A força da ventania

Numa quarta-feira de Iansã, a Revista Seca encontrou Mãe Dora de Oyá, Yalorixá do terreiro Ilè Asé T’Ojú Labá. Na conversa, a entrevistada mostra como religiosidade, cultura e política caminham juntas

Foto no alto: Ana Rabêlo/Reprodução

Se eu acreditasse em acaso, diria que foi uma grande coincidência a chuva parar de cair justamente no momento em que o carro entrou na estrada de terra rumo ao terreiro de Ilè Asé T’Ojú Labá. Para mim, o céu aberto – facilitando encontrar o endereço – e a terra menos úmida – dificultando a possibilidade de um carro atolado – eram a certeza de que eu faria uma das entrevistas mais importantes da minha trajetória.

Numa quarta-feira, de Iansã (Oyá), senhora dos ventos e tempestades, fui rumo ao Jardim ABC, um dos bairros da Cidade Ocidental, cidade na divisa de Goiás com o Distrito Federal. Num terreno grande, encontrei Mãe Dora de Oyá, Yalorixá do terreiro de candomblé da nação Ketu.

Com o sorriso costumeiro no rosto, ela me convidou para entrar na sua casa cor-de-laranja – cuja cor ela mesmo inventou, fazendo misturas com as tintas. Preparo o gravador e, por mais de uma hora, ouço as histórias de uma mulher que leva no corpo e na fala fé, cultura, política e resistência.

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Quem atravessa o portão de ferro e o quintal cheio de árvores frutíferas e cachorros brincalhões esperando encontrar uma mãe de santo vestida à caráter, em uma cadeira toda ornamentada e outros clichês, pode se decepcionar.

Dependendo do dia e da hora, a televisão da sala estará ligada em algum jogo da NBA (National Basketball Association, liga de basquetebol profissional da América do Norte) ou do Botafogo de Futebol e Regatas. No sofá, Mãe Dora de Oyá, com vestes brancas simples e turbante na cabeça. Botafoguense roxa, a Yalorixá adora esportes (menos esgrima, porque acha sem sal) e é fã do Chicago Bulls (apesar de toda crise que o time norte-americano enfrenta).

“Não me tira o jogo da NBA! (risos) O Chicago está uma porcaria, foi desmontado, mas a mística dele… O Michael Jordan… Isso está no meu imaginário. E botafoguense sou desde sempre. Agora, estou tentando entender as regras do futebol americano.”

Mãe Dora também pode surpreender quando diz que adora lenços da marca francesa Hermès e colares, brincos e anéis da marca Sobral Design.

“Bom gosto eu tenho. Só não tenho dinheiro. Também gosto de sapato de boa qualidade, porque aprendi que sapato bom não faz calo. Não consigo pensar com o sapato doendo meu pé.”

As preferências e hobbies de Mãe Dora me chamam atenção e me fazem querer saber ainda mais quem ela é e de onde veio essa mulher que foi integrante do Partido Comunista Brasileiro, é compositora e que também adora frango (menos com quiabo, quizila de Ogum), costurar e literatura em geral. Nas férias, ela é capaz de passar um dia todo na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, espaço em São Paulo conhecido pela grande quantidade e variedade de livros.

Dentre os cinco livros que lê ao mesmo tempo, ela me fala sobre “Zumbi dos Palmares – A história que não foi contada”, obra essencial de Eduardo Fonseca Júnior.

“Eu costumo dizer que enquanto a gente não fizer essa leitura da história do Brasil e da história do negro brasileiro, a gente não vai conseguir se firmar como nação. Já li várias vezes e toda vez encontro algo novo. Eduardo é historiador e professor de Yorubá. Também adoro teatro e sou fã de Plínio Marcos. Para mim, ele foi o melhor dramaturgo brasileiro. Além de ter sido meu amigo pessoal. Militávamos no mesmo partido. Tive a sorte de ter grandes pensadores ao meu lado”.

