A solidão do livro emprestado

André Giusti lança amanhã a segunda edição de seu livro de contos, 15 anos depois!

Foto: Joaquim Dantas / Reprodução

Nascida ainda no final do século passado, a excelente revista Ficções, era a publicação da editora carioca 7Letras que juntava, dentro do mesmo encadernado, autores nacionais contemporâneos consagrados e iniciantes. O sucesso inegável da empreitada deu origem, em 2003, à coleção Rocinante, que buscou manter a dobradinha entre o frescor da geração que nascia para a literatura e a porrada que já vinha da geração anterior. Teve livro finalista de Jabuti, mais tarde teve tradução de Goethe e Tchekov. Entre os novos nomes que a coleção ofereceu aos leitores estavam Carola Saavedra, Verônica Stigger, Ana Paula Maia e, logo um dos primeiros números publicados pela coleção, André Giusti, com o seu segundo livro de contos, A solidão do livro emprestado.

Com uma narrativa limpa, sem excessos, e uma linguagem despojada, bem afeita à geração de Gisuti e aos adeptos do rock n’ roll, o livro passeia pelas desventuras de personagens solitários e silenciosos. Engasgados com a própria inabilidade para o diálogo ou com as portas fechadas pela metrópole. A solidão do livro emprestado é uma leitura leve e rápida, mas que não passa sem deixar marcas.

Carioca do subúrbio-zona norte, Giusti havia publicado, de forma independente, dois números de poesia, entre os 18 e os 20 anos, e os vendia nos bares da capital fluminense. Em 1996, publicou seu primeiro livro de contos, Voando pela noite (Até de manhã), que disputou o Jabuti de 1997, ano de nascimento da revista Ficções. No ano seguinte, o jornalista se mudou para Brasília, onde vive até hoje.

André Giusti é jornalista, além de escritor, e em 2018, já com 8 livros publicados e uma carreira literária, 15 anos depois do lançamento de A solidão do livro emprestado, lança a segunda edição da obra, dessa vez pela editora paulista Penalux. A noite de autógrafos acontece no Beirute da Asa Norte, nesta terça-feira, dia 4, a partir das 18h.

A Revista Seca, claro, trocou algumas palavrinhas com o escritor a respeito desse feito.

Serviço:

Lançamento do livro A solidão do livro emprestado, de André Giusti

Beirute – 107 norte

Terça-feira, 4 de setembro, às 18h

Preço do exemplar: R$ 40,00

Foto: Divulgação / Reprodução

REVISTA SECA – O livro (A solidão do livro emprestado) é seu segundo no gênero dos contos, certo? Sua segunda publicação. E saiu, originalmente, pela 7Letras, que é uma editora conhecida por apostar em jovens escritores em início de carreira. Hoje, com 8 livros publicados e uma trajetória literária concreta, que olhar você dedica ao A solidão do meu livro emprestado? O que você enxerga nele a respeito da sua trajetória como escritor?

ANDRÈ GIUSTI – Sim, este é meu 2º livro, em sua 2ª edição, o que 15 anos depois de seu 1º lançamento o torna inédito outra vez, de certa forma. Eu o enxergo como o início da concretização de minha carreira de escritor a que você se referiu. Quantos autores (bons) começaram nos anos 90, como eu comecei (meu 1º livro é Voando pela Noite, 1996, também pela 7) e pararam no 1º livro, deixaram para lá, não deram continuidade. E acho que demorei para lançar uma 2ª obra. Foram 7 anos de intervalo, deveria ter sido menos. Eu acho que ele traz ainda muito do frescor e dos defeitos de um autor iniciante, mas nele penso que já apresento uma considerável evolução na técnica, tanto da narrativa quanto do aprimoramento do texto. Aliás, acho até que ele é meio rebuscado em certos momentos – o texto –, coisa de que hoje em dia definitivamente procuro fugir.

RS – O livro traz muitos personagens envolvidos em silêncios. Talvez em uma solidão que se expressa pelos silêncios. A maioria deles está mesmo engasgada com as palavras que teimam. As relações interpessoais sofrem com isso e a vida parece que é mais difícil do que precisaria ser para esses personagens. É por aí mesmo o cerne da discussão que você buscou estabelecer? Você concorda com essa leitura?

AG – É uma leitura totalmente possível, certamente. É um livro que se passa todo em cidade grande, com as distâncias e as pressas da cidade grande, isolando corações, com as ‘desimportâncias’ que na cidade grande damos às coisas que verdadeiramente importam e que estão lá dentro da gente, doendo, pedindo para serem entendidas. Concordo que “a vida parece que é mais difícil do que precisaria ser para esses personagens”, e praticamente em todos os contos isso existe: no casal que não discutiu o vício que cada um tinha antes de casar (Álcool & Nicotina); no tempo que outro casal perdeu em estar junto por causa da timidez de ambos (Histórias de Amor 1); e na falta de coragem da moça dizer ao cara que simplesmente não queria nada com ele (A Solidão do Livro Emprestado, conto que dá o título do livro).

RS – A solidão do livro emprestado é o primeiro livro que você publicou morando em Brasília, certo? Como foi sua mudança pra cá e que tipo de influência ela exerceu sobre a sua obra literária?

AG – Sim, eu já morava aqui, mas pela minha lembrança ele foi em sua maioria escrito no Rio, e mesmo o que escrevi já aqui ainda era ambientado lá por causa do banzo que tive da minha cidade nos primeiros anos morando em Brasília, anos um pouco difíceis para mim. Eu vim de uma hora para outra, comandar o departamento de jornalismo da rádio CBN, em uma semana me mudei. Foi um pouco duro o rompimento lá e a conexão aqui. Então, acho que as poucas histórias desse livro escritas aqui e passadas lá são um pouco desse banzo da época, dessa vontade de estar lá.

