Maifreind

Pequenos comerciantes, padarias e conversas em inglês no Brasil do golpe

Foto: Alexandre Litwinski / Reprodução

Desde moleque, eu sempre aprendi a fazer amizade com os pequenos comerciantes do bairro onde moro. Os donos das padarias que frequentei perto de casa sempre foram um capítulo de destaque nessa história. Teve, por exemplo, aquele trio de irmãos que eram donos da academia onde eu nadava. Certo dia, resolveram que era uma boa ideia abrir uma padaria bem ao lado, sem nenhuma vergonha da sacanagem que aquilo representava. Eu, claro, depois de emergir da piscina, adolescente e faminto, mergulhava em qualquer maravilha cheia de catupiry que encontrasse na vitrine. Maquiavélicos, eles levavam o dinheiro dos meus pais na mensalidade e a minha mesada nas latinhas de Coca-Cola e nos pães de batata.

Teve também aquela padaria da velhinha gente boa, que ria do meu pudor exagerado sempre que eu tentava (e conseguia) passar pelo caixa uma revista de mulher pelada. Certo dia, inteirou minha mãe do assunto na maior cara lavada e as duas riram juntas. Foi a última vez que comprei uma revista do gênero.

Mas isso foi antes de Brasília. Quando nos mudamos para cá, eu tive que renunciar ao hábito de conhecer os donos das padarias perto de casa. Particularmente, eu culpo o Lago Norte, bairro que nos recebeu nesse momento. Foram três endereços dentro do bairro, e nenhum favorecia o trato mais próximo com os pequenos comerciantes. Um pouco pelo fato de que eles não sobrevivem muito tempo nas ilhotas comerciais do bairro, mas muito pelo fato do Lago não incentivar o hábito de se flanar por suas ruas.

Quando me mudei para a Asa Norte, as coisas voltaram a clarear no departamento das padarias. Não tanto pelo pão francês, que ainda compro em supermercado, hábito odiosamente adquirido nos tempos lagonorteanos, e que ainda me custa abandonar. Mas muitos lanches e cafés da manhã eu tomo nesses oníricos estabelecimentos que cheiram a pão quentinho. E, nas duas residências que já habitei no bairro novo, consegui conhecer os donos das padarias mais próximas.

Na primeira, o dono era um português flamenguista, somatório de características que sempre remete à família Antunes Coimbra e é de bom agouro para qualquer rubro-negro.

Já onde moro hoje em dia, a padaria mais próxima é regida pelo Seu Inácio, um bonachão que só fala com a gente num inglês de sotaque forçado, que ninguém sabe precisar se é de propósito cômico ou se o Seu Inácio fala inglês daquele jeito mesmo. É passar na porta do estabelecimento e ganhar um “Relô, maifreind. Rau areiu?”

O pão com ovo é dos melhores e Seu Inácio é uma figura carismática. Sempre que devolvo a pergunta em saudação, ele responde “Véri uél.” De uns anos para cá, toda vez que chego à padaria, ele me pergunta como vai a Dona Lúcia. Respondo sempre que ela vai muito bem. Às vezes ele emenda um “Sumida…” Eu me limito a concordar com as sobrancelhas levantadas e a boca retorcida num sorriso incipiente. Nunca enxerguei propósito em contar ao Seu Inácio que eu não faço a menor ideia de quem seja Dona Lúcia, e ele está me confundindo com algum parente da velha.

Uma vez, ele resolveu discorrer um pouco sobre a personagem. “Velha forte, rapaz. Porreta mesmo. Latifundiária.” A admiração na voz do comerciante era comovente. Desde aquele dia, eu passei a não gostar de uma velha por aí que eu nem conheço.

O Maifreind, como os clientes da padaria se acostumaram a chamar Seu Inácio, é uma pessoa dessas, admirador subserviente da minúscula classe rica brasileira. Comerciante que acredita que se paga imposto demais no Brasil, funcionário é muito caro por causa do excesso de direitos e o juiz Sérgio Moro é um paladino da justiça. Outro dia, reclamou com um empregado, que comia demais durante o expediente. Bom, esse funcionário não está mais lá e, coincidentemente, correu um boato, poucos anos atrás, de que um ganhador solitário da Mega Sena era funcionário da padaria. Tem até torcida organizada para que tenha sido o comilão.

Já me peguei pensando que eu não teria motivos para gostar do Maifreind tanto quanto gosto. É o típico brasileiro médio chefe de alguém ou dono de alguma coisa. Provinciano e prosaico. Mas talvez seja justamente por essa forma que escolho descrevê-lo que gosto do personagem. Semana passada fui à padaria comer meu pão com ovo e tomar um suco de laranja. Era minha vez de ficar com a neném no turno da manhã e, às vezes, é difícil preparar o café em casa com aquele serzinho gorducho querendo fazer bagunça. Maifreind só faltou me botar no colo, de tanta festa que fez para a pequenina e das comidas que tentou me empurrar. Trocamos a maior ideia sobre como ter filhos é uma experiência transformadora e gratificante. Saí da padaria feliz.

Se um dia eu fizer parte da cúpula revolucionária que vai salvar o Brasil, talvez eu garanta ao Maifreind uns anos de trabalho comunitário pelos seus pecados na era capitalista do país. Mas até lá, em tempos de polarização e debate intoxicado, eu venho publicamente afirmar que tenho simpatia por um conservador que figura em meu cotidiano. Mas não a Dona Lúcia. Essa, eu detesto.


Vitor Camargo de Melo

14 de junho de 2018