Editorial Seca#2: Maggie´s farm no more

A Seca 2 chegou e, com ela, a oportunidade de reafirmar nossos princípios.

Imagine uma fazenda. Nessa fazenda, moram 100 pessoas. Dessas 100 pessoas, 5 estão no grupo dos proprietários: o fazendeiro, a esposa, os três filhos. Sobram 95. Desses 95, 15 recebem salários. Os 3 maiores salários vão pros que não executam nenhum trabalho braçal: o gerente (que é a voz do fazendeiro), o contista (que é a calculadora do fazendeiro), e o advogado (que é a justiça do fazendeiro). Sobram 12 assalariados. Os salários intermediários são do cocheiro (as pernas do fazendeiro), da cozinheira (o estômago do fazendeiro ) e do investigador (os olhos do fazendeiro). Os 10 salários restantes, os mais baixos, são dos jagunços (o chicote do fazendeiro). Sobram 80 trabalhadores para cuidar de todos os serviços da casa e da fazenda, para produzir toda a riqueza da fazenda e resguardar toda a tranquilidade da família fazendeira. Imagine que esses trabalhadores trocam seu esforço por cama e comida.

Os 80 trabalhadores são subordinados diretos dos jagunços, são estes que dizem àqueles o que fazer, como fazer, quando fazer, e também os que os repreendem quando eles, mesmo que por um segundo, saem da linha. Os jagunços respondem ao investigador, que é quem diz quem deve tomar um aperto para produzir mais e quais grupos devem ser separados para reclamar menos. Se alguém tem alguma reclamação recorrente e não desiste dela mesmo depois de passar pelo tribunal dos jagunços, deve ir falar direto com o advogado – para que ele mostre os contratos e as normas escritas e convença o reclamante de que ele está completamente errado. O advogado responde diretamente ao fazendeiro, assim como o gerente, que é uma espécie de menino de recados. O gerente diz para o investigador o que o fazendeiro quer e diz para o fazendeiro o que o investigador relata. Só quem pode recorrer aos serviços do cocheiro, além do fazendeiro e sua família, são o advogado, o gerente e o investigador. A comida que a cozinheira faz vai para a família e o triunvirato de gestores, e ela responde, diretamente, a qualquer um dos proprietários que queira lhe dar ordens.

Dos 80 trabalhadores, 75 trabalham duro e seguem as regras. Alguns, porque só sabem agir dessa forma. Outros, por medo dos jagunços. Os mais modernos, porque acreditam que o caminho para ter a sua própria fazenda é fazer exatamente aquilo que o fazendeiro quer. A questão são os outros 5.

Os 5 se escoram nas frestas das estruturas e enfrentam os jagunços, seja roubando o patrão, cruzando os braços no trabalho, ridicularizando o advogado ou organizando os trabalhadores em torno de reivindicações comuns. Mesmo com suas diferenças, todos eles costumam ser chamados de criminosos. Em geral, morrem nas mãos dos jagunços ou são condenados à cadeia depois de um processo irretocável feito pelo advogado. Mesmo que a maior parte dos 75 se sintam pessoalmente constrangidos por aqueles seus iguais que não param de criar problemas, as estripulias e malandragens, a coragem e a violência dos vândalos não deixam de causar simpatia em alguns corações. Porque o bandido é, antes de tudo, a tentação da rebeldia.

Principalmente para nós que, de Ciudad Juarez à Patagônia, somos espremidos por leis que nos punem, policiais que nos matam, jornalistas que nos mentem, especuladores que nos roubam e fazendeiros que nos escravizam. Ainda assim, e não sei se teria como ser diferente, seguimos nossas vidas – sempre mais apesar do que contra esse rolo compressor.  Quando um dos nossos, nascido e criado no time dos otários, consegue romper as amarras do comodismo e tornar-se um bom malandro, ou um herói da classe trabalhadora, ou as duas coisas ao mesmo tempo, só conseguimos responder de duas maneiras: com raiva pessoal ou com admiração política. Os primeiros seguem assistindo aos programas da tarde e torcendo contra os rebeldes. Os segundos veem nos injustiçados uma possível liderança. Pois, de Pedro Bala a Charles Anjo 45, de Lampião a Lula, nessa fazenda se caça todo aquele que ameaça.

Feliz dia do rock e que vocês gostem da Seca#2!


Danilo Oliveira

17 de julho de 2017