Editorial Seca#1

Como nasceu a Revista Seca

Desde o inverno de 1986, eu penso em fazer uma revista. Gosto de escrever, tenho um monte de amigos talentosos, que escrevem, sapateiam, pintam e bordam, enfim, sempre acreditei que o sucesso planetário era só uma questão de unir esse povo e mostrar para o mundo. E ela chegou à luz no dia 14 de junho de 2017, uma quarta-feira de Xangô, e também o mesmo dia em que nasceu Che Guevara. Que responsa!

O Vitor, eu conheci na faculdade. Chegou magrinho, de mullets e bigodinho de charreteiro, camiseta do Manowar, falando pouco, com uma então nova e bela tatuagem de dragão no antebraço. Quando eu li as primeiras coisas que ele escrevia, Jesus amado, quase caí para trás: o moleque era um cruzamento de Raymond Chandler com Érico Veríssimo, com uma pitadinha de Edgar Alan Poe. E, o mais chocante, apesar de ser um monstro quando escrevia, esse não era o maior talento do rapaz: ao vê-lo com a bola grudada na canhotinha fina, qualquer um percebia que tínhamos ali um camisa 10, que jogava na zaga só para humilhar os atacantes adversários, dando caneta, chapéu e lançamentos de três dedos. É óbvio que o Vitor tinha que estar na revista.

Já tendo convencido o Vitor, a Revista começava a nascer. Mas muito mais na vontade, na base do “vamo lá, porra”, do que de uma maneira profissional. É aí que entra a Maíra, essa deusa do sorriso total, que, com tão pouca idade, já tem uma carreira gigantesca no jornalismo cultural – idiossincrasia essa, que faz alguns invejosos suspeitarem que ela é gato. Maíra chegou com toda sua experiência e ensinou a mim e ao Vitor como se faz uma revista. Sempre gentil, mas sem passar um pano para ninguém, foi no contato com ela que aquilo que era primeiro um sonho, depois uma vontade de dois amigos, pôde se concretizar. Craque, ela faz uma espécie de mágica, que é resolver com uma frase problemas que eu e Vitor passávamos dias tentando dar um jeito.

Quando já tinha formado o bonde Danilão, Vitor e Maíra, faltava chamar aqueles amigos talentosos que escrevem, fotografam, pintam, bordam e sapateiam. E foi o que a gente fez.

Fernanda Tibana Machado, maior especialista em séries deste grande país chamado Brasil, topou falar de “Please Like Me” em um texto que, assim como a série, transborda delicadeza. Lucas Farage, um dos reis da W3, nos brindou com um texto saborosíssimo sobre a baixa gastronomia da região. Mavi Dutra, cantora e fotógrafa, fez um lindo ensaio com pessoas da plateia em seus shows. Pedro de Menezes, nosso correspondente no mundão, escreveu uma crônica deliciosa sobre a Fortaleza dos anos 1990. Raíssa Menezes de Oliveira mandou um texto sobre mais uma situação de abuso judicial neste pequenino país de terceiro mundo – e conseguiu manter a ternura mesmo diante do absurdo. Raquel Portela fez o mapa astral de Brasília e conseguiu achar o ponto certo para se comunicar com o público leigo sem perder as especificidades do texto de conhecimento astrológico.

O monstro Vitor fez a cobertura do evento Movida Literária, uma crítica do disco “Severino” dos Paralamas do Sucesso, e uma crônica deliciosa sobre um açougue paradisíaco. A deusa Maíra assinou sua coluna “Com Pimenta”, pautando o que de melhor acontece na cultura desta tão jovem cidade, e até mesmo deste complicado país. Na parte de ficção, eu publiquei um conto que se passa no interminável ano de 2016.

Sortudos, ainda pudemos contar com o talento gráfico do Daniel Carvalho e da Sarah Sado, nossa equipe de arte, que supera a Pixar em qualidade e produtividade.  Fernanda Tibana, além de escrever um lindo texto sobre PLM, também atuou como revisora dos textos – corrigindo a gramática e melhorando a comunicação quando foi preciso. Que mulher!

Não resta dúvidas em afirmar que a pessoa mais imprescindível foi a Carol Melo, que fez o site. Carol, Deus te ilumine e guie seus passos sempre. Vendo você trabalhar, eu percebi o quão difícil é dominar esse monstro chamado internet e montar nesse cavalo bravo que é o tal do html.

A matéria de capa foi uma entrevista feita por Nanah Vieira, que já pode ser considerada uma entrevistadora referência na América Latina, com Beatriz Leal, maior escritorazona da porra que você respeita. Abaixo, algumas palavras que escrevi no dia da conversa, antes ainda dos áudios serem transcritos:

Um dia lindo na casa de Beatriz Leal

 

A quadra em que a escritora Beatriz Leal mora é daquelas que dá para levar o primo do interior que veio passar as férias em Brasília, porque está pensando em prestar o vestibular para arquitetura: os prédios antigos, com muito concreto aparente e vidro, o piso de granitina brilhando, fruto do trabalho do pobre do zelador que passa dez horas por dia com o rodo na mão, afugentando as poucas crianças que ainda tentam brincar debaixo do pilotis. A quadra é cheia de árvores, e a grama, ainda verde nesse começo da seca, está perfeitamente aparada.

