Center Um: A última fronteira

O hit-maker Pedro de Menezes já pode ser considerado o maior cronista do Brasil na atualidade. Aqui ele fala sobre um shopping – digamos – peculiar em Fortaleza.

– Vish, meu filho, aí só no Center Um mesmo, ó.

Era a última coisa que eu queria ouvir da boca da diarista do escritório quando perguntei onde poderia tirar uma foto 3X4, mas foi exatamente o que ela me respondeu.

Fundado em 1974, o Center Um é o primeiro shopping de Fortaleza. Avesso a inovações e blindado à ação do tempo, desde sua abertura até os dias atuais o Center Um atravessou todos os efêmeros modismos comerciais da capital, que faliram tão logo inauguraram, sem nunca abrir mão de suas características originárias. Paleterias conceito, food trucks gourmet, espaços lounge, lojas in, barbearias para homens com cabelo de pidgeotto e barba de mendigo, oficinas de cerveja artesanal, ciclofaixas com Hilux estacionadas, igrejas evangélicas, stands da Avestruz Master, coachings cocainados, academias de crossfit, revendedores de Herbalife ostentando no peito insígnias com os quilos perdidos, empreendimentos reunindo salas de escritório, apartamentos, espaços fitness e necrotérios e outros tantos impérios de consumo, ócio e lazer testados na Ana Bilhar ergueram-se e sucumbiram como castelos de areia sem jamais conseguir arranhar a nobreza ancestral desse totem alencarino que funda seus alicerces nas camadas sedimentares daquelas empreitadas arrogantes. Toda nação tem o Cid que merece, e se Deus deu à Inglaterra o Barrett e o Vicious, para nós Ele reservou o Gomes, que, através de suas espúrias parcerias com o empresariado local, transformou o Ceará na Meca da marmota, uma espécie de Dubai pós-apocalíptica.

A explicação para a heroica resistência do Center Um frente a todas essas tendências mercantis trazidas para a praia do fortalezense pelas infectas marés do capitalismo tardio reside no pacto de paz e mediocridade que o shopping assinou com esses barões do empreendedorismo sertanejo. Explico: quando lançado, todo projeto comercial de Fortaleza entra em uma sangrenta disputa para se tornar o único negócio existente na cidade. Se vence, a empresa senta no trono dourado do monopólio, se perde, quebra e agoniza no inglório lamaçal do SPC/Serasa. Já o Center Um recusa esse tudo ou nada: se por um lado abdica de se banhar no lago batismal do tudo, por outro se salva do afogamento no lodo pôdi do nada. Aceitando participar de uma disputa desde que nunca a vença, o shopping ganha o direito de nunca perdê-la, e assim, sobrevive nessa posição ambivalente equilibrando-se na linha tênue entre o sol de meio dia da glória e a noite eterna da falência. Não ameaçando os outros desde que não seja por eles ameaçado, esse animal alado que não sabe voar conseguiu garantir para si uma posição simultaneamente inofensiva e protegida, e, desse modo, repousando em sua duração, existindo em sua inexistência e desaparecendo na própria nitidez, o shopping segue lembrado como um lugar esquecido, um imortal que não mata ninguém. Se, como vaticinou o criador de androides de Blade Runner, “uma estrela com o dobro do brilho brilha metade do tempo”, logo, uma estrela sem brilho algum brilha para sempre. Eis o caso do Center Um.

