“Brasília é um nuggets”

Frango Kaos, do Galinha Preta, o Underground, a Mesa de Som e uma Brasília misturada.

Arte: Daniel Carvalho

Às vezes podemos encontrá-lo de rolê, à tarde, no CONIC. De vez em quando, a gente topa com ele num busão. Teve uma ocasião em que ele foi visto dando um cigarro pra uns malucos no meio de um moshpit. Figura fácil de encontrar nas mesas de som dos mais diferentes shows da cidade, está sempre com seu visual facilmente reconhecível: roupas totalmente pretas; calça ou bermuda larga com bolsos do lado; coturnos ou botas à meia canela; cabelos grandes, compactos e semiespetados, lembrando o  vocalista do The Cure; boné preto, muitas vezes com uma luz de escalador de caverna (ou técnico de som) por cima, presa com um elástico; fumando um, dois ou vários cigarros em um curto espaço de tempo; movimentação inquieta; sorriso esganiçado; dentes amarelos tortos; bigode; e pele preta. Uma figura caótica esse tal de Frango Kaos.

Em uma cidade tão marcada pela segregação espacial, com contracultura resiliente que sempre aparece nas rachaduras do concreto, o Frango é uma personagem tipicamente candanga. Nesta cidade que se construiu liquidificando hierarquicamente culturas vindas de todo o país, boa parte da monotonia burocrática da cidade é enfrentada por meio dos corpos e expressões culturais marginais. O Frango é parte disso tudo, um poeta dessa mistura. O Frango está misturado na cidade e tem uma leitura própria dela, que vamos tentar esboçar nestas linhas.

O desafio aqui é fazer o perfil de alguém que é conhecido por geral. Mais que conhecido, estamos falando de um maninho que tem tantas histórias e relações que centenas de pessoas têm algo a comentar sobre. Além disso tudo, ainda tamo falando de uma figura muito carismática, que tem a simpatia e o carinho de vários grupos, culturas e tribos da cidade. Como se não bastasse, estamos tratando aqui – quem escreve e quem lê – de um tipo meio anônimo, meio lendário na cena underground do DF. Um cara que viveu, participou e fez muita coisa por décadas. Um tipo que já foi retratado em várias rodas, entrevistas e reportagens. Existem diversas versões sobre o Frango no Distrito Federal, e isso, ao mesmo tempo que nos ajuda a construir a nossa, nos faz correr o risco de sermos banais, triviais ou redundantes ao retratar o cara.

Todo mundo conhece o anárquico frontman do Galinha Preta, que, entre pulos, gritos e guturações, circula pelos mais diversos palcos do DF e do Brasil, da banda que toca em garagem, esquina, festival nacional e internacional, GIGs., e que encanta mesmo quem não aprecia o HardCore pesado nem punks. Das letras que, buscando na raiz do faça-você-mesmo, usam frases curtas pra dar recados engraçados e profundos (dizem eles que as letras são curtas porque assim cabiam nas antigas mensagens de e-mail). Elas nos ensinam muita coisa, como, por exemplo, que ninguém neste mundo é porra nenhuma, então para de rir de mim  porque estamos vivendo uma guerra nuclear de sacos de plástico. O mundo possivelmente vai acabar, ninguém vai twittar e, possivelmente, só as baratas sobreviverão nos chamando de malditos. E, se o mundo não acabar, eu vou estar enrolado nesta burocracia, uma grande fila que atrapalha a sua e também a minha vida, e só nos sobrará apreciar um ratoburguer ou subir subindo como o  padre baloeiro e não ficar nem aí se estou falando pleunasmo errado. Isso, claro, se não roubarem meu rim. Então vai trabalhar, vagabundo, porque eu não sei de nada e, se você souber, por favor você me fala . Se eu cuidasse mais da minha vida, o mundo seria bem melhor, mas, no caso, escolhi falar da vida do Frango.