O apartamento em que Beatriz Leal mora tem uma sala ampla e uma varanda onde bate o sol da tarde. O piso é de madeira, as portas são antigas e pesadas, também de madeira maciça. Ao passar pela porta, os olhos imediatamente se voltam para uma enorme mesa de sinuca – da qual Beatriz reclamou, dizendo que a proximidade da parede atrapalha a qualidade das tacadas em um dos lados da mesa. Foi sobre o bilhar que Beatriz colocou uma toalha de mesa e uma garrafa com o café que passara para receber a equipe da Seca. Quando você já se divertiu com a mesa de sinuca feita de mesa de jantar, pode voltar a atenção pros pequenos – e muito significativos – detalhes que compõem a decoração minimalista do ambiente.

O maior desses pequenos detalhes é uma vitrola muito antiga, provavelmente com mais de 60 anos de uso. Ela está bem conservada, ainda funciona, e fica em cima de um móvel de madeira que também abriga um livro de capa dura sobre os Beatles, um ukulelê rosa e aquele objeto que Beatriz escolheu como o mais significativo à disposição: um livro de capa azul em que o avô de Beatriz escreveu, à mão, sua autobiografia. Poderíamos dizer que estamos na casa de uma guitarrista que gosta muito de literatura, mas o fato de o seu primeiro livro ter sido escolhido como um dos finalistas do prestigiado Prêmio Jabuti de 2016, na categoria romance, leva a crer que faz muito mais sentido escrever que estamos na casa de uma escritora que gosta muito de música.

A varanda é comprida e cheia de plantas – suculentas, samambaias, maracujá subindo pela coluna onde está pendurado o gancho para rede. Uma mesa de ferro, com duas cadeiras, também de ferro, e um quadro colorido onde se vê escrito “roda mundo, roda gigante”.

Um céu azul, sem nuvens, e um sol que irradiava uma luz amarela que lentamente ia ultrapassando a porta de vidro da varanda até cobrir toda a sala, deixando o ambiente ainda mais aconchegante ao ser partido no meio por uma luz e sombra naturais. Estava um dia lindo.

“Mulheres que mordem” é o primeiro livro de Beatriz Leal e foi finalista no Prêmio Jabuti de 2016. O livro fala sobre quatro mulheres que têm a vida entrelaçada a partir da abominável prática de sequestro de bebês por militares na Argentina, durante a ditadura militar naquele país.

A entrevista fluiu bem até que a escritora, em uma pausa para uma água, foi conferir o seu celular e experimentou uma sensação bem conhecida das suas personagens: o medo de que alguém querido estivesse correndo perigo por causa da situação política do país. A vontade de que todos voltassem logo para casa, sãos e salvos. 

Era o dia 24 de maio de 2017 e, além de bela, Brasília estava em chamas. Literalmente. Na Esplanada dos Ministérios, alguns banheiros químicos foram incendiados, assim como o auditório do Ministério de Agricultura e os sofás da portaria do Ministério do Planejamento. A polícia militar do Distrito Federal, além do infeliz, porém já costumeiro, uso abusivo do gás de pimenta, da bala de borracha e do cassetete, decidiu atirar a esmo no meio da multidão com munição letal. O presidente, ilegítimo, baixou um decreto que conferia poder de polícia às Forças Armadas pelo prazo de sete dias. Desde 1989, a democracia brasileira nunca estivera tão distante quanto naquele dia.

Beatriz  Leal é incrível: forte, articulada, agradável. O café estava ótimo, assim como o bolo. E lá fora ainda brilhava um dia claro do começo da seca. Mas, na nossa memória, e talvez essa seja a nossa pior maldição, o azul do céu foi lentamente perdendo para o cinza da fumaça e o vermelho do sangue que ainda está grudado no asfalto.

Foi um dia lindo na medida em que se pode ter um dia lindo na América Latina. Um dia lindo com uma das melhores revelações da literatura brasileira contemporânea, com sorrisos, boas histórias, acolhimento, camaradagem. E com violência policial, exército nas ruas, um aposentado entre a vida e a morte depois de tomar um tiro no pescoço e uma mão destroçada, explodida, percorrendo todos os grupos de Whatsapp.

Foi um dia lindo, mas merecíamos, todos, um dia melhor.

Que nossos dias melhorem e que vocês gostem tanto da Seca quanto nós gostamos de fazê-la são os nossos mais sinceros votos.

Com amor,

Danilão.


Danilo Oliveira

15 de junho de 2017