Com vocês, Dora Barreto. Ou Mãe Dora de Oyá:

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Dora Barreto nasceu em 1956, em uma cidade pequeninha chamada Ribeirão das Neves, próxima a Barreiras (a 600 km de Brasília). A mãe morreu quando ela tinha seis anos e ficou com Dora a responsabilidade de cuidar das duas irmãs mais novas. O pai trabalhava no Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e se mudou para Brasília no fim da década de 1960. Dora e as irmãs moravam com uma tia quando saíram da Bahia em 1969 e chegaram na capital federal só no ano seguinte.

“Que louco, né? Viemos num pau de arara que era um carregamento de sal. Chegamos bem machucados, à noite, em Sobradinho. Mas nosso destino final era Taguatinga. A gente precisou esperar até 4h da manhã para pegar um ônibus até a Rodoviária do Plano Piloto e aí sim ir para Taguatinga. Foi um sofrimento. Lá, fomos morar na QNJ 47. Morei em alguns lugares em Taguatinga e na Asa Sul”.

Depois de morar em um dos condomínios da Rua do Sol, no Jardim Botânico, Dora chegou ao Jardim ABC, onde construiu sua casa e seu terreiro, há 12 anos.

Com o canto dos pássaros como trilha sonora, peço que ela me conte como era Dora Barreto antes de ser Yalorixá. Na conversa, ela lembra que foi atendente de padaria, empregada doméstica, secretária do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), fisioterapeuta. E foi justamente no auge da carreira como fisioterapeuta especializada em dermatofuncional (fisiodermato) que tudo mudou.

“Hoje estou aqui de Yalorixá. Não foi uma escolha. A gente está escolhido. Está no destino. É função. Não tem jeito”.

Após fazer um curso de dois anos na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Dora foi trabalhar com os melhores cirurgiões plásticos do Distrito Federal e de Goiânia.

“Sou uma fisioterapeuta negra com projeção. Com tantos anos fora do mercado, até hoje, as pessoas ligam para falar comigo. Acho que fui uma das primeiras a ser especializada em dermatofuncional. Eu ganhava muito bem para isso e me dava o luxo de dizer: ‘por menos de tanto, não saio da minha casa para fazer’. Eu estava bem. Tive uma clínica top. Eu trocava de carro todo ano, fazia a unha três vezes por semana. Sempre calcei os melhores sapatos do mundo e até hoje calço, porque não sou obrigada a usar sapato que faça calo no pé.  Acho um absurdo. Voltando… eu estava muito bem, obrigada. O problema é que não tinha jeito…”

Desde criança, Mãe Dora sabia que era Yalorixá. Ela sempre soube que seria, mas fugia disso…

“Chegou uma hora que não tinha mais como fugir. Aí, não teve jeito e eu vim parar aqui. Sou um bicho urbano, uma perua por essência. Não tem jeito, está na alma. Sempre gostei de bons perfumes, salto alto… Mas chega uma hora e… Estou aqui. Você pode perguntar: ‘mas isso te deixa infeliz?’. Não, eu sou muito feliz aqui também. Eu tive todas as oportunidades que podia ter. Ou pelo menos busquei todas a oportunidades que eu achava que eu merecia ter e lutei muito por isso. Mas eu entendi também que a minha função aqui é fundamental para um monte de gente, principalmente para a criançada. Então, estou feliz do mesmo jeito”.

Mãe Dora de Oyá não cresceu no candomblé. Cresceu ao lado de um avô que usava branco às sextas-feiras e que era um “rezador fantástico”, dando um jeito em picada de cobra, em bicheira e em criança invertida na barriga da mãe. Várias dessas rezas, ele ensinou à neta, que via o avô puxar a ladainha de Nossa Senhora de Sant’Ana, protetora da cidade.

“Minha avó, uma Pataxó-hã-hã-hães, também me ensinou muito sobre o universo das ervas. Às vezes, me pego perguntando como que uma criatura que nunca foi à escola, que não estudou, sabia tanto. Meu avô era mais culto, versado, mas tinha uma outra coisa da cultura. Ele botou todos os filhos para estudar. Era uma família de professores. Todos os filhos dele eram professores. As mulheres e os homens. E eu venho dessa família. Desse povo”.