Ainda pelo ramo da música, o Frango passou por várias bandas importantes e lendárias do underground local. Tudo começou quando trocou alguns discos valiosos por um baixo para, sem saber tocar, compor na banda Destroços com amigos da cena Punk. Também fez parte de Desakato à Autoridade, genuína expressão do Movimento AnarcoPunk no começo dos anos noventa.  Foi baixista do Vernon Walters que, vinda de uma formação anterior do RS, fez história com suas letras ácidas, politizadas, com uma referência direta ao Dead Kennedys em terras candangas. Não só no Punk, participou também em diferentes momentos do Radical sem Dó, grupo de rap que tem o Natinho das Camisetas, o famoso e também lendário Nonato Dente de Ouro, como membro permanente, que faz rap com raciocínios profundos, psicodélicos e aparentemente tortuosos. O Frango passou por todas essas bandas além de colaborar com inúmeras outras, em várias outras iniciativas, viagens e projetos. Podemos dizer que é um daqueles que vive o underground em suas várias expressões.

O underground nunca foi só música, nunca foi só visual: também é política e muito mais. O Frango é parte da cultura Punk do DF, tendo participado ativamente de coletivos, como o Conscientes Radicais Unidos (CRU), Movimento AnarcoPunk (MAP), confeccionando Zines, participando dos protestos, debates, bebedeiras e Ações Diretas próprias do grupo. Até que, em um show de metal ocorrido no Gran Circo Lar (antiga casa de shows da cidade, localizada onde hoje é o Museu Nacional da República), foi envolvido em uma treta pesada com seguranças da empresa Gemini, que começaram a bater em todo mundo sem motivo algum. Segundo suas próprias palavras, em uma entrevista concedida ao zine Brasília, Fina Flor do Rock, “Enfim, resultado, fiquei em coma dois dias. Os headbanguers levaram muita porrada, os punks levaram bicudos e ninguém fez nada. Foi aí que eu me toquei de que movimento que corre de segurança não tem estrutura para enfrentar uma revolução armada (Gargalhadas, sem samplers!). Isso foi naquela época, pois recentemente os punks da MAP enfrentaram a polícia em frente ao Congresso. O Eduardo, da Subway, disse que eu mudei depois de tomar as pancadas na cabeça”.

Frango pode ter mudado a forma de se movimentar, mas certamente não mudou as suas críticas à sociedade. Podemos perceber isso ouvindo as letras de suas bandas ou no seu cotidiano, observando sua atitude e trocando ideia com ele. Entre uma ou outra piada ácida, comentário aparentemente non-sense e frases de efeito, dá pra perceber claramente que sua mente inquieta ainda se incomoda profundamente com a injustiça, a desigualdade, a hipocrisia e os problemas do mundo. Não estamos falando aqui da história comumente repetida daquelas pessoas que foram rebeldes na juventude e largaram mão de tudo pra adultecerem. O Frango ainda demonstra que, por ele, o mundo seria muito melhor e que ele não quer contribuir para tudo continuar esta merda que hoje está. Sua movimentação ainda tem uma força libertária que inspira muitas cabeças antenadas por aí.

Ele não faz música como atividade profissional ou almejando um grande sucesso; afirma que toca músicas e projetos pra tocar ideias, se divertir e fazer amigos. As amizades que conquistou na trajetória musical são avaliadas como a principal conquista das suas bandas. Se algum dia o Galinha Preta tiver que virar uma atividade profissional e o principal projeto de vida de seus integrantes, a banda acaba logo em seguida, ele diz. O sucesso, a aceitação e o desenvolvimento da banda se dão por meio da filosofia punk do faça-você-mesmo, da contracultura e da resistência. O bom humor sempre fez parte da rebeldia, desde há muito tempo.

