Tanto faz: a seca e a copa

Quem for de torcer, torce. Quem for de secar, seca

Imagem: Daniel Carvalho/Revista Seca

A seca chegou e como acontece a cada quatro anos veio com ela a Copa do Mundo. Apesar dos reservatórios hídricos estarem cheios – para tristeza dos telejornais diários que perderam preciosos minutos alarmando a falta de água e induzindo a cada brasileiro caguetar seu irmão que por ventura esteja lavando as mãos no quintal – e de um sentimento difuso de que a seleção tá bem e entre as favoritas – apesar do tom sonolento, profético e auto-elogioso do treinador Tite e das polêmicas do nosso Justin Bieber, o cracaço Neymar – o fato é que as ruas não estão pintadas e o que comprova isso é que a televisão que é dona das Copas está tentando, por todos os meios necessários, criar um clima de Copa que nenhum de nós está vendo nas ruas. Talvez tenham sucesso como tiveram em 2013, ao transformar por meio do audiovisual uma ingênua manifestação contra o aumento das tarifas na já conhecida Revolta dos orcs, cujos efeitos nefastos ainda nos torturam diariamente.

Fato é que tem Copa e ninguém parece muito aí, o que é compreensível. Claro que existem os chatos que são contra o futebol e a favor da educação e aproveitam esse momento para distribuir memes comparando salários de professores a de jogadores de futebol. A esses só nos resta responder perguntando qual professor já bateu um pênalti de cavadinha aos cinco minutos do primeiro tempo diante de um dos maiores goleiros da história e na final de uma Copa do Mundo, como fez o Zidane em 2006.

Existem, também, os pachecos, com suas bandeiras do Brasil nos carros e um papo imbecil de que na Copa somos todos brasileiros, precisamos nos unir e exercer nosso patriotismo. A estes a melhor resposta, no momento, é o silêncio: eles podem estar armados e esperando apenas um motivo para exercer seus direitos homicidas de cidadão de bem. Mas quando a conjuntura mudar, e ela um dia vai mudar, serão muito bem-vindos nas fazendas de trabalho forçado, costurando bolas de capotão com seus uniformes de presidiários – havaianas verde e amarelas, calça de tergal branca e camiseta da CBF amarelinha.

A Revista Seca #7 chega anunciando que não vai ter mais chuva, que o Brasil é um país muito prego e que Copa ainda é legal mas, na moral, tanto faz. Quem for de torcer, torce. Quem for de secar, seca. Mas que respeitem o futebol: não aceitaremos patriotismo, esquerdismo pretensioso e apoio ao locaute dos caminhoneiros.


Danilo Oliveira

14 de junho de 2018