatriz Leal, autora de “Mulheres que Mordem”, livro finalista do Prêmio Jabuti 2016

Beatriz é cheia de histórias legais para contar. Nossos dois encontros por causa dessa entrevista foram mais longos que o previsto. O primeiro foi em sua casa, um apartamento na 106 Norte, com uma varanda deliciosa, uma luz da tarde incrível e direito a bolo de mandioca e café servidos na mesa de sinuca que ocupa o centro da sala. O segundo, no gramado da quadra, onde tiramos fotos e conversamos mais um tanto. Beatriz tem um papo espontâneo e acolhedor, ao mesmo tempo curioso e instigante.

Uma de suas histórias que mais me encantou foi sobre a maneira como ela se entregou para as entrequadras de Brasília quando aqui chegou, aos 18 anos de idade, no final do ensino médio. Naquela idade em que devemos tomar algumas decisões sobre profissão, universidade, futuro… Naquela idade em que os jovens brasilienses que sonham com a UnB já aprenderam que “uma alternativa errada anula uma certa”. Mas ela não fazia ideia do que isso significava e percebeu seus planos de adolescente virarem de cabeça para baixo. Paulistana de Higienópolis, Beatriz veio com o pai e a mãe devido o trabalho do pai.

Cursou jornalismo em uma faculdade particular, montou uma banda de rock com as novas amigas, passou em um concurso público, conheceu seu companheiro (responsável pelas várias plantinhas da varanda e dono do boneco do Darth Vader que decora o móvel de entrada do apartamento) e se jogou nos gramados do Plano Piloto, onde escreveu seu livro de estreia, “Mulheres que Mordem”, publicado pela Imã Editorial, finalista do 58º Prêmio Jabuti, na categoria romance, e segundo lugar do International Latino Book Awards, de 2016. Devido à projeção que a indicação de “Mulheres que Mordem” obteve no cenário literário nacional, conhecemos Beatriz Leal, que saiu da invisibilidade comum das brasileiras que se dedicam a escrever. Agora parece que já não tem mais escolha, assumiu-se escritora!

Como quem se atreve a sair de sua própria pele, Beatriz constrói suas personagens. E, com muita habilidade com a escrita, nos leva junto nas suas histórias. “Mulheres que Mordem” enleia numa narrativa repleta de detalhes e delicadezas as realidades particulares e sociais de quatro mulheres em momentos históricos específicos. No livro, a história da resistência latino-americana diante de um contexto de ditadura militar é também a história de estratégias de sobrevivência de Laura, Rosa, Clara e Elena.

Nosso primeiro encontro ocorreu naquela quarta-feira do dia 24 de maio, que ficou marcada pelo confronto entre manifestantes e policiais militares no protesto que exigia a saída do presidente ForaTemer. Estávamos há poucos metros da Esplanada dos Ministérios, mas alheias aos tumultos daquela tarde. No meio da conversa, decidimos pelo intervalo para o café com bolo e, seguindo o mesmo impulso, ligamos os nossos celulares. Observei as reações de Beatriz diante das notícias sobre o tumulto: ela ficou revoltada e, de tão chocada, pareceu perder o chão. Era uma mistura de preocupação com colegas jornalistas que estavam no local e com o contexto político que vivemos. Constatei que fazia sentido ser a mesma Beatriz que escreveu evocando os dramas pessoais de mulheres que foram torturadas, de abuelas que buscam suas netas e daquelas que perdem suas histórias nesses desencontros.

Nossa segunda conversa aconteceu no final da tarde do domingo seguinte. Decidimos nos encontrar para tirar algumas fotografias. Beatriz reproduziu uma cena do ritual de escrita do livro. Sentou-se no gramado coberto por uma canga colorida e retirou da bolsa a mesma caixinha que usou para decidir seus caminhos pela cidade a ser descoberta, a ser amada, a ser vivida. Da caixinha saíram algumas palavras, a frase de uma música dos Beatles, uma porção de papéis e um lápis. Beatriz gosta das palavras. Cercou-se delas e ali se sentiu confortável. Enquanto eu a fotografava, ela decidiu rabiscar em um daqueles papéis em branco que estavam guardados na caixinha. Escreveu a palavra “força”.

