A poesia concreta de Sérgio Magalhães

Cimento, caneta e inspiração moldam as construções do carioca que acaba de lançar o primeiro disco da carreira, “Ouro do meu peito”

Fotos: Guto Martins/Reprodução

Quem está conectada nas redes sociais, viu que, desde novembro, muita gente comenta sobre “Ouro do meu peito”, primeiro disco do cantor e compositor Sérgio Magalhães. Na última semana, não se falou de outra coisa. As reportagens dos jornais Correio Braziliense e Metrópoles e da revista Continente contaram a história desse cara que é mestre de obras, artista e dono do coração mais generoso que eu conheço.

Mas a minha história com Serginho é bem mais antiga e, se não me engano, começa no início dos anos 2010. A Cris (Pereira, cantora aqui de Brasília) e o Guto (Martins, percussionista do 7 na Roda e fotógrafo) costumavam receber na casa amarela os amigos para um dia com muita comida e samba, obviamente.

Numa dessas, eu vi Sérgio Magalhães pela primeira vez. Ele era um dos convidados e como Brasília é pequena demais, descobri ali que era um grande amigo do meu tio Zeca (in memoriam). Conversamos muito e selamos uma grande amizade.

Toda roda de samba que eu encontrava com ele, fazia uma festa. Falávamos de samba e do primeiro disco, que sairia no momento certo. Eu trabalhava no Correio Braziliense e sempre dizia que fazia questão de contar a história dele para todo mundo. As pessoas precisavam conhecer aquele cara cujo talento com as mãos produzia obras-primas dentro e fora dos canteiros de obra.

O tempo passou e como “Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que ele atirou hoje”, o disco foi lançado no final de 2018 e eu já não estava mais no Correio. Em compensação, tive a honra de trabalhar como assessora de imprensa do disco e ver esse trabalho ser divulgado em jornais, revistas e rádios. “Ouro do meu peito” nasceu e eu estava do ladinho vendo esse sonho ser realizado.

Serginho sempre diz que não tinha pretensões de fazer um disco, mas todo mundo queria um CD dele, afinal, como não ter um registro da  sua poesia?

Ouro negro

“Não. Não me impeça de cantar samba”. Eis a primeira estrofe da música “Ouro do meu peito”, que abre o CD homônimo. Para uns, escritos inspirados, para quem conhece Sérgio Magalhães, mais um ensinamento.

Na quinta-feira do início de novembro, dia que caiu uma chuva não muito forte, mas constante, eu fui pela primeira vez na casa dele lá em Sobradinho. Entre raios e trovões, ele me explicou como nasceram algumas músicas e, sem dúvida, a história da faixa-título é uma das que mais chama atenção.

Há 12 anos, Sérgio teve um sonho com pessoas que o procuravam, porém não tinham boas intenções. Essas pessoas o alcançaram e o torturaram. Ele tentava se manter equilibrado durante todo tempo da tortura. Não julgava e a paz que mantinha irritava ainda mais quem queria machucá-lo. Até que disseram: “você nega que é sambista ou morre”. Sérgio respondeu: “o samba está na minha alma”. Ele acordou cheio de dores no corpo e muito angustiado. Sem gravador, ele escreveu “Ouro do meu peito” em um saco de cimento e disse que se um dia gravasse um CD, esse seria o nome.

“Eu nunca pedi para ser sambista. Nunca tive a pretensão de ser compositor, mas aconteceu. Eu vejo isso como uma função. Sou um intermediário e nada mais. Se tem alguma coisa a ser colhida, é a vida quem vai dizer”.

Rio, Brasília e o samba

Sérgio nasceu em 1964, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Criado no Parque Tietê (São João de Meriti), ele cresceu ouvindo samba e viu a força do grupo Fundo de Quintal e dos músicos que frequentavam o Cacique de Ramos – reduto de vários sambistas fundamentais na história da música brasileira.

“Tinha João Nogueira, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, mas o Fundo de Quintal deu aquele boom. Costumo dizer que foi o movimento sócio-político-cultural mais importante que o Rio de Janeiro já teve”.