RS – Como surgiu a ideia de republicar o livro, dessa vez pela editora Penalux?

AG – Algumas pessoas próximas a mim consideram A Solidão do Livro Emprestado meu melhor trabalho, e eu também gosto muito. Bem, aliado a esse fato da qualidade literária, há nesse intervalo de tempo desde a 1ª edição (2003) todo um avanço na forma de se comunicar da humanidade e, por conseguinte, de se mostrar literatura. A Solidão saiu quando havia no máximo um outro blog ou site sobre literatura, nada de rede social (acho que nem Orkut), que é uma bela forma de difundir nosso trabalho. Ele esgotou a edição de papel e depois disso conquistei leitores que não conhecem o livro. Como a Penalux e eu fizemos uma boa parceria com A Maturidade Angustiada, lançado há um ano, propus a eles a 2ª edição desse antigo/novo livro. E eles capricharam no tratamento gráfico.

RS – Você começou sua trajetória literária na poesia. Que aspectos do fazer poético você identifica na sua prosa? E que aspectos do jornalismo? E do rock n’ roll?

AG – Acho que conjugo poesia e prosa quando escrevo meus contos, minhas crônicas, e penso que isso é muito presente quando em certos momentos (procuro não abusar) lanço mão de imagens para descrever cenas, emoções de personagens, um jeito que eles olham ou falam, um silêncio em que há, quem sabe, o desabafo inteiro de uma agonia, uma alegria…sou muito imagético e sonoro, acho que por causa de meus anos de TV e rádio e que levo poesia em forma de prosa reproduzindo no papel imagens e sons, e nisso já pode entrar até um pouco de jornalismo, por incrível que pareça, no que tange descrever com exatidão sem se alongar, sem esticar a corda da paciência do leitor. O jornalismo também entra no texto: geralmente de períodos curtos, bem ao estilo rádio, mas que tenha o colorido da literatura, porque senão você não segura o cara no teu livro. Quanto ao Rock’n Roll… é minha argamassa, né? Ele e o Blues embalam o que escrevo. São a presença imaterial na rebeldia, na alegria, no deboche, na tristeza e na nostalgia dos personagens, ou mesmo presença material, como o poeta tímido que vai ao sarau vestindo camiseta do AC/DC ou o cara cujo pijama é uma camiseta do Guns.

Foto: Andressa Anholete / Reprodução

RS – O que é mais gratificante em ser escritor na Brasília de hoje em dia? E no passado, eram as mesmas alegrias?

AG – O mais gratificante de ser escritor, para mim, é se processar por dentro, é aquietar demônios que poderiam me ser muito prejudiciais se eu não escrevesse, me levando a algo perto da insanidade. É alegrar o leitor ao entregá-lo algo com que ele se identifique em sua experiência de vida, alegrá-lo mesmo que você fale de algo triste, porque ele vai ler (no caso da poesia acontece muito isso) e vai dizer e vai se consolar: putz, alguém já passou a ‘bagaça’ que eu tô passando. Quanto a Brasília, é legal o lado de sentir que você está inserido num movimento literário que tem se fortalecido na cidade, com bons autores, premiados, e que pode roubar um pouco da iluminação do eixo RIO-SP. Acho que as alegrias do passado continuam basicamente as mesmas: uma pessoa pega, lê o que você escreve, se identifica e descobre em você uma espécie de tradutor do que ela sente mas não consegue dizer. Há também, ainda, uma espécie de prazer de se sentir nu diante do mundo, revelando sem medo do que vão ou possam pensar.

RS – E quais os perrengues?

AG – Acho que é fazer o livro chegar ao leitor, e isso você vai ouvir de 9 em cada 10 de nós escritores. Publicar já nem é mais essa dificuldade toda, aliás, já há algum tempo não é e cada vez vem sendo menos, mas chegar ao leitor é pedreira. Outro dia fui a um evento no Parque Olhos d’água e saí de lá feliz demais porque fiz, veja só, dois novos leitores. Para mim são dias especiais os em que faço um novo leitor, que dirá dois, três.

RS – Escritor preferido? Livro preferido?

AG – Difícil citar preferidos. Tem Machado, Quintana, Rubem Braga, Fernando Sabino, Rubem Fonseca, John Fante, Agualusa, Mia Couto… Ultimamente tenho relido Érico Veríssimo e impressionado com a capacidade assombrosa de um autor que escreve algo como O Tempo e o Vento. Também me impressionaram muito ultimamente minha amiga Cínthia Kriemler, com Todos os Abismos Convidam a um Mergulho, e Aline Bei (O Peso do Pássaro Morto). Fora isso, sempre estão a mão vários poetas que moram em Brasília, cidade rica no gênero. Não cito nomes porque sou amigo de uns 40 (risos).

RS – Uma pergunta esquisita, porém clichê, para alguém que está lançando um livro: Podemos esperar outros projetos para o futuro próximo? Está escrevendo atualmente?

AG – Tenho um livro de poesia pronto, meu 2º no gênero, que é o meu gênero original, e gostaria de publicar ano que vem meu 1º romance, no qual estou fazendo uma releitura e cortando os (muitos) excessos, e que tem o título provisório de Só Vale a Pena se Houver Encanto. Terminado o romance, voltarei a produzir contos, coisa que não faço há 5 anos.


Vitor Camargo de Melo

3 de setembro de 2018