Convencionou-se dizer que a pós-modernidade transforma a profundidade histórica do passado em um pastiche bidimensional presente de icônicos signos superficiais e epidérmicos que se limitam a suas aparências visíveis por estarem divorciados de seus sentidos substanciais originários.  Se isto for verdade o Center Um é uma espécie de outro lado da pós-modernidade. Não seu oposto (uma anti-pós-modernidade), mas seu avesso ou negativo, como o mundo invertido de Stranger Things, pois assim como o pós-moderno, ele é um inventário de imagens opacas sem fundo, mas ao contrário desse período, ele não é um apanhado de figuras canônicas que metonimicamente encapsulam suas respectivas eras, mas um acervo de sinais decaídos que ilustram o que deu errado em cada capítulo do capitalismo fortalezense: amoladores de tesoura, chaveiros, afinadores de gaita, taxidermistas, professores de Kumon, de libras, de esperanto, de informática, revistas de cifras para violão, tradutores de braile, vendedores de bateria de relógio, bina, bainhas de foice, bíblias, bonsais, cadarço, enciclopédias, cofres, campainhas, calendários, controles de portão, kits de mágica, agendas telefônicas, computadores positivo, calçadeiras, lanternas, loções e Totolec, praça de alimentação com tecladista, bingos, filatelia, numismática, heráldica, livros de caligrafia, escadas rolantes que não rolam, luthiers de carimbo, lojas de fantasia com máscara do Mister M, lojas de presentes a serem dados no amigo secreto da firma, lojas de enfeites para casa que de tão feios acabam indo para a casa de praia, lojas zen com budas dourados, DVDs da Tiazinha, do Kenny G, do Leoni “incluindo o sucesso Garotos”, ingressos para o circo do Marcos Frota, o Paraíso Perdido, o Zoológico, o Ita Parque, o paint ball, o show do Roupa Nova no BNB, quiosques que vendem gadgets de abdominal oferecidos por uma Feiticeira de papelão, Jequiti, escolas de dança que ensinam uma modalidade que se popularizou em uma novela da Glória Perez com Raul Gazola e Luciano Zafir ambientada em um país da Oceania há muito exibida, barracas de “comidas típicas” os doze meses do ano, perfuradores de cinto, lan houses com a foto do dono e uma reza penduradas na parede, restaurantes nordestinos no nordeste, feiras de animais (alguns extintos), farmácias que vendem remédios para doenças erradicadas, agências de viagem oferecendo cruzeiros por mares que já secaram, panfletos de esquemas de pirâmide, caixas eletrônicos com notas de 1 Real, ringues de patinação derretendo, garrafas térmicas cujo garoto propaganda é o apresentador do “Papa Tudo” ou do “Você Decide”, supermercados com pizzas feitas na hora, velhos de bigode tingido se gabando de um suposto parentesco distante com Paes de Andrade ou Mauro Benevides, algodão doce, Sukita, Jandaia, Tang, Tanjal, guaraná Taí, aaaah! Enfim, o Center Um é a biblioteca de Babel dos analfabetos onde a modernidade deita suas carcaças, o que ficou retido no apanhador de sonhos do diabo, uma rave dentro da cabeça do Lúcio Brasileiro, a Disneylândia de Banksy, a Azkaban austral, o Castelo Ra-Tim-Bum do Tim Burton, a Las Vegas da cracolândia. É como se a telha de amianto do shopping, além de dar câncer, tivesse o poder de alterar o sinal da luz divina, fazendo com que a bênção celestial chegue aos clientes transmutada em um verdadeiro banho de pragas do inferno. Já que se assemelha mais a uma civilização degenerada do que primitiva, o Center Um não deve ser considerado um shopping de pobre, mas sim de uma aristocracia decadente afeita a fricassê de frango, medalhão de filé, camarão com catupiry feat. batata palha no Jóquei Club e todas as outras tendências do passado que nem os hipsters quiseram resgatar. Mesclando uma pomposidade bufa digna de Tom Wolfe e Oscar Wilde com uma rusticidade áspera própria aos flanelinhas da aldeota, o Center Um acabou por inaugurar um estilo próprio: o dândi lumpemproletariado.

Foi para lá que zarpei.

Entrei e fui direto na Abafilme para, como se diz no dialeto local falado no shopping, “bater meu retrato”. Na minha frente um cardume de velhos revelava fotos de si no Náutico, no Ideal, no carnaval da saudade, eles de mocassim sem meia, bermuda, polo listrada e chapéu panamá exibindo varizes que davam às suas pernas um aspecto marmóreo, elas sorrindo abraçadas a um timão gigante de gesso em um hotel do litoral cearense. Um deles disse que era a última vez que faria aquilo pois agora tinha ganho do neto um “celular que vê internet”. Chegou minha vez, bati minha foto, a mulher me mostrou o resultado e me perguntou se estava bom ou se eu quereria bater outra. Pelo tom de voz ela claramente achava que era melhor bater outra, eu estava parecendo uma gêmea malvada da Beth Goffman, mas tudo o que eu queria era sair dali o mais rápido possível, chegar em casa e tomar um banho para tirar aquele cheiro de Minâncora, sabonete Phebo e desodorante Avanço que ia indelevelmente se impregnando em minh’alma.

Enfiei a foto no bolso da calça e parti.

