Editorial Seca#5: o diálogo é uma coisa supervalorizada

Assim como o fairplay, o Lars von Trier e o Roberto Carlos.

Ilustração: Daniel Carvalho / Revista Seca

Quando eu era um gordinho pequeno, com nove anos e quarenta e oito quilos, eu tive uma revelação que me guia até hoje.

Estávamos, um monte de molequinhos de tênis topper, canela cinzenta e catarro escorrendo pelo nariz, reunidos à sombra de uma jambeira em discussão para decidir sobre qual brincadeira brincaríamos. Eu, como sempre, queria jogar bola e assim propus. Um magro infeliz assumiu a oposição e levantou a hipótese da corrida de tampinha. Os três outros bacuris continuaram com a boca levemente aberta e os olhos perdidos no nada, completamente imbecis, assistindo ao debate que se seguiu. Eu, um pequeno culturalista, explanei a favor do futebol, dizendo que o ludopédio era o único traço real da nossa identidade nacional, que além de divertir ainda faria bem para nossa saúde, pois era um esporte que nos livraria das drogas no futuro. O Anjo-Mau balbuciou algumas coisas estúpidas e os três brasileirinhos votaram com ele. Fomos à corrida de tampinhas e eu, abençoado por uma sede de vingança – que o poeta de bigode já disse que é uma forma primitiva de justiça – tive uma vitória arrasadora como a do exército do bem em Stalingrado. Humilhei, ganhei com mais de um metro de distância do segundo colocado e ainda fiz dois retardatários. Continuei triste, meio puto, e foi ali que eu percebi que – ao contrário da teoria da competitividade que os americanos vendem para o mundo todo através de Netflix ou dos marines – não importa quem ganha, quem perde, quem sabe competir. O único vencedor é quem decide qual jogo todos devem jogar.

Tendo o mistério se me revelado tão cedo, eu tive que desde então colocar em prática a autoajuda do Prem Sartre que diz que o importante não é a comida podre que te oferecem como única opção para se alimentar, mas sim como você tempera essa comida podre que vai comer. Botei catchup nessa torta de realidade e segui em frente. O molho só ficou azedo mesmo alguns anos depois, quando entrei no serviço militar obrigatório.

No triste ano que passei servindo à Marinha aprendi coisas de utilidade discutível, como lustrar os azulejos com a escova de dentes, ariar as panelas com a língua, fazer polichinelo louvando o Marquês de Tamandaré e ter que mentir que Batalha Naval é um jogo melhor que Catan. No meio deste ano jogado fora, porém, eu tive uma evolução notável na teoria que guia a minha vida, acrescentando à frase que me norteava – que vence quem escolhe qual jogo vamos jogar – a triste certeza de que, quase sempre, na vida adulta nós não escolheremos.

Vejam, por exemplo, o Jogo dos Boletos. Não importa o que você acha da vida, se você sabe fazer cimento queimado que não racha, se manja de vinhos e é um grande cheira rolha, se quando adolescente você teve uma banda cover do Skid Row junto com o Juliano Cazarré. Dia 5 o boleto vai chegar e você tem que pagar, ou melhor, você deve pagar, pois se não pagar agora vai se foder nos juros, se não pagar com juros vai ficar com o nome sujo, se ficar com o nome sujo vai demorar cinco longos anos para limpar. O Jogo dos Boletos é um dos que já perdemos antes mesmo de nascer, pois quem decidiu suas regras foram os Senhores dos Boletos em reunião secreta com a presença dos 0,03% dos brasileiros que recebem em vez de pagar o carnê.

Beleza, até aqui eu já sei que ganha quem decide do que brincar e que as pessoas comuns quase nunca decidimos isso. Como diria o poeta rasta: no-novilds. Calma, pô. O que eu quero, mesmo, dizer é que tem um jogo importante que podemos disputar: o Jogo das Pautas.

A finada mídia disputou, e ainda disputa, esse jogo. Todo santo dia eles colocam nos jornais (que fontes seguras me garantem que ainda existem) e na televisão (aquele eletrodoméstico antigo onde você pluga o pendrive para assistir alguma série que, por pressa, preferiu baixar em RMVB legendado) assuntos que eles querem faz com que todos nós achemos importantes.

Um novato que entrou com tudo no Jogo das Pautas, no time da mídia, é o Rede Social. A garotadinha toda ficou fera na informática e passa o dia todo surfando na rede mundial de computadores e engordando o monstro. O Rede Social toma os seus dados para vender pros Senhores dos Boletos e em troca te dá uma plataforma para você discutir coisas que não conhece com gente que também não conhece em troca de, sei lá, passar o tempo. E, mais uma vez, não foi você quem decidiu sobre o que discutir: você acorda, pega o celular e já tá lá um assunto paia te esperando. Você não se segura e opina, e aí perdeu mais uma.

Tanto a finada mídia quanto o monstro Rede Social são adversários fortes, muito mais pelo dinheiro que têm do que pela habilidade, da mesma maneira que o Real Madrid. Graças a Deus que, diferentemente do futebol, aqui ainda existe a possibilidade de, vez ou outra, dar uma zebra. No Jogo das Pautas essa é a nossa vantagem: não precisamos ganhar de ninguém, bastando apenas que não deixemos o adversário jogar no nosso campo cerebral para nos consagrarmos vencedores.

O que isso quer dizer? Que não devemos nos pautar pelos trending topics, e  não precisamos entrar em nenhuma brincadeira que nos propõem os decadentes telejornais ou os insuportáveis grupos de família no zap-zap.

O maior cuidado deve ser tomado para não cair na armadilha mais refinada do inimigo. Algum bot levanta uma pauta polêmica e defende um lado absurdo, aí você, amigo, cheio das boas intenções, vai lá e argumenta contra aquela sandice. Quando você entra no assunto, mesmo que seja para tentar negá-lo, você já perdeu – uma vez que, ressalto, entrou como um patinho no game que não escolheu.

Nos últimos anos em que o Brasil pegou essa gastrite braba muita gente vem de bom coração vem defendendo a necessidade de dialogar com os diferentes. Depois de longos meses de pesquisa científica, testada e aprovada, eu vos digo, sem medo de errar, que o diálogo é uma coisa muito supervalorizada, tal e qual o fairplay. Devemos evitar todo e qualquer diálogo. Se não tiver como fugir dele – que seria o mais indicado – devemos trazê-lo para nossas regras. Exemplo: um interlocutor está indignadíssimo falando sobre, sei lá, a caça predatória dos pinguins para transformá-los em shampoo. Você deve responder que até hoje não entendeu como os japoneses criaram uma melancia quadrada e sem sementes. Aquele primo fala coisas genéricas corrupção e você responde perguntando qual dos filmes que disputam o Oscar na categoria melhor áudio original merece vencer. Não tenha dúvidas de que vale tudo para vencer o Jogo das Pautas.

Como diria o maior dos poetas: fight for your mind. Não deixe um algoritmo decidir do que você deve falar e nem gaste saliva à toa tentando convencer quem, como aqueles imbecizinhos que escolheram a corrida de tampinhas, está cego de estupidez e já decidido pelo errado.

É para você que não quer saber de incêndio florestal, separatismo europeu, da confusão Halloween x Saci Pererê e nem de qual foi a última polêmica em que aquele candidato se meteu que fizemos a Seca#5!


Danilo Oliveira

31 de outubro de 2017