“Dar a mão à morte para dançar é realmente se desfazer do ego de uma maneira absoluta”

Aos 30 anos de idade, Gaivota Naves enfrentou duras batalhas e possui na arte e na música uma forma de encontrar motivação diária. Parte de inúmeros projetos culturais importantes da cidade, ela conversou com a Revista Seca sobre presente, passado e futuro

Fotos: Thaís Mallon/Reprodução

Atualmente, Brasília possui uma geração de jovens músicos com afinidades em comum que decidiram marcar e celebrar a existência desse encontro por meio da alcunha de Movimento Grogue. Mais do que um movimento, a união é um espírito, um modo de ser que norteia uma produção que leva em conta o rock, a psicodelia e a música brasileira. Entre uma das proeminentes representantes do grupo, está Gaivota Naves, 30 anos. Ela faz parte das bandas Rios Voadores, que se encontra em pleno processo de gravação do segundo álbum; e Joe Silhueta, que anda a todo o vapor em turnês pelo Brasil e se prepara para, muito em breve, lançar novos materiais.

Entre viagens e ensaios, existe também tempo para colaborações em diversos projetos e coletâneas, como as recentes participações no disco do trio instrumental Aiure e nos shows da banda A Engrenagem. Enérgica, impactante e dona de uma voz potente, a artista carrega no currículo os títulos de atriz, cantora, compositora e performer, entre muitos outros papéis. Contudo, tudo virou de cabeça para baixo em janeiro de 2017, por culpa de um acidente gravíssimo que sofreu. Um carro descontrolado invadiu a pista em sentido contrário e envolveu Gaivota em uma batida que lhe custou ossos faciais, rasgou pele e causou traumatismo craniano. Para ela, só um milagre explica o fato de ainda estar viva.

Poucos meses depois, em processos inexplicáveis que permeiam a existência humana, a artista enfrentou mais uma batalha: a perda do amigo que estava se tornando um amor, Pedro Souto. Ele se foi aos 23 anos de idade, por conta de um aneurisma. A morte precoce do baixista e guitarrista, que também atuava em várias bandas da cidade, como Cassino Supernova e Almirante Shiva, completou um ano em maio de 2018. Portanto, ao dialogar com Gaivota, é inevitável falar desses assuntos: eles agora a constituem e caminham ao lado do talento que existia e, felizmente, nunca parou de florescer.

Por tudo isso e muito mais, a música se tornou mais do que uma paixão, mas quase uma espécie de salvação. O palco, segundo ela, é um lugar divino. E em uma manhã tranquila e ensolarada, Gaivota nos recebeu na casa de Pedro – ela e a mãe dele alimentam uma bonita amizade – e conversou conosco sobre passado, presente e futuro. Entre goles de café, lágrimas e risadas, adentramos o complexo universo de uma mulher que está sempre a criar e enfrenta a escuridão e as adversidades utilizando a arte como lanterna e escudo. Confiram:

Como nasceu a Gaivota e quando surgiu todo esse envolvimento com música e teatro?

Comecei no teatro aos 14 anos, quando me mudei pra Brasília. Nasci aqui e com três meses fui morar em Sergipe. Depois voltei pra cá com meus pais. Foi uma coisa muito abrupta. Eu tinha uma depressão muito grande e passei por uma tentativa de suicídio na adolescência. Uma tia, que é uma grande atriz, era de um grupo chamado Companhia da Ilusão. E aí ela viu minha situação, minha mãe tava muito preocupada, e ela pegou e falou “cara, você não quer fazer teatro? Acabei de ganhar duas bolsas e uma delas vou te dar. Acho que vai ser bom pra você ter uma válvula de escape, uma coisa lúdica, porque você é uma pessoa muito carismática, muito criativa”. E sempre fui assim mesmo. Estudei em escola construtivista em Sergipe, gostava muito de cantar. E aí entrei na Companhia da Ilusão e fiz o curso por uns quatro anos.

E desde então esse envolvimento foi constante?