Em seguida me mostrou o livro autobiográfico de seu avô. Eu já o havia notado no seu apartamento: ele recebe um lugar de destaque na sala. Ela folheou apaixonada aquelas páginas escritas à mão. “É lindo demais”, disse. E leu seu trecho favorito, de quando o avô está indo de Minas até São Paulo a pé (!) e encontra um velhinho no meio do caminho, mas ele perde a paciência com o velhinho, que queria ficar conversando e andava muito devagar. “Pra mim foi muito engraçado porque, quando li, era meu vô que era um velhinho, né? (risos) Enfim, é uma memória incrível”.

Para ela, a arte é uma libertação, um espaço onde você tem que poder o que quiser. Eu a vejo assim agora, como uma mulher ousada, que olha de frente para seus próprios medos e fala sobre eles, que chama a força para sua existência e que sabe que quem escreve tem poder. E não tem receio de deixar mais questões no ar do que se contentar com respostas prontas para assuntos da vida.

Foram duas tardes com uma das maiores revelações da literatura brasileira contemporânea. Bia (agora já me sinto íntima!) é incrível: forte, profunda, articulada, agradável, curiosa e engraçada. E a gente, da Revista Seca, agradece demais o acolhimento com boas histórias, sorrisos e camaradagem. Que venham mais números para a Revista e mais histórias escritas pela Bia!

Foto: Nanah Vieira

Foto: Nanah Vieira

Revista Seca – Beatriz, conta sobre a sua chegada à Brasília. Por que você veio e como foi chegar aqui aos 18 anos?

Beatriz – Para contextualizar, eu não digo que eu morei em São Paulo. Eu morei no meu bairro [Higienópolis]. Porque eu estudei na mesma escola a vida inteira. E tudo que eu fazia, aula de inglês e tal, era tudo no mesmo bairro, com as mesmas pessoas. Então, era como se eu tivesse saído de uma cidade pequena e vindo pra uma grande, em vez do contrário, que é o que as pessoas pensam quando você vem de São Paulo. E foi muito difícil, porque eu tinha só aquele grupo de amigos.

Eu vim por conta do trabalho do meu pai. Então não teve nada a ver comigo. Eu não entrei na UnB e fiquei teimando que queria ficar fazendo cursinho até entrar. Aí meus pais disseram: “Não, pelo amor de Deus, entra numa faculdade, vai fazer amigos” (risos). E foi ótimo! Aí eu fiz minha turma! Eu fiz comunicação noturno com uma galera mais velha, que já trabalha. Por outro lado, eu tenho família aqui. E é uma família muito bacana, muito acolhedora, com quem a gente não tinha tanto contato antes. Isso foi muito positivo!

RS – No release da exposição “A cara de Brasília”, do fotógrafo Alexandre Fortes, você escreveu que “em Brasília, descobrir pessoas que vivem fora do cotidiano burocrático é um desafio. Essas, por sua vez, trazem consigo histórias regadas de sabedoria, criatividade, talento e um desejo incansável por humanizar a capital.” Como você negocia a Beatriz escritora com a Beatriz funcionária pública?

B – Isso é muito louco mesmo. Na minha cabeça, até hoje, eu ainda não tenho isso 100% resolvido. Aí começa toda uma viagem minha, um questionamento que faço sobre o mundo: por que a gente se define pelo que a gente faz de profissão? E, então, qual é a minha profissão? Eu sou funcionária pública ou sou jornalista? A gente se define pela forma como a gente paga nossas contas. E isso é uma coisa muito cruel. Porque nem todo mundo vai conseguir pagar as contas com a sua arte. Para a maioria das pessoas, no que você trabalha é só como você sobrevive. Essa coisa de escritora eu também demorei a assimilar. Porque eu sempre escrevi, sempre gostei de escrever. E jamais eu colocaria “escritora”, imagina! E aí eu comecei a escrever o “Mulheres”. Então, eu sou escritora? Não, não tenho nada concreto. Finalizei o “Mulheres.” Sou escritora? Não, nunca publiquei, não tenho editora. Posso dizer que sou escritora? Aí consegui a editora, publiquei. Bom, agora eu tenho um livro. Mas mesmo assim eu demorei muito pra conseguir falar “sou escritora”. Um dia eu parei pra pensar: “Será que é isso? Será que é porque eu não consigo pagar minhas contas sendo escritora?” Então pra mim é um limbo. Mas aí, quando veio o Jabuti, que eu comecei a dar entrevista (risos), parece que foi a redenção! “É, parece que eu sou escritora agora”, pensei. E resolvi abraçar isso. E com orgulho. Quando eu não me via nesse papel de escritora achava até que “será que eu tô sendo prepotente em falar que eu sou escritora?” Então hoje eu consigo equacionar isso melhor. Eu escrevo, tenho um livro, ele foi reconhecido, sou escritora, sou assessora de imprensa, sou formada em jornalismo. Faço isso pra conseguir sustentar uma vida em que eu possa fazer minha arte do lado. É isso!