Ele lembra que era comum ver grupos de samba em cada bar da cidade, ou seja, era muito comum se reunir para fazer batucada. “Nunca me passou pela cabeça ser profissional nessa área”, confessa.

Certa vez, o dono de um bar fez um concurso e a música que Sérgio escreveu ficou em segundo lugar. Ainda assim, ser cantor e compositor não estava em seus planos.

“Era muito distante ter contato com os músicos que eram ídolos. Isso é muito pernicioso para a arte, para a cultura. Distancia o artista do povo. Com o Fundo de Quintal, de repente, todo mundo percebeu que poderia ser sambista”.

A vida seguiu e chegou um momento que Serginho precisava de um descanso. Nas primeiras férias que teve na vida, veio para Brasília e nunca mais voltou.

“Estava em um momento difícil, tinha me separado e meu filho Marcus Vinícius Magalhães era bem pequeninho. Eu comecei do zero aqui”.

Um dia, o casal de vizinhos Márcio e Meire viram (e ouviram) Sérgio com o violão e o convidaram para tocar no aniversário de Márcio. Ele lembrou de “Recordações”, samba feito em terras fluminenses e os amigos não tiveram dúvida: era hora de apresentar o vizinho para os artistas que conheciam na cidade.

Sérgio percebeu o potencial que tinha, fez mais músicas e uma delas ficou entre as 10 finalistas do Canta Cidade Livre, festival que acontecia no Núcleo Bandeirante.

Logo depois, o violonista Roberto Nunes sugeriu que o amigo tentasse uma vaga na Escola de Música de Brasília. Eram seis vagas por turno e mais de duas mil pessoas inscritas. Mas Sérgio Magalhães só precisava de uma vaga.

E foi nas aulas de canto popular e percepção musical com Maria de Barros, que ele conheceu o violonista Jaime Ernest Dias, o responsável por apresentá-lo a vários outros artistas da cidade. A amizade com Jaime perdura até hoje. Em “Ouro do meu peito”, o músico é o responsável pelo violão da música “Até quando”.

Foi também a partir da Escola de Música que Sérgio conheceu o cavaquinista Pedro Molusco (7 na Roda) e outras figuras do samba de Brasília, como a turma do grupo Batucada de Bamba, grupo do qual Cris Pereira (aquela, da casa amarela) fez parte.

De lá pra cá, Sérgio se tornou nome essencial do samba de Brasília, sendo gravado por Cris, Ana Reis, Teresa Lopes, Leonel Laterza e pelos grupos Firme e Forte e 7 na Roda, entre outros.

“O samba de Brasília pode e deve ir para a rua. Estar ao alcance de todos. As pessoas não precisam pagar caríssimo para ver um show. O artista não pode ser intocável”.

Não por acaso, o lançamento de “Ouro do meu peito” deve acontecer ao ar livre. Onde o samba deve estar.

“Amor é fruta madura”

Como a vida é uma caixinha de surpresas, muita coisa aconteceu entre aquele samba na casa amarela e os dias de hoje. Além de amiga e assessora de imprensa, hoje, sou irmã de santo de Sérgio Magalhães – e ambos filhos de santo da Ialorixá Mãe Dora de Oyá, do Ilè Asé T’Ojú Labá.

Dia desses, Serginho levou “Ouro do meu peito” para a roça e ficamos ouvindo as músicas na cozinha, enquanto preparávamos a comida. Foi quando eu revelei que meu coração partia a cada faixa que escutava do CD e ele me explicou que as músicas dele não eram para causar dor, mas sim para a curar as dores de amores.

Aí, eu lembrei de um trechinho de “Marca da verdade” que diz assim:

“Amor é fruta madura quando cai/A semente vale mais pelo dom de renovar”.

Ali, eu compreendi a essência de “Ouro do meu peito”.

Adupé por tanta poesia, Sérgio Magalhães.

 


Maíra de Deus Brito

16 de Janeiro de 2019