Do Undeground, Frango também construiu sua carreira profissional. Nas conexões da Cena Punk, começou a trabalhar 25 anos atrás no estúdio Cáustico Lunar, que ficava no Conic, em uma época que corria na cidade a lenda de que ele morava na rodoviária, em uma barraca. Além disso, ajudava a organizar o som das GIGs (shows punks faça-você-mesmo) e trampava em shows. A habilidade de quem já organizou um evento com as próprias mãos e com parcos recursos talvez explique como Frango se tornou um dos mais experientes, qualificados e requisitados técnicos de som da cidade. Há um bom tempo ele faz a mesa de som dos mais variados eventos da cidade, trabalhando com gente dos mais diferentes sons, tipos e experiências. Além do pessoal Underground da época do Cáustico Lunar (Câmbio Negro, Raimundos, Little Quail and the Mad Birds, p.e.), ele também fez o som de várias bandas de axé, sertanejo, rock, e até mesmo desenvolveu uma amizade com o Dalai Lama, que, em sua segunda passagem pelo DF, fez questão de que o Frango fosse seu técnico de som. Frango fez o som de artistas desde quando eram desconhecidas até emergirem ao estrelado (como Pitty, Móveis Coloniais de Acaju, Ellen Oléria). Atualmente, além de ainda participar de vários eventos, trabalha fixamente com o músico Hamilton de Holanda.

Ser técnico de som é a atividade que mais agrada ao nosso personagem. Ele mesmo afirmou que não trocaria a vida profissional de técnico de som pela vida de artista nos palcos. Há uma realização em botar o som nas baladas até o último bêbado sair da pista, como ele mesmo argumenta. Trabalhar como técnico de som é a única coisa que ele afirma fazer seriamente. O resto é só brincadeira e diversão sem compromisso.

Justamente por essa seriedade com seu trabalho que Frango é severo crítico de algumas iniciativas atuais que têm buscado precarizar a cultura independente. Para o Frango é importante discernir que artista é artista e pedreiro é pedreiro; ambos são peões, nem reis nem rainhas, porém fazem trabalhos importantes e merecem as melhores infraestruturas para desenvolver seu trabalho com dignidade. Assim como um pedreiro precisa de bom salário, maquinaria e equipamentos para se proteger dos possíveis acidentes de trabalho e executar uma boa obra, artistas precisam de bons cachês, boa iluminação, excelentes instrumentos de som e infraestrutura adequada para hospedagem, alimentação, transporte. Vendo pelo seu ramo profissional, Frango vocifera contra a galera que, fingindo ser coletivo de cultura, tenta lucrar e ganhar poder político em cima do rala, arte e ganha pão de artistas.

Frango nasceu em Taguatinga, antigamente chamada de cidade satélite e hoje de Região Administrativa do DF. Há muitos anos mora no P-Sul, bairro da Ceilândia. Ele tem uma atenção especial pela sua quebra, com várias histórias pelo centro de Taguatinga, Feira da Ceilândia, shows no Gama e em várias outras periferias do Distrito Federal. Ele dedica tempo especial aos submundos, subúrbios e seres das profundezas urbanas.

Mas nenhum perfil é completo se não falarmos dos projetos presentes e futuros das pessoas a quem tratamos. Frango não está parado, encerrado em suas atividades atuais; ele está começando, junto a dois amigos, um novo projeto musical, buscando uma mistura entre Rap, DUB e Grindcore, com letras profundas e filosóficas. Um experimento musical que o possibilite circular por espaços tanto do centro como da periferia, falando com públicos de diferentes idades, gostos e classes sociais. Sua nova banda, ainda em fase de gestação, se chama Projeto NUGGETS.

NUGGETS é Brasília, uma cidade que foi feita por meio da junção de trabalhadores e trabalhadoras de várias regiões do país que tiveram que se misturar na produção de uma cidade da qual não desfrutam; de cariocas, mineiros/as e paulistas que saíram de suas terras natais contrariadas pela necessidade de trabalhar na burocracia do Estado. Apesar da bela aparência de seu centro, o conflito está em suas bordas, que invariavelmente invadirão o núcleo central, sabe-se lá para qual finalidade. NUGGETS é a mais nova expressão do Frango, um undergound que se entrelaça na produção cultural da cidade.

É NUGGETS porque essa modalidade alimentar é aquela mais podre, construída com a trituração de tudo o que há de inglório nas galinhas: bicos, unhas, cabeças, ossos, restos. Ao mesmo tempo é apreciada por quem consome seu produto final, na aparência amigável e palatosa que assume após passar pelo processo industrial. Ao mesmo tempo é tóxica, pois se trata das partes do animal que mais recebem os venenos e anabolizantes.


Paíque Duques

17 de julho de 2017