RS – Quais são os espaços que você costuma percorrer em Brasília, que te permitem humanizar a cidade e que, ao mesmo tempo, te instigam enquanto escritora?

B – Eu vou começar pelos lugares onde eu gosto de levar as pessoas que vêm de fora. Não é a Esplanada (risos)! Assim, é óbvio que você leva, é importante para as pessoas conhecerem a história do Brasil, principalmente a história recente, claro, de 1960 pra cá. Mas o que eu gosto mesmo, e raramente eu consigo fazer com visita, é pegar uma bicicleta, ou pegar um dia pra sair a pé e andar nas quadras. Entre as quadras, por dentro das quadras. Nos caminhos onde o carro não chega. Porque, pra mim, Brasília é isso. Inclusive é até uma bolha, porque é ao Plano Piloto que me refiro. Sei que Brasília é muito mais do que isso. Mas, pra mim, Bia, são as quadras. Que é uma coisa que, desde o começo, sempre me encantou. E até hoje eu saio andando e encontro um cantinho novo, uma coisa nova. É muito agradável andar por baixo das árvores. É bucólico, mas eu acho muito legal. E cada quadra tem a sua particularidade, um parquinho, uma praça, o próprio comércio, um café, uma banca diferente.

RS – Num dia desses, li uma matéria no Correio Brazilense que falava de artistas brasilienses que estão saindo de Brasília, principalmente indo pro Rio de Janeiro e São Paulo para poder viver de arte, porque encontram dificuldades no circuito da capital. E você fez um movimento inverso. Você saiu de São Paulo e veio para Brasília. Como é ser escritora em Brasília?

B – Eu acho que essa pergunta vai depender muito da arte de cada pessoa e de que forma ela se relaciona com isso. No meu caso, eu escrevo, tenho um livro publicado. Eu participo, por exemplo, de feirinhas, de eventos independentes, tipo a Movida Literária, que tá tendo essa semana. Mas fora isso eu acho que, na verdade, pra mim, estar em Brasília é melhor do que estar no circuito grande. Porque, por exemplo, pelo Jabuti, se eu tivesse em São Paulo, eu ia ser só mais uma. Em Brasília foi um destaque: “Nossa, alguém de Brasília está no Jabuti!” Então isso trouxe uma visibilidade boa. Lá em São Paulo eu acho que não seria assim.

RS – Lá é uma multidão…

B – É uma multidão. E esses eventos, tipo a Movida, se eu estivesse em São Paulo, eu teria muito mais concorrência pra ser convidada. Eu acho que eu estou sendo mais valorizada estando aqui do se estivesse lá. Agora, por outro lado, eu só consegui uma editora porque eu fui até o Rio em um evento. E foi lá que eu conheci o projeto por meio do qual eu consegui publicar o livro. E, realmente, se eu não tivesse saído daqui e ido até lá, talvez eu não tivesse conseguido realizar isso. Então, eu consigo compreender as pessoas que saem de Brasília pra buscar isso. Porque talvez, pra dar esse start, você precise mesmo estar num circuito onde isso já esteja mais consolidado. Mas pra mim eu acho que não seria vantagem sair daqui.

RS – Você começou a escrever o livro em 2012… e quando decidiu publicá-lo?