Dora revela que era umbandista, assim como o pai, e que na família paterna também havia evangélicos e católicos. “Sempre me dei bem com o pessoal da igreja católica. Só não me dei muito bem com padres”, ela confessa. Questionamentos como “Por que a Igreja Católica é tão rica e tem tantas terras?” incomodavam muita gente.

Aos 7 anos, Mãe Dora viu pela primeira vez o Caboclo Ventania. Aos 9 anos, ela pegava [incorporava] a entidade. A Yalorixá diz que acabou se acostumando com a figura dele. Uma figura que não era etérea, como a maioria das pessoas imagina, que era física. Seu Ventania aparece até hoje para Mãe Dora, com quem troca longos papos…

“Eu tinha muito medo dele e fugia para a igreja. Eu e minha vizinha da frente morávamos na QNJ, ela tinha mais ou menos a mesma idade do que eu e os mesmos problemas espirituais. Eu e Lenita fugíamos antes das seis da manhã e íamos para a missa na igreja São José. A gente não queria saber desse negócio de espírito até o dia que o padre estava rezando a missa e eu senti que o Caboclo Ventania estava ao meu lado rezando a missa. Ele falou assim: ‘o que ele sabe rezar, também sei. E eu ainda sei rezar em latim’. E ele me ensinou a missa em latim. Nem os padres rezavam mais assim”.

Como própria Mãe Dora disse, por ironia do destino ou por escolha do orixá, ela e Leninha se tornaram Yalorixás. Leninha é de filha de Ogum e o terreiro que ela comanda no Valparaíso é de nação Angola. Mãe Dora, é de Oyá, Iansã, e seu terreiro da nação Ketu.

“Olha aí como é o negócio. A gente fugiu tanto e onde a gente parou? Num terreiro, virando Yalorixá. Foi uma briga, um sofrimento para gente. A vida da gente foi muito junta. O sonho dela era ser secretária executiva e foi ser. Trabalhou num monte de empresa, mas não teve jeito. Foi parar num terreiro de candomblé”.

Mas o caminho até tornar-se Yalorixá não foi fácil. Mãe Dora já tinha sido feita no santo e sabia que Iansã queria uma casa para ela, para receber os filhos dela. Porém, Dora não queria saber disso.

“Eu não queria. Estudei tanto para virar mãe de santo? Porque eu tinha aquela imagem estereotipada: mãe de santo com aquelas roupas todas, que não abre a boca, que não se posiciona e não tem opinião. E, definitivamente, não sou essa mulher. Nem politicamente, nem religiosamente. Eu só pensava: isso não vai dar certo. Até o dia que meu ombro deu estalo e caiu em cima de paciente”.

Mãe Dora teve uma cromia clavicular, ou seja, o acrômio [articulação] se deslocou da clavícula. Ela lembra que pegou o “belo lenço Hermés” que estava usando, fez de tipoia e partiu rumo ao Hospital Brasília, onde ficavam as clínicas dos amigos médicos. Chegando lá, banhada de suor pela dor, a pressão medindo 25 por 18 impediu a cirurgia imediata. Cinco meses depois, ela pôde fazer a cirurgia com o diagnóstico que ficaria apenas com 30% do movimento do braço.

“O que aconteceu nesses cinco meses? Meus clientes desapareceram. Óbvio. Depois da cirurgia, o médico passou umas 30 sessões de fisioterapia. Fiz 10 e estava perfeita. O bração não inchou e não aconteceu nada. Daí pensei: é agora que não vou para o meio do mato mesmo”.

Porém, pouco tempo depois, foi a vez do braço direito ter um problema parecido. Não chegou a cair, mas rompeu os ligamentos. Daquela vez, o braço ficou inchado e Dora tinha dores absurdas. Foi quando ela decidiu procurar o terreno para seu terreiro.

Depois de uma noite com uma febre estranha e com a pele toda pipocada, o telefone tocou na casa de Mãe Dora. Era um amigo falando sobre um terreno à venda no Jardim ABC. Mesmo suando de febre, ela pegou o carro e não se sabe como chegou ao terreno. Em cima da gigantesca árvore que fica no centro da chácara, estava Seu Ventania assoviando. Mãe Dora comprou o terreno.

