Editorial Seca #3: Agosto Seco

Não é um texto sobre conjuntivite e sangramento nasal

Rosa estava desempregada há quase um ano já. Foi demitida logo no início da crise, quando uma denúncia fabricada contra o candidato trabalhista, que concorria à reeleição, suspendeu o sufrágio de 2022 e derrubou mais uma vez o presidencialismo. Desta vez, com a cassação de dois terços dos parlamentares, instituiu-se o judicialismo. Algumas almas críticas reclamavam que o fato não passava da mera oficialização de uma realidade que já vinha de longa data.

Rosa não sabia precisar muito bem os mecanismos responsáveis pela ininterrupta roda gigante política do país, mas sabia que era uma de suas vítimas. De saco cheio daquele eterno retorno mensal de boletos devidos, resolveu que, naquele agosto, torraria de outra maneira os trocados que conseguiu levantar vendendo camisas piratas de times de futebol. Foi ao cinema assistir ao muito esperado Velozes e Furiosos 17.

Rosa espantou-se com a multidão que apinhava a sala de cinema em tempos de crise. Aquela franquia era mesmo um sucesso. Aconteceu bem no meio da sexta capotagem de um muscle car que fazia drift nos alpes suíços. O celular apitou dentro da sua bolsa. Constrangida, rapidamente sacou o aparelho para ativar o modo silencioso. Era uma notificação. O número sessenta e dois da Revista Seca acabava de entrar no ar. Cedeu à curiosidade e resolveu dar uma olhadinha só na capa. Era uma matéria sobre os garçons que atendem as pool partys dos famosos. Leu só o primeiro parágrafo, depois só o segundo, e o terceiro e…

Rosa percebeu que as luzes da sala se acenderam e os créditos do filme subiram na tela. Lera quase toda a revista, com exceção de um conto policial que vinha por último. Olhou em volta e todo mundo estava também vidrado nos celulares, lendo avidamente os mesmos artigos, com exceção do casal da última fila que começara a se beijar nos trailers e só agora notava seus celulares piscando.

***

O porteiro Anselmo morria de calor naquela cabine de vidro. Os monitores do circuito de câmeras de segurança o lembravam de um programa de TV antigo, que assistia quando era moleque. Botavam um monte de gente para fazer porra nenhuma, por meses, dentro de uma casa cheia de câmeras. Achava um saco, mas assistia para ter assunto com alguns amigos. Até se alegrava pelo programa ter acabado.

O porteiro Anselmo já sabia qual era o papo, quando viu o morador do trezentos e oito aparecer na sua frente com uma loira enlaçada pela cintura. Virava e mexia e lá vinha aquela história. “Vou subir com essa amiga um pouquinho. Se a Regina aparecer por aqui, me avisa, tá?” Regina, claro, era a esposa do malandrão.

O porteiro Anselmo disse, como sempre dizia, que tudo bem. Se recostou na cadeira e jogou os pés para cima da bancada uns minutinhos, que nenhum morador visse a ousadia. Na tela da pequena televisão, a transmissão da novela das oito foi interrompida. O anúncio era grande demais, e só não mereceu musiquinha do plantão porque aquela emissora velha já estava quase falindo.

O porteiro Anselmo abriu o computador na mesma hora e acessou o site que o anúncio propagandeava. Entre as matérias do número sessenta e dois da Revista Seca, notou que a coluna de astrologia traçava um paralelo assustador entre o desemprego geral vivido no país e a retrogradação de Saturno. Emendou a leitura em um conto policial pouco inspirado, mas que serviu de combustível para mais uma matéria, e mais outra.

O porteiro Anselmo só caiu em si quando, no último parágrafo, da última matéria que lia, ouviu uma gritaria vinda do terceiro andar.

***

Marcão parou o carro em frente à casa. O velho meteu a mão no bolso e tirou a carteira. Puxou uma nota de cinquenta. O motorista de Uber avisou que não tinha troco, que a corrida não deu nem a metade daquilo. O velho já foi ficando impaciente, dizendo que era só o que ele tinha. E que motorista safado era ele, que aceitava uma corrida paga em dinheiro se não tinha troco?

Marcão respirou fundo. Olhou para os lados procurando um comércio onde pudesse trocar aquela nota. Os malditos condomínios tomaram conta da cidade. Só residências e guaritas. Não tinha uma porra de uma padaria. Perguntou se o velho não tinha nenhuma outra nota. O passageiro voltou a abrir a carteira. Tinha duas notas de dois reais. A corrida custava doze.

Marcão revirou os olhos, sacudiu a perna por alguns segundos. Depois disse que todo bem, que o velho lhe desse os quatro reais e estava tudo certo, era a última do dia mesmo. O velho sorriu e estendeu as duas notas azuis. Desceu do carro batendo a porta e marcou três estrelas para o serviço.

Marcão voltou para casa com o celular apitando o caminho todo. Quando estacionou, digitou a data de nascimento da mãe na tela do telefone para desbloquear. Eram notificações de amigos a respeito de uma revista que lançava um número sei lá quantos. Abriu a capa e achou tudo meio ruim. Passou o olho pelas caricaturas que assinavam a nova edição e achou todo mundo meio chato. Botou o telefone no modo avião e foi preparar o jantar.

***

A quilômetros dali, as três cabeças responsáveis pela Revista Seca se entreolhavam. Tinha sempre um rebelde que precisava ser doutrinado.

Curtam a Seca #3 enquanto ainda não ficou pop!


Vitor Camargo de Melo

31 de agosto de 2017