Sim. Parei de fazer o curso, mas nunca mais parei de fazer teatro. Anos depois conheci o William Lopes, que foi meu mestrezão. Ele é um grande diretor de teatro, um grande professor. E aí, com o William, a gente começou uma técnica que puxava do butô, dessa coisa do expressionismo… Eu gosto muito do butô porque é um teatro coreográfico de tensões, né? É um teatro japonês pós-guerra, pós-bomba. E não é um teatro convencional, é um teatro-dança. É o começo do hibridismo do teatro com outras linguagens. Outra coisa importante é que para dançar o butô, falam que você tem que dar a mão à morte. Isso é também uma coisa que, agora que estou ficando mais velha, tem se tornado um assunto que permeia meu trabalho artístico. Essa coisa do outro lado, sabe? De você estar entregue em um nível extremo.

Essa coisa de dar a mão à morte para dançar é realmente se desfazer do ego de uma maneira absoluta. Você fica despido de si. E é legal porque no butô o pessoal está mudo, geralmente, e pintado de branco, com a cara toda branca… Muita argila e só um tapa-sexo. E os movimentos podem durar muito. Só a entrega de uma flor pode durar uma hora. Você vai ver todas as microtensões, o que mexe no corpo, na face. Tudo, tudo. É um tipo de movimentação, de expressão de corpo muito diferente pra gente que é ocidental e vive em um ritmo rápido e pula e não sei o quê [começa a pular].

É interessante, porque nesse negócio de dar a mão à morte, você acaba mostrando muito da vida. Nessas pausas a gente pode parar para ver bem as coisas.

O que é verdade, né? Quando a gente sofre uma coisa assim, bizarra, que nem eu tive duas seguidas, você começa a perceber que a beleza da vida está no detalhes. E acho que entendi o butô agora. Mais agora do que quando eu era adolescente. É nesses detalhes que a vida se faz. Depois de um mês no hospital, tomando injeção e bebendo água, a primeira vez que pude comer um arroz em grãos, comecei a chorar. Porque aquilo era maravilhoso, sabe, conseguir mastigar era uma coisa maravilhosa. Quando saí do hospital, tava muito mal… Porque, imagina, você tem seu rosto, e seu rosto é completamente modificado. Fui escalpelada, né? Eu sou um ciborgue, de verdade [mostra as diversas cicatrizes e alterações na face]. A primeira vez que olhei no espelho, pensei: “tô deformada, velho, não sei se vou conseguir voltar a cantar”. Bateu um desespero do caralho.

Quando fui olhando a cidade, vi Brasília, comecei a chorar. Eu não sabia se ia ver Brasília de novo, se eu ia viver ou não, você tá entendendo? Comecei a chorar de alegria. Quando vi o mar de novo… “Ohhhh”, sabe? Quando assumi essa merda toda, virei pro Pedro e falei: “eu amo você, cara” e ele virou e falou: “eu amo você, com qualquer cara que você estiver, amo sua essência, o que você é…” Essas pequenas coisas, na verdade, são grandes. É que nem olhar pro céu, o céu está aí sempre. Mas está sempre em movimento. Se a gente parar um minutinho, vai ver as nuvens dando rolês, nuvens que vão pra cima como falos, nuvens que parecem trens, pequenas nuvenzinhas…

Acho que a nossa identidade é muito baseada em nossa estética, em nossa aparência. E existe muito mais, deve ser isso que você foi percebendo, né? Você está em você. Não tem como deixar de ser.

Às vezes a gente não tem escolha. As pessoas gostam muito de histórias tipo “ai, você está ótima”, de histórias de superação. Mas a superação acontece todo dia. É muito doido o processo cotidiano, até porque ainda não terminou. Em agosto vou me operar de novo, vai ser a quarta cirurgia. É difícil, sabe? Qual cara que eu vou ter? É sempre uma surpresa, e essa caixinha de surpresa vai durar ainda uns dois anos. Então não é bem “ah, ela já se sente linda, está ótima”.

Você acha que as pessoas ficam tentando empurrar essa narrativa?

Sim. O pessoal gosta de me pintar como heroína. Mas essa coisa da autoestima é uma luta diária, se você quebrar a cara ou não. Agora com a cara quebrada eu tenho um distúrbio imagético ferrado, fecho o olho e não sei qual é o meu rosto. Quando sonho, não sei o rosto que tenho. Não consigo ver meu rosto, mas consigo ver meu cabelo antigo.

Todo mundo gosta dessa história de heroína, de transformar pessoas em ídolos. É mais fácil, né? Que aí ninguém se sente na obrigação de ficar cuidando.