“E aí, Omulu apareceu em sonho para mim e avisou: no terreiro que vou te dar ninguém passa fome. Tem uma casa amarela com cinco pilastras e muitas frutas. Se você olhar, tá aí. Acaba manga, começa goiaba, acaba goiaba, começa banana. Nunca fiquei sem nada aqui para comer. E aqui estou eu há 12 anos, e não vou dizer que foi fácil. Aqui não foi nada fácil. Tudo que está aqui eu e meu marido quem fizemos. Agora tem os filhos de santos que começam a vir cuidar, mas tudo a gente que comprou do próprio bolso. Passamos o maior perrengue. Antes da minha filha entrar na faculdade, ela ia com o pai para o trabalho. E quando ela voltava de ônibus lá em cima, no Santa Mônica, me ligava e eu ia buscá-la. Pense no sufoco. Não foi fácil. E não é fácil até hoje. É um desafio todo dia”.

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A ordem é música

O Ilè Asé T’Ojú Labá é conhecido pelos projetos culturais que promove. Um deles é o ABC Musical. Mãe Dora sempre quis ter um projeto para a garotada, até o dia que apareceu a oportunidade perfeita. Em 2013, Rui, Lia e Álvaro procuraram a Yalorixá para falar sobre uma verba que o Ministério da Saúde tinha. A ideia era fazer um projeto piloto em três casas de candomblé. Como o terreiro tem vários músicos como filhos de santo, o projeto de fazer uma escola de música era perfeito.

“Expliquei para o Amílcar, Lucas e Paulista e eles toparam. Falei da importância de cuidar da educação dos nossos meninos. A escola de música era uma forma do nosso terreiro trabalhar com a nossa comunidade… A grana era pouca, mas deu para começar. E aí aconteceu uma coisa muito doida: em 2014, uma semana antes de começar as aulas, eu descobri que estava com câncer de mama. Os meninos ficaram muito impactados e falaram para suspender o projeto. Eu falei que não ia suspender nada. Vida que segue. As crianças acompanharam todo processo: cirurgia, quimioterapia, radioterapia. Me viram careca. O olhar das crianças me dava muita força. Era muito difícil levantar para fazer o lanche deles. Falta de força mesmo. Mas o olhar deles… Para mim, eles não falavam nada. Mas o olhar deles era um olhar de sororidade. Aí eu entendi o verdadeiro sentido disso aí”.

Toda orgulhosa, Mãe Dora conta que a molecada já está se apresentando. Inclusive, no dia 23 de novembro, eles tocaram na escola, após articulação dos próprios com o diretor. Para a Yalorixá, o ABC Musical é uma forma das crianças e adolescentes se entenderem como sujeitos na sociedade.

“Não é só uma aula de música. A gente mostra o lugar deles como pretos e periféricos na máquina que é o Estado brasileiro. As aulas de música, por exemplo, deveriam ser aplicadas pelo Estado, que não faz. Eles precisam se empoderar, aprender a se defender. Hoje, eles têm uma autoestima muito grande. Outro dia, uma menina botou para correr um vereador que queria conversar com os pais dela. Ela botou o cara sentadinho no sofá e falou meia dúzia de coisas na cara dele. ‘Não se atreva a vir pedir voto na casa dos meus pais. Eles podem não saber de suas intenções, mas eu sei’. Hoje, eles entendem que também se bota para correr com diálogo. Isso é muito bom. As meninas entenderam que elas não têm cabelo ruim. Isso era dito para elas inclusive pelos professores na escola. Esse tipo de comentário acaba com a autoestima de uma menina adolescente de 14 anos. Aí eu tive que ir na escola e falar com a professora que ela estava completamente equivocada e que a didática dela era uma didática que chegava ao fascismo. Eu falei: por um acaso o cabelo dela te tomou dinheiro emprestado e não lhe pagou? Falou mal de você pelas costas? Então como é que o cabelo dela é ruim? Ruim é a sua falta de didática, sua falta de tato, seu jeito de tratar o aluno”.