B – Eu comecei a escrevê-lo, sem ter a pretensão de que seria um romance. Aí, quando chegou num certo ponto, pensei “Se eu remendar aqui, aqui e ali, isso vira uma história, então vamos fazer!” Aí eu sentei e fiz. Quando acabou eu comecei a correr atrás de publicar.

RS – Conta um pouco sobre a publicação do livro, Bia, porque acho que é legal pra quem tá escrevendo e querendo publicar. Como foi que aconteceu contigo?

B – A primeira orientação é registrar na Biblioteca Nacional o seu direito autoral. É tão legal, porque aí chega um documento, um certificado. Eu mandei para algumas editoras, mas não recebi resposta. Então teve um evento, um curso, na verdade, de mercado editorial para leigos, no Rio. Eu fui fazer e um dos palestrantes era o dono dessa editora. É uma editora superpequena, chamada Imã Editorial, mas que investe em iniciativas digitais. E a Imã tem esse Projeto Motor, que é de crowdfunding. Então você manda seu livro, sua estória, eles selecionam e aí eles vão bancar o processo de crowdfunding numa plataforma deles, com a editora divulgando e lançando. É como se fosse uma pré-venda. Se a gente conseguisse vender o mínimo, beleza. Se não, não ia ter. E a gente conseguiu, aí publicou, lançou. Foi assim.

Foto: Nanah Vieira

Foto: Nanah Vieira

RS – Eu ganhei seu livro no ano passado, na época da Bienal do Livro. Meu companheiro me deu o livro com uma dedicatória tua, em que estava escrito: “espero que o livro te leve a lugares e tempos inexplorados.” E realmente o livro me levou. Quando eu passava de uma página para outra, eu saia da W3 sul e ia pra Argentina, e depois voltava para o Plano Piloto. Só que você não é historiadora. Então, você chegou a fazer alguma pesquisa histórica para poder construir esses lugares, esses tempos? Conta como foi sua pesquisa pra escrever sobre a ditadura militar na Argentina.

B – Tudo começou com uma matéria da The New Yorker que falava sobre as Avós da Praça de Maio. E isso me instigou muito, me sensibilizou muito o tema. Criei muita empatia com vários lados da história. E eu nunca tinha ouvido falar. Nossa, que loucura, como você não aprende isso na escola? Aí eu entrei no site das abuelas. E toda minha pesquisa foi nesse site. Fui à gráfica e imprimi a história de todas as abuelas, de todos os netos encontrados. E são muitas histórias. Dos netos eram uns 100, mais ou menos. Das avós, deviam ser umas 200. E foi isso, mergulhei nesse universo. Lá no site tem documentário estruturado, mas tem a entrevista bruta, em vídeo, com cada avó, cada neto. Mas eu não vi esse processo como se estivesse fazendo uma pesquisa formal, uma pesquisa histórica. Fui de curiosa mesmo. De jornalista, talvez.

RS – Como foi o processo de escrita, você tinha algum ritual pra escrever?

B – Ah, que legal essa pergunta. Porque eu tinha muitos rituais (risos)! Eu escrevi o livro em duas casas. Eu comecei em 2012, quando morava com os meus pais. Era no meu quarto mesmo, no computador, e de madrugada. Depois fui pra quitinete na 713/913 sul, que era muito pequena, então precisava sair pra escrever. Nessa época em que eu estava escrevendo o livro, eu pegava a bicicleta, o computador… Na verdade, eu tinha uma caixinha, em que eu botei papeizinhos com os números de quadras. Eu coloquei na caixinha todas as quadras em que eu conseguia chegar de bicicleta. Toda vez que eu queria escrever, eu sorteava uma quadra e ia.

Às vezes sentava em algum café, mas a maioria das vezes foi isso que te falei, eu sorteava uma quadra pra ir e ia de bicicleta. Eu deixava o celular em casa, nada de internet e ia. Como eu trabalho de manhã, ia sempre à tarde. Levava uma canga, o computador e ficava lá até a bateria do computador acabar. Tinha essa regra. Tem quadra que tem mesinha, banquinho. Cada dia eu ia num lugar… Eu gostava muito da 308 sul, da 316, da 310… Fui também em alguns cafés, no Parque da Cidade. Ia com o computador carregado, ficava até a bateria acabar e voltava pra casa.