Exatamente, é tipo “já passou, já está tudo certo”. Se eu não tivesse tido nenhum tipo de acidente, já seria difícil. Enquanto mulher, já é difícil a gente se aceitar. A gente vive o tempo inteiro fazendo milhões de manobras para deixar o cabelo mais assim, a pele mais assim. Dietas maluquíssimas pra ficar mais magra ou ganhar um peso. Milhões de exercícios pra ficar com mais coxa, pra ficar com mais não sei o quê, pra entrar num padrão que a gente não vai entrar, foi mal. A gente é de um país híbrido, a gente é filho de todas as nações reunidas. Quase ninguém vai ser loira de olho verde com um metro e oitenta, mas podemos encontrar elementos desses pólos em cada um de nós. É muito doido. Antes do acidente eu era menos generosa comigo e tinha a autoestima muito baixa.

Depois que sofri o acidente e Pedro partiu, precisei de alguma coisa que me fizesse olhar no espelho e ver que tudo mudou. Que nem a música “Nada será como antes” [Milton Nascimento e Ronaldo Bastos], uma coisa que eu olhasse as fotos e falasse: “a partir desse momento tudo mudou”. Foi aí que cortei o cabelo curto e pintei de branco. Radicalizei. O que deixa a gente bonito é o que a gente é. Então, assim, essa necessidade de parecer bonita para o outro ou paquerar, isso tudo sumiu. E foi muito libertador. Porque a vida inteira tinha sido essa coisa meio você “tem que estar apaixonada”, essa obrigação de ser cocota, de ser desejada, de play the game. Comecei a curtir muito mais com meus amigos.

Dizer que não sou vaidosa é mentira, mas está sendo uma vaidade mais tranquila. Eu tinha acabado de experimentar uma vivência romântica com uma pessoa que realmente me amava pelo que eu era e que eu amava pelo que era. Perder Pedro não foi perder um namorado gostoso. Ele era meu melhor amigo, a gente estava fazendo um álbum. Minha expectativa com ele era casar, ter um filho, coisa que nunca tive com nenhum homem.

Acredito que exista também toda a questão da amizade e do amor que se construiu antes, não é?

Sim. Sete anos tocando juntos. Um grande músico, um amigo pra qualquer hora.

Li uma entrevista que a Gabriela Deptulski, do My Magical Glowing Lens [banda experimental e psicodélica do Espírito Santo] falou sobre ter se identificado muito com você por conta da paixão que dividem por rock clássico. Ela alegou conhecer poucas mulheres que gostam desse tipo de música, por ser uma cena muito dominada por homens, e falou também sobre a própria experiência de ser uma produtora e instrumentista talentosa que não recebe o mesmo reconhecimento dos colegas. Como você enxerga tudo isso?

Não acho que as mulheres se afastem desse gosto musical. Não sei como é lá no Espírito Santo, mas aqui conheço muita mina que conhece pra caralho de groove e psicodelia dos anos 1960, que é mais a nossa área, a área que ela estava falando. A gente tem uma história com psicodelia aqui em Brasília, pós-Cassino Supernova, pós-Gramofocas e pós-não-sei-o-quê. A galera entrou em uma pegada mais psicodélica.

Eu achava bem fanfarrão o início dos anos 2000 por aqui…

Aí a galera começou a ficar mais “viajeira”, né?

É, gostei mais.

Vou te dizer que curti mais também, até porque essa galera antiga era muito macho alfa, não dava não. Mas retomando, sim, é foda. Inclusive eu e ela continuamos nos falando bastante, porque realmente admiro a Gabriela pra caramba. Ela tem uma coragem de peitar a cena de uma forma muito foda. A gente tem muita conversa em que pergunto pra ela como foi o processo de sair de uma banda que já tinha e assumir o próprio projeto autoral, com a própria pesquisa musical, com o timbre que escolheu, com as letras que escolheu, com as propostas estéticas que escolheu. Estou no meio desse processo agora. Eu tenho as duas bandas…

Joe Silhueta e Rios Voadores, né?

Sim. A Joe Silhueta é um projeto do [Guilherme] Cobelo que, desde 2013, apoio e estou junto. Mas são as composições dele. É um projeto estético e musical sonhado por ele, e ajudo esse sonho, junto com todos os outros músicos que estão ali sonhando com ele. Na Rios, a gente tem uma coisa triangular entre eu, Marcelo [Moura, guitarrista] e Tarso [Jones, tecladista]. E na questão da composição sou mais eu e Tarso, mas cada um na sua…

Eu sempre te vi nesse meio sendo uma das poucas mulheres a conseguir destaque e ia justamente te perguntar se você não tem vontade de um dia fazer algo só seu.