As aulas acontecem todo sábado pela manhã. O plano de Mãe Dora é fazer que elas sejam todos os dias. Um ônibus busca a garotada na parte “urbana” do Jardim ABC e os levam até a região onde fica o terreiro. A caçula da turma é Alice, de 4 anos. A pequena já pega o microfone para cantar “Samba da benção”, música de Vinicius de Moraes. Já Valentina, de 6 anos, arrasa no agô agô. “Isso me deixa muito feliz porque eu sei que elas vão crescer com uma autoestima lá em cima”, derrete-se Mãe Dora.

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Foto: Jane Franco/Reprodução

Um canto de afoxé

A força do Ilè Asé T’Ojú Labá também se manifesta na música por meio do Afoxé Ogum Pá. O afoxé ocupa as ruas da cidade há poucos meses, mas, na verdade, a gestação desse projeto foi bem longa.

Há uns sete anos, Mariana Fernandes, filha de Mãe Dora, e Khalil Santarém, filho de santo de Yalorixá, cantavam afoxé dia e noite. As canções do Alafin Oyó, famoso afoxé pernambucano, Mariana conheceu em uma das viagens para Recife-Olinda. Na volta, mostrou para Khalil, que também se encantou com o som dos pernambucanos.

Pouco tempo depois, Fabiano, presidente do Alafin Oyó, participou de uma das feijoadas beneficentes do Ilè Asé T’Ojú Labá e tornou-se muito amigo de Mãe Dora.

“Comentei com ele do meu desejo de ter um afoxé na minha casa. E questionou: ‘porque não?’. Fiquei com aquilo na cabeça e fui estudar para descobrir o que era preciso para fundar um afoxé. Há várias questões religiosas, fundamentos. Quando descobri o câncer de mama, liguei para Fabiano e falei: ‘irmão, acho que nosso afoxé vai ficar para outra encarnação’. Fiquei gestando quatro anos esse afoxé e olha como as coisas acontecem. Nada é por acaso. Ninguém no terreiro tinha cultura de afoxé. E quem veio para cá? Wellington Nascimento, que não é só conhecedor de afoxé. Ele é o afoxé. É um tremendo percussionista e foi alabe do Afoxé Oxum Pandá, de Recife. Um dia, postei uma foto dele dando aula para as crianças. Fabiano viu a foto e escreveu: ‘o que a senhora está esperando para fundar seu afoxé? Esse negão sabe tudo de afoxé’. Falei com Wellington, ele topou e fui para Pernambuco conversar com o pai de santo que cuida do Alafin Oyó, já que o Alafin Oyó é nosso padrinho”.

Filha de Iansã com Ogum, Mãe Dora queria fazer um afoxé para Oyá. Mas, depois de jogar os búzios três vezes, Oyá alafiou [confirmou] Ogum, e a Yalorixá fundou o afoxé para Ogum Megê. Em pouquíssimo tempo, quem não sabia tocar instrumentos aprendeu e quem já sabia um pouco, aperfeiçoou. Ogum estava pronto para ir para a rua. E foi.

“O afoxé chegou com o pé na porta. Ele é muito vivo. Tem muita energia e não gosta de ficar preso. Por que fazemos ensaios abertos? Porque Ogum quer ir para a rua e quer que as pessoas o vejam. Fomos para a rua no dia 2 de abril e no dia 23 de julho ele foi batizado pelo Afoxé Alafin Oyó. A gente acha que faz as coisas, mas não é. A gente é guiado. Eu tive a certeza de que o orixá da minha casa é vivo quando estive doente, porque conversava comigo o tempo todo. ‘Sua hora não é agora. Aprenda. Aproveite’. Temos que agradecer por eles estarem na vida da gente e nos guiar. Nada que eu faço na minha casa é porque saiu da minha cabeça. Senão, eu seria uma gênia. As coisas aqui pipocam. Eu só direciono e guio o pessoal. E as coisas sempre estão direcionadas para a cultura”.

Mãe Dora explica que cada casa de candomblé tem um axé, e o axé do Ilè Asé T’Ojú Labá é cultural.