RS – Como foi mostrar o livro acabado para as pessoas?

B – Foi esquisito, porque eu escrevi o livro sem contar pra absolutamente ninguém que eu estava escrevendo. Primeiro porque eu não sabia se ia terminar. Até eu assimilar que aquilo poderia virar um livro, já estava quase pronto. E aí foi uma experiência meio de sair do armário. Como eu ia falar pros meus pais “Ah, gente, escrevi um livro. Inteiro. Sobre a ditadura.” Mas foi… Falei pra minha mãe, falei pro meu pai, falei pra algumas amigas. Fui mostrando aos poucos pras pessoas mais próximas. Foi assim, de pouco em pouco e ia ganhando segurança.

RS – Sobre a elaboração e organização do texto, juntar carta com narração e entrevistas durante a consulta com Ramiro (personagem do romance). Você previu isso acontecendo?

B – Sim, eu previ isso acontecendo. Nessa parte, é aí que entra a minha parte mais metódica da coisa. Foi muito metódico. Até esse processo de sortear uma quadra e escrever até a bateria do computador acabar… É supermetódico isso. Eu pensei em quatro personagens e queria que cada uma tivesse uma voz diferente. Então organizei: a Helena vai ser na terceira pessoa, no passado. A Laura no presente. A Rosa vai ser na primeira pessoa. No início ia ser um diário, mas eu pensei que ia ser mais legal se ela estivesse conversando com alguém, então veio a carta. E a última, a Clara, eu pensei “Como que eu vou contar a história dela? Ela não vai poder escrever. Bom, eu posso desenvolver um pouco o que ela era pela Rosa, mas…” Aí me veio a história de botar na boca do torturador dela. Então fiz a sessão de terapia, que é uma grande crítica que eu às vezes recebo, e que faz sentido, que é uma coisa que eu mesmo me questiono: é verossímil isso? Uma pessoa dessas faria terapia? Provavelmente não. Na época foi ousado, primeiro, porque eu precisava escrever como um homem falaria. Segundo, são realidades que eu não vivi, que eu não vivo. Foi um desafio enorme. Mas como a ideia veio, eu não quis desapegar. Esse foi o último [personagem] que fiz. O livro estava praticamente pronto, só faltava o Ramiro. Aí eu sentei e fiz só ele.

RS – Como foi o processo de construção das personagens? Além das abuelas, as mulheres do seu cotidiano também estão presentes nessas personagens?

B – Certamente. Acho que todas as mulheres com quem eu convivo estão ali de alguma forma. Não em forma de história e fatos, mas… Não sei se ali, mas no que eu percebo como mulheres e Mulher, entendeu? Acho que isso vai estar comigo sempre. Uma inspiração específica da Rosa, mas que também serviu pra construir as outras, é a Estela de Carlotto, que é a presidente da Associação das Abuelas. Quando eu fiz o livro, ela ainda não tinha encontrado o neto dela. Ela o encontrou em agosto de 2014, que foi quando eu fechei com a editora, olha que mágico! Ela presidiu, preside ainda, a associação por uns vinte anos. E não tinha encontrado o neto dela. Ajudou a encontrar de muita gente, dava força pras outras avós, ela era uma superlíder, e não encontrava o dela. Nossa, ela é uma inspiração mesmo. Uma vez me perguntaram se eu vejo a cara das personagens. Eu não vejo. Minhas personagens não têm cara. Mas na Rosa eu vejo um pouco a Estela.

RS – Como você se relaciona com o feminismo, com a militância feminista? Você se considera feminista?

B – A definição de feminismo é uma coisa que ainda está em questão. Sim, eu sou feminista, isso é claro. Mas… Eu não me sinto muito preparada pra falar sobre isso. O livro tem elementos que abordam isso, mas é sutil. Eu acho que a pessoa, quando vê o livro, espera mais feminismo nele do que tem, talvez. Me revolta um pouco que num passado recente, e ainda tem famílias assim, as mulheres eram definidas pela família. Se elas vão ou não vão ter filhos, se são casadas ou não. Se você não trabalha, você é julgada, se você não casa você é julgada, se você não tem filho você é julgada. Mas que diabo! Não posso só ter um ou outro? Ou nenhum? Isso me irrita bastante. Que é mais sobre o meu universo também. Uma coisa que me irrita é quando me perguntam “Ah, o seu namorado te ajuda em casa?” Como assim “ajuda”, entendeu? E tem a questão do estupro. Eu acho muito covarde as pessoas falarem que a culpa é de como a mulher se veste.