Graças a essas situações estranhas todas que a vida toda traz, estou tomando coragem para finalmente assumir meu projeto solo. É difícil falar assim, mas quando digo projeto solo, quero dizer que vou assumir minha pesquisa sonora. Pesquiso música desde os 9 anos de idade. Quando eu morava em Aracaju, não chegava CD fácil. Então lá tinha uma locadora, tipo locadora de filmes, só que de CD. Aí falei pro meu avô que queria ser sócia e cheguei lá e cantei pro cara “eu quero o disco dessa música” [murmura “What if God was one of us“] e ele me deu o disco da Joan Osborne.

Saí pela loja como se fosse um playground. Aí bati o olho em quem? No Jim Morrison. “Morrison Hotel”. Aí eu: “nossa, esse homem é lindo, vou pegar esse disco também”. Quando olhei pro lado, vi uma capa do NOFX, que era uma vaca comendo seres humanos [“Liberal Animation”, álbum de estreia da banda], e achei legal também. E aluguei esses três primeiros discos. Era tipo uma gospel maluca pop, um poeta junkie beatnik retardado e um punk trash, troncho, tá ligado? Começou aí.

Sempre pesquisei pra cacete e quem me acompanha nas mídias sociais vê que estou sempre postando música, dando dica de disco. Porque é como uma guerrilha mesmo, tipo: “meu, vocês ficam aí priorizando política, nunca nem leram porra nenhuma, tá ligado, falando um monte de merda da vida alheia, da vida pessoal, toma aí uma música pra escutar, vai que de repente você se anima aí pra curtir um dia good vibes, diferente. Descobre uma outra coisa diferente ou vai com esse Beatles mesmo!”. Acho que a música é um portal que tem a capacidade de te colocar em outros lugares, outros estados. Ás vezes você está tendo um dia merda e uma música tem a capacidade de mudar o resto do seu dia. Ou, ás vezes, você está na bad e escuta uma música assim [cantarola o refrão de “Triste, Louca ou Má“, do Francisco, El Hombre] e tipo, é verdade… Você sente que não está só no mundo. Que tem alguém que passa pelo mesmo. É interessante que o disco novo da Rios Voadores tem essa pegada.

Como está o processo? Já gravou? Quando deve ser lançado?

Estamos na pré-produção e vamos gravar agora no segundo semestre. Esse disco, que é o segundo álbum da Rios, está menos rifado, sabe, e está mais nessa pegada tipo… São canções que, assim, elas não são bad, são mais good vibes, mas são menos tipo [imita riffs barulhentos] e você pode botar no meio do seu dia. As letras são mais sinceras, mais pessoais. É muito legal ter esses espaços para compartilhar e ter essa generosidade de a gente colocar uma composição nossa na mão de outras pessoas. Você deixa a música ser a música para além de você. E banda é muito isso. Sempre fui muito resistente a ter o projeto solo porque eu achava muita arrogância. Tipo: Gaivota Naves…. Aloka! Parece que estou me achando, né?

Acho que você precisa aproveitar que existe um público que quer te ver e conhecer mais do seu trabalho e não é nenhuma arrogância entregar isso. Talvez seja uma coisa do condicionamento feminino, a gente achar que nunca merece tanto espaço assim…

Exatamente. Mas depois entendi que há uma necessidade de ter um espaço em que eu tenha autonomia para escolher não só o direcionamento musical, como também o direcionamento estético ou a intensidade de performance que eu quiser colocar. Escolher se eu quiser tocar nua ou pendurada em um pano, sabe? E de poder ter um pouco mais de liberdade se um dos músicos der a louca e vier pra cima de mim, porque isso já aconteceu. De poder falar: “muito obrigada, querido, você está fora, se você está infeliz, você vai embora”.

Como começou o Rios Voadores? Você cantava antes?

Não, eu cantava no teatro, mas não tinha banda. Eu e Tarso, a gente morava junto… E o Marcelo morava uma rua do lado, aqui em Brasília. E a gente sempre tocava muito, Marcelo toca muito mesmo, a onda dele é tocar pra caralho. E aí nessa de a gente ficar tocando, tocando, tocando, fomos chamados pra fazer uma peça, “A Porca Faz Anos”, que é uma peça musical.