“As coisas sagradas são entre meus filhos e eu. O cultural é para ir para fora. E volta de novo para dentro da roça. É um monte de gente pedindo para conhecer a roça, entrar para roça. Aqui não é exposição. É um espaço sagrado. Se o orixá mandar, eu recebo com o maior prazer. Agora, curioso não”.

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Salve Dona Maria

A trajetória desse axé cultural do terreiro de Mãe Dora de Oyá começou com os filhos de Dona Maria. Há sete anos, Dona Maria Padilha [entidade cultuada na umbanda e no candomblé] desceu e disse que na roça da Yalorixá iria nascer um grupo de samba que faria muito sucesso. Mãe Dora me conta que só foram dar atenção para o que tinham dito quando “as coisas começaram a acontecer”.

Um dia, Jul Pagul, proprietária do saudoso Balaio Café, convidou Khalil Santarém para tocar lá. Ele chamou Vinícius de Oliveira, e o pessoal gostou tanto que o convite foi feito novamente. Na segunda vez, Khalil e Vinícius foram acompanhados por Amílcar Paré e Artur Senna. Sucesso de público e de crítica. O grupo continuaria tocando lá, mas precisavam de um nome. Foi quando Dona Maria Padilha mandou avisar: “Filhos de Dona Maria”.

Em outubro de 2015, o quarteto lançou o primeiro disco da carreira, “Todos os prazeres” e, em 2018, deve sair para circulação nacional. A ideia é, logo menos, lançar o segundo disco.

“Eu faço algumas músicas… A letra e a música vêm na minha cabeça. Não é intencional. Quem senta para fazer isso é Paulo César Pinheiro e Paulinho da Viola. ‘Curimbeiro’ eu fiz para o Amílcar que tinha sido confirmado ogã nas águas de Oxalá. A música saiu em três minutos. Tenho essa facilidade desde criança”.

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Filha de Oyá

Na reta final da nossa conversa, Mãe Dora reforça porque é filha de Oyá (Iansã). Para a Yalorixá, Iansã foi o orixá mais sociável do panteão. Uma mulher extremamente guerreira e importante para a época. Que desafiou homens e mulheres e que dividia tudo com todos. Em todos itans (histórias) de Oyá, ela está dividindo alguma coisa.

“É nisso que eu acredito. Os direitos são iguais. Por isso, digo que a sociedade precisa fazer uma reflexão e o candomblé, uma autocrítica. Nós esquecemos nossas comunidades. A gente quis agradar demais a casa grande. O candomblé embranqueceu demais. E não estou falando do tom de pele. Estou falando da ideologia. Ela é introjetada. Está na alma. Esquecemos nossa comunidade e o espaço vazio foi ocupado por pessoas que não pensam no ser humano como sujeito. Pensam como uma forma de ganhar dinheiro. Eu não estou dizendo que são todas as pessoas, mas é uma forma de ganhar dinheiro. Então, é fácil de dominação. O discurso é: acredite em Jesus e você terá um carro novo e comprará sua casa. Qual é o homem de periferia que ganha um salário mínimo que não sonha em comprar um carro? Que não sonha em ter uma casa própria? Eles falam o discurso que o povo quer ouvir e estão tão carentes que embarcam e não percebem. Mas a culpa é nossa. Ou a gente faz uma autocrítica ou vamos continuar sendo mortos. Não adianta fazer passeata. Se não mexer na ferida e expurgar ela, não adianta”.

Mãe Dora avisa que não vai à passeata, pois virou um lugar “para tirar selfie e postar no Facebook”. A Yalorixá, que me surpreende mais uma vez ao falar de outro câncer superado, em 2016, na tireoide, reforça o poder da fala e a importância de se expressar com consistência.

“Minha política é de inclusão e de politização. Qual é o maior fundamento do candomblé? ‘Proteja seu próximo, cuide do seu irmão’. Proteger seu irmão é dizer: ‘olha lá sua rua, sua periferia. Estou numa periferia e preciso estar inserida nela. Tenho que cuidar da minha comunidade. Então, isso para mim é candomblé.”

 


Maíra de Deus Brito

29 de dezembro de 2017