Antes do almoço, pra ficar pensando melhor

Carne, cerveja e conversa fiada: o paraíso dos letras c é um açougue no Lago Norte

“Picanha, costelinha, mandioca e feijão tropeiro. Setenta e quatro e sessenta.”

“Dá pra fazer um desconto, não?”

“Com o desconto especial, fica setenta e sete.”

“Hahaha. Aí ficou bom.”

“Carvão, já tem?”

“Tem, sim, valeu.”

“Arriégua. Rapaz, tô desconfiado que o carvão não vai dar, hein. Leva mais um saco pra garantir?”

Aos domingos, quem está atrás do balcão, normalmente, é o Eduardo. Um cliente depois do outro, o repertório de brincadeiras é adaptado a cada situação, mas o tom não muda nunca. O gerente joga uma piada, sorri, recebe de volta algumas, também com bom humor. Maranhense, como a maioria dos funcionários seus colegas, ele é natural de Tutóia, ilha cercada de igarapés na entrada dos lençóis. Já nasceu fazendo esquibunda nas dunas cheias d’água.

“Tem uma duna no meio da cidade. Mas lá não é que nem Barreirinhas, não, que o vento joga areia na cidade toda.” Eduardo planeja voltar em breve para lá.

O Triângulo, nos domingos, tem movimento e clima de boteco. Mas é açougue dos bons. Dos quinze anos que tem de Brasília, o gerente Eduardo já completou treze trabalhando ali.

O Lago Norte, bairro residencial em forma de península, é cortado no meio por uma