Ah, assisti. Em 2012 ou 13, será que já era com vocês? Muito boa. É da Felicia….

Felicia Johansson! Maravilhosa… Exatamente, era eu e Tarso no piano, porque ele era guitarrista, mas foi quando ele começou a tocar piano. Eu era cantora na peça. Foi uma peça que a gente viajou dois anos e se tivesse viajando até hoje, até hoje eu estaria rindo, porque só tinha gente muito talentosa: Camila Guerra [atriz], Fernando Carvalho [ator], do Grupo Liquidificador, Fábio Miranda, que é professor de viola caipira, o Hélio [Miranda, baterista da Rios Voadores]. A banda meio começou por causa do teatro, mas o Marcelo já era amigo nosso.

A gente fazia muita coisa na rua, a galera era muito doidona. Quando comecei a cantar, a gente ligava tudo na doida ali no Chico Mendes [praça na Universidade de Brasília]. Alguém chegava ali nas ruas dos bares e falava véi, tá rolando uma banda tocando de graça. E aí tava a Rios Voadores inteira. Era muito engraçado, porque chegavam os caras e viam uma mina cantando e já [torce a cara]. Só que eu era a mina cantando que chegava com uma garrafa de Domecq inteira, um saco de limão e uma faca. E os caras já viravam assim tipo: “o quêêê?”. Eu tava me separando de um casamento de nove anos, então eu estava assim: “quero é que tudo se fodaaaaa, não tenho nada a perder não”.

Se separando, mas tocando junto. Que complexo!

Foi, foi muito doido porque a gente se separou na vida pessoal, mas se casou na música, né? Então a gente está junto há anos, curtindo umas. Deu super certo, ele é meu grande amigo até hoje, um irmão. O amor tem várias facetas.

E como tem sido a experiência nos palcos? Suas performances são notoriamente intensas.

O palco, pra mim, é um lugar divino. É um encontro com Deus. É um troço que me atravessa. A música vai crescendo em mim quando estou ali, é inevitável, ela vai entrando no meu olho. A energia que toma conta é grande, ocupa os espaços. Essa energia vai virando quase visual, e não é minha. Ela toma meu corpo emprestado. É uma coisa que me salva. É a única coisa que tenho hoje, que me mantém, que me faz acordar de manhã. Acordo para ir num ensaio, compor, gravar um disco. Porque tudo perdeu o sentido mesmo depois que perdi Pedro. Perdeu a importância. Dinheiro, ser a mais bonita, ter fama. Nada importa mais.

Você tem alguma religião? Às vezes pode ser confortável pensar que o Pedro tinha alguma missão, porque ele era muito jovem e deixou uma marca grande.

Eu fui pra tudo, sabe, porque realmente dói o osso. É uma dor física, na pele. Tinha dias que eu achava que não ia conseguir levantar, que eu rolava na cama de dor. Nunca experimentei isso com nenhuma droga, com nenhuma outra coisa, esse tipo de experiência sensorial psicológica, a sinestesia da dor é uma das mais fortes. O desespero leva você a acreditar em tudo. E na verdade sou pisciana, então sou muito sensitiva, muito intuitiva. Daí quando aconteceu tudo, fui pra tudo. Tive tratamento espírita, na casa de Umbanda, Reiki, Body Talk. E olha, tudo de graça, todas essas formas de cura foram chegando de vários lugares. Karina Buhr, por exemplo, estava me aplicando radiestesia de longe, ela não me conhecia, não sabia quem eu era e mandou uma mensagem falando: “mana, estou compadecida com o que aconteceu”.

Vou dizer pra você que teve momentos em que realmente pensei que não tinha mais nada pra fazer aqui, mesmo. E nesses momentos assim, essas pessoas vieram e começaram a dizer vem. Então acredito em tudo, acredito que a gente tem uma missão. E eu acredito que não concluí a minha, porque aconteceram vários milhões de milagres. Estou aqui, estou inteira, estou saudável, estou cantando, estou bonita ainda… Isso é inexplicável pro tamanho da batida que foi. Nem meu grau ocular aumentou, e olha que um olho escorregou pra dentro do crânio e outro pra fora.

