Editorial Seca #4: O afeto afeta

Por dias mais prazerosos (e saborosos) no jornalismo brasileiro

Arte: Daniel Carvalho/Revista Seca

Brasília, 10h30. Uma segunda-feira qualquer. Mais uma reunião que poderia ter sido um e-mail. Ok.

Sentados em roda, focas (aquele/a jornalista que acabou de se formar), repórteres mais experientes e editores traçam como será a próxima edição da revista. Os/as focas, coitadinhos/as, cheios/as de esperança sugerem aquela banda maneira que ninguém conhece e que toca em lugares alternativos, bem distante do centro da cidade. O som da turma é bom mesmo e nunca saiu no mainstream Rio-São Paulo. Com a devida apuração, pode virar uma boa matéria.

No chance. A banda é muito alternativa para o veículo que, no fundo, gosta é do mais do mesmo.

O repórter mais experiente chega com uma pauta manjada. Viu em algum jornalão Rio-Essepê um roteiro cultural com atrações baratinhas ou de graça, e dá pra fazer um mapa lindo, todo colorido, blablabá….O editor (é homem, porque as mulheres quase nunca alcançam esse posto por causa do machismo nosso de cada dia) tem simpatia pelo/a repórter mais experiente e mal ouve o que o cara (ou a mina) diz. “Ótima pauta, pode tocar”, dispara o editor. Corta. Do outro lado da roda, focas se impressionam como uma pauta tão fraca foi acatada com tanta rapidez.

Uma hora e meia depois do mesmo lenga-lenga de sempre, as pautas da próxima edição da revista foram decididas. O/A foca está arrasado/a porque vai, mais uma vez, ajudar o/a repórter experiente em alguma pauta boba; outros/as repórteres experientes vão escrever o que já foi dito outras vinte vezes – mas agora tem uma outra abordagem, juram; e o editor cansado da pressão do corpo editorial vai tentar bolar novamente (e sem sucesso), um “material diferente, que convide o leitor para uma experiência única” e que ganhe prêmios. Óbvio. Afinal, o que é um jornalista sem prêmios?

Não muito longe dali, Danilo, Maíra e Vitor combinam via WhatsApp a próxima reunião de pauta. Data e hora decididos, eles partem para um café manjado no centro da cidade. Só alegria: café, suco, salgado quentinho e torta de chocolate. Entre uma garfada e outra, eles falam como Mercúrio retrógrado atrapalha a compra de aparelhos eletrônicos; analisam a nova treta do Facebook; e comentam o feedback do público em relação à edição anterior da revista.

Sucesso. Um montão de gente voltou a ver Mad Men depois daquela resenha maneira e muitos debates de bar foram acalorados depois do post sobre o novo disco do Chico. E não há quem resista a astrologia e futebol. As críticas também chegam, mas sempre construtivas, a fim de ver aquela revista maneira mais maneira ainda.

Sem estresse, sem censura e sem medo de errar – entre uma torta de suflair e um cafezinho –, a Seca #4 entra no ar. Tem dicas culturais, tem literatura, futebol, teatro, cinema, afrofuturismo e muitos outros temas escolhidos com carinho, pois o afeto é a força motriz desse projeto.

Divirtam-se!


Maíra de Deus Brito

29 de setembro de 2017