Foto: Danilo Oliveira

RS – Em um dos nossos e-mails trocados você escreveu que o que te dá orgulho de ser brasileira são os gibis da Turma da Mônica e o Irmão do Jorel. Por que o gibi e o desenho animado? Qual a relação com a brasilidade, além da origem deles, da nacionalidade?

B – Turma da Mônica, pra mim, é genial. Eu aprendi a ler com Turma da Mônica, com os meus pais lendo pra mim. Minha avó que me dava o gibi. Eu acho genial, eu quero que os meus filhos leiam Turma da Mônica! Acho que todo mundo tem que ler. Se você for no meu banheiro, tem Turma da Mônica (risos). Eu tenho orgulho de que é brasileiro. Eu acho muito bom pra quem tá aprendendo a ler. É fofo, é todo um universo. E o Irmão do Jorel é porque é muito bom! Eu tenho orgulho porque é um desenho que foi comprado pelo Cartoon Network, passa em outros lugares, você tem versão dublada em inglês.

RS – Como você se relaciona com as redes sociais? Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter…

B – Twitter eu tenho pra ler notícia, mas eu não posto. Snapchat eu nem cheguei a ter. Facebook eu publico mais, mas Instagram é só o meu pessoal. Não tem nada a ver com o livro. E tem uma página do livro no Facebook, do “Mulheres”, que eu alimento também. Eu gosto de ficar lá, ver as notícias que as pessoas estão postando. Eu acho o Facebook muito útil pra evento. E meme, gente! Meme é a melhor coisa da internet. Eu adoro!

RS – O que você gosta de ouvir?

B – Eu tô num momento muito Radiohead (risos). Porque fez 20 anos do disco. Último grande disco de rock! Minha banda preferida é Oasis, foi por muito tempo. Gosto muito de Los Hermanos. O grunge como um todo, Pearl Jam, Blind Melon. Tem sempre os guilty pleasures, né… (risos).

RS – E quais são seus próximos projetos? Tem algum em andamento?

B – Ah, eu tô escrevendo de novo. Mas sem previsão sobre quando vou terminar. Mas estou empolgada! Vamos ver se eu consigo fechar um novo romance.

Foto: Nanah Vieira

[Ping-Pong]

RS – Beatles ou Rolling Stones?

B – Beatles.

RS – George, Paul, Ringo ou John?

B – Nossa, cada hora é um… George.

RS – Cinema ou Netflix?

B – Netflix.

RS – De quem você pediria um autógrafo?

B – Chico Buarque.

RS – Uma pessoa com quem você gostaria de brigar?

B – Ah, é feio, mas acho que uma ex-chefe que eu tive.

RS – Um tipo de pessoa que te encanta?

B – Com humor. Sarcasmo inteligente.

RS – Uma mania sua que te envergonha?

B – Roer unhas.

RS – Um sonho?

B – Conseguir pagar minhas contas escrevendo apenas.

RS – Uma vaidade?

B – Escrever.

RS – Um filme bom?

B – Across the universe.

RS – Um livro bom?

B – Um Conto da Aia. Da Margaret Atwood.

RS – Uma pergunta que ainda não te fizeram, mas que você gostaria de responder.

B – Uau, essa é difícil… Acho que era essa “Do que você tem orgulho de ser brasileira?”.

RS – Foi golpe ou impeachment?

B – Golpe!

RS – Você é uma mulher que morde?

B – Sim! Quem não é? Cadê a graça se não for?

RS – Você é pessimista ou otimista? Em relação ao mundo, política…

B – No curto prazo? No Brasil? No mundo? Cara, nem sei o que dizer. No Brasil, eu acho que pessimista no curto prazo, mas otimista no longo…


Nanah Vieira

14 de junho de 2017