Isso te fez ver que você é muito forte, que o corpo é forte e você passou por tudo isso? O corpo é frágil e forte, na verdade…

Sim, e isso tem me dado coragem de assumir minha pegada autoral, minha proposta solo. Antes eu tinha muito medo. Não tenho previsão de lançamento ainda, pois eu estava começando esse processo antes da morte de Pedro. Eu estava muito apaixonada. Então estava tudo muito tropicalhorda, gostoso, sedutor, envolvente e tal, porque não tenho como tirar isso de mim. Mas aí rolou tudo e deu uma travada. E o Joe começou a pegar quente, e a Rios ganhou um FAC [Fundo de Apoio a Cultura do Distrito Federal]. E eu também estou fazendo outras coisas.

Mas já estou com umas doze músicas prontas, daria pra fechar um álbum. Quero “agrogar” outros grogues, outras combinações, não porque as que estou não deem certo, mas pra encontrar outras sonoridades mesmo. Como já tenho dois trabalhos de rock, nesse trabalho solo posso explorar a sonoridade mais de cantoras mesmo, me assumir como cantora, intérprete. Estou mais velha, amadureci. Sabe que me sinto fortalecida, assim? Tipo mano, passei por altas. Eu não tinha noção da força que tinha. Eu até falo pro pessoal que tá passando por um perrengue: “bicho, segura, você tem força pra caralho, você tem um zilhão mais de forças do que pensa que tem”. Na hora que vem a adversidade louca, você não tem escolha, eu não tive escolha.

E conta um pouco mais sobre quais são as suas principais referências, coisas que você ama, indica. Qual a sua fundação?

Minha fundação começa com as letras de Torquato Neto. Gilberto Gil… Incluo também Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina… Essas referências são óbvias, mas são importantes mesmo. Aí começa uma mistura maluca: Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, [Heitor] Villa-Lobos, Casa das Máquinas, Som Nosso de Cada Dia, Rita Lee, Tutti Frutti, Equipe Mercado, que era com uma garota também, uma espécie de Mutantes underground que ninguém conhece. Entra também a Lygia Clark e suas proposições doidas, Hélio Oiticica, Roberto Piva, que é um poeta marginalzaço de São Paulo, o artista plástico [Alexandre] Calder, Edith Piaf, Rolling Stones, Beatles, Kinks, Allen Ginsberg, Anne Sexton, uma poetisa maluca e gozosa, Ana Cristina César, Hilda Hilst…

Engraçado que quando você estava falando do teatro japonês, lembrei muito da Hilda, essa coisa mais devagar e interna que reflete sobre a morte.

Sim, total. Inclusive seria muito lindo fazer “A Obscena Senhora D.” no butô. Seria maravilhoso…

E suas referências incluem linguagens diversas, o que mostra essa multidisciplinaridade que te constitui.

Pra mim é tudo muito misturado, mas todos eles estão falando a mesma coisa. Minha palavra maior em tudo, no fim das contas, é proposição. Desde quando vim do teatro. Eu era do teatro e fiquei bem puta e falei: “mano, vou pra performance, porque quero sair da caixa”. Eu não quero que a pessoa saiba o que ela vai ver. Sempre trabalho com sequestros, em todos os lugares, seja na música e em qualquer banda que eu tiver, vou trabalhar com o sequestro do cotidiano das pessoas. De verdade.

Já com essa coisa de começar a ser híbrida, teve um festival em 2012, da Bia Medeiros, de performance e tecnologia, que aí eu fiz a performance “A Carne”. Era uma tentativa causar, com uma imagem só, conversas entre pessoas que não se conhecem, que nunca se viram, e chegar no que eu queria, que era apontar a objetificação da vida. Eu pegava tipo uma bandeja de supermercado, de carne, de 1 x 1 metro, e colocava um sangue artificial bem escroto que desenvolvi, e parecia muito real. Então era uma imagem gore. E tudo com plástico filme em volta, no meio da rodoviária, um sol do cacete, e meu trabalho como performer, minha dança, era respirar. Respirar enfaticamente.

Quanto mais eu respirava naquele negócio, mais suava o plástico. E aí o povo indo pegar ônibus era tipo assim: “eita, a mina tá morta?”. E aí ia juntando uma galera. Gente simples, gente letrada, gente que estava indo ao shopping, gente moradora de rua. “O que é isso? É boneco. Não é boneco, é menina. É uma menina, eu tô dizendo!” E aí ficava todo mundo assim, na minha cara. E aí falavam: “eu acho que é esses negócio de vegetariano”. Aí vinha outro : “eu acho que é esses negócio de feminista”. E era legal, porque realmente era negócio de vegetariano e feminista, na real. O que eu queria passar era essa questão de você fatiar as vidas de uma forma que você não consegue reconhecer que aquilo que está empacotado é um ser vivo.