Quando saí da loja para a nave central do shopping, notei que um velho estava me encarando com seu olhar vazio e satanizado. Seus olhos não tinham nenhum brilho, eram só duas bolas de vidro cheias de leite com uma íris negra retangular como as de uma cabra boiando dentro de cada uma. Suas mãos pareciam tanto caranguejos que eu não achei que fossem mãos, mas caranguejos. Elas traziam todos os paradoxos do animal: lisas e peludas, finas e inchadas, duras e frágeis. Ele era tão magro que sua camisa de listras verticais só tinha uma listra. Sua pele era fosca, não sei qual a melhor metáfora para descrever: como se houvesse geado sobre ele, como se eu o visse através de uma gaze ensanguentada, como se tivéssemos que girar um milímetro de volta o botão do dial para sintonizar o velho direito. Não parecia alguém envelhecido, mas fossilizado, como uma estátua de pedra pomes. Tinha uma boina.

A conversa que travamos foi a seguinte:

EU: “O senhor tá precisando de ajuda? ”

ELE: “Estou… Pedro”, pronunciando meu nome em itálico.

EU: “O senhor me conhece?”

Ele então meteu a mão entre a boina e a careca e mostrou para mim o segredo que guardava lá: a foto 3X4 que eu havia acabado de bater, 50 anos mais desgastada, e disse

ELE: “Eu sou você, Pedro”

Nessa hora tudo ficou escuro, como se uma pálpebra houvesse se fechado sobre o shopping. Parecia que conversávamos sob a égide de uma grande boina.

ELE: “Há 50 anos eu era um Pedro jovem como você diante de um Pedro velho como eu, assim como daqui 50 anos você será um Pedro velho como eu diante de um Pedro jovem como você. Há 50 anos eu entrei aqui para bater essa 3X4 que você acabou de bater, e um Pedro velho me disse que agora que eu havia chegado ele estava livre, mas que, assim como ele, eu ficaria preso aqui 50 anos até o dia em que um Pedro jovem chegasse para me libertar e se tornar o novo prisioneiro a ser solto 50 anos depois por um Pedro jovem e assim sucessivamente.”

EU: …

ELE: …

EU: “Show”

ELE: “Hehe, foi exatamente isso o que eu disse 50 anos atrás. Eu até sei no que você está pesando agora: você está pensando em postar no Face um textão sobre isso misturando referências de alta e baixa cultura para exibir sua erudição nas redes sociais comparando nossa história com “Apocalypse Now” na esperança de que os likes preencham lacunas abertas na primeira infância dando a entender que sua decadência e a do país, por serem paralelas, simultâneas e simétricas, se devem às mesmas razões…. aaaai, Pedro, Pedro… como você se acha, rapaz. Mas tudo bem, tudo bem… nada que 50 anos no Center Um bebendo tulipa de chopp no Shopping Pizza não resolvam. Enfim, me acompanha só até a porta? Você não pode passar de lá mesmo.”

EU: “Mas lá fora é 2017. Você entrou aqui em 2017 e vai sair em 2067 ou entrou em 1967 e vai sair em 2017, ou os 50 anos que você passou aqui representam 1 minuto lá fora e você saiu e entrou em 2017 mas agora estará velho e…”

ELE: “Cala a boca! Essas perguntas não dão dinheiro… Olha o Christopher Nolan”

EU: “É mesmo”.

Fui com ele até a porta

ELE: “Então, como eu estou?”,

EU: “Não esquece a boina. Tá sol hoje”

ELE: “Agora você vai precisar dela mais do que eu.”

Colocou a boina na minha cabeça, coroando-me o novo cativo, e saiu do Center Um, 50 anos depois de ter entrado.

EU: “Obrigado. Agora pode ir, não vem carro não, daqui eu tô vendo.”

Ele caminhou até o meio da rua, virou para mim, acenou com a 3×4 na mão e se despediu gritando

ELE: “Você agora está em um labirinto, Pedro. Não tenha medo do Minotauro, pois o Minotauro é você. É inútil querer sair do labirinto para chegar em casa, pois o labirinto é a sua casa. Não tenha pressa, é pior. Para alguém que não foi feito para esse mundo, até que você vai sentir saudade dele. Adeus”

EU: “Ó a moto”

ELE: “Tá, Adeus”

Nesse momento um raio o atingiu e ele desapareceu para sempre, deixando para trás só a nossa 3X4, que descreveu uma espiral tristonha até pousar esquecida no asfalto esburacado da Santos Dumont, sob o olhar desatento e inofensivo dos pombos e das câmeras de segurança desligadas.


Pedro de Menezes

31 de outubro de 2017