Se você corta o presunto daquele jeito quadradinho ali, empacotado a vácuo, por exemplo, você nunca pensa que aquilo era um porquinho. E a gente como mulher é assim, o cara pega e fatia. “Nossa que teta foda, que teta foda”. Você não é mais um ser humano, tá ligado? Só um pedaço de teta passando.

Lembrei da escritora feminista Carol J. Adams, que tem um livro chamado “A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina”. Você já ouviu falar dela? Ela fala sobre isso, sobre mulheres e animais serem objetificados a partir da fragmentação.

Sim. Se você é um objeto, você pode ser comprado, vendido, morto. É nessa onda que a gente se fode. Como mulher e como ser humano. A gente sai muito da vida orgânica e essa é uma questão que quero trabalhar em tudo. A gente está cada vez mais distante, o humano com humano. É essa coisa da proposição que eu estava falando e tenho buscado muito na galera concreta, construtivista da década de 1960 brasileira, Lygia Clark, Lygia Pape, Hélio Oiticica. Principalmente a Clark, que tinha várias coisas dentro da performance, como por exemplo as “Arquiteturas Biológicas”, que eram proposições que faziam com que as pessoas se tocassem, se encostassem. As pessoas tinham medo de se encostar. E acho que agora isso é ainda mais necessário. É uma urgência o toque sem erotizar o corpo.

Com a objetificação e a erotização, o corpo fica muito demonizado e as pessoas passam a se sentir muito desconfortáveis em compartilhar momentos físicos, né? E, tipo, abraçar é importante. Tocar, sem ser sexo, e sem ser alguém que a gente se atraia… A gente não precisa se atrair por todo mundo. E não precisa deixar de se atrair também, não precisa ficar sempre pensando nisso.

Exatamente. Por isso tenho essa coisa de querer encontrar, propor encontros, essa coisa mais pessoal.

E propor encontros em Brasília, especificamente, é importante, não é?

Acho que é uma urgência mundial, mas aqui em Brasília é mais enfatizado por conta da própria distribuição da cidade. É muito louco morar no sonho, morar na cidade utópica. É lindo e, ao mesmo tempo, é completamente triste. Quando você vê um negócio que tem toda a potência e não vai é pior do que quando você vê um negócio que não tem potência nenhuma e não vai. Em Brasília se vê essa coisa das entrequadras, das escolas nas entrequadras, bibliotecas…. Andar pelos vãos… Eu estava com o Negro Leo outro dia, marido da Ava Rocha e um cara bacana da música, de extrema relevância nacional, apesar de a grande mídia não exaltar, e ele estava tipo: “cara, vocês não têm essa ideia, mas poder cruzar na diagonal é muito foda, por quilômetros você pode andar na diagonal passando por baixo de duzentos prédios!”. Vãos livres, tá ligado?

Acho que a gente que nasceu aqui incorporou regras rígidas sem perceber. Um dia vi um casal de gringos fazendo piquenique naqueles canteiros que servem como balões de retorno e pensei: “que coisa absurda”.

Era pra ser assim, por que não rola isso aqui? Por que a gente não pode plugar as coisas num gramado desses e ter, tipo, uma banda, e um pessoal da quadra vem, e um vende cocada, a outra vende um cachorro-quente que ela mesma fez e trouxe ali, outra traz roupas que quer vender e trocar? Por que isso não é um hábito? Qualquer cidade da Europa o povo vê um naco de grama e deita sem blusa, de topless. Aqui, tipo, parece que você está assassinando alguém se estiver sentado na grama. Alguém vai chegar e falar: “você não está vendo a placa? Não pise a grama”. Você fala um pouco mais alto e alguém chega e “shhhhhhhhhh”. Essa alergia à música em Brasília é muito foda. Acho que uma das formas de revolução da nossa geração vai ser por meio do amor, do contato. Pode parecer muito haribol, mas a verdade é essa. Criar contato, espaço de troca. Minha função, na arte, é criar espaço de permeabilidade. Sempre foi. Criar esses espaços onde as pessoas não se encontrariam antes.


Maíra Valério

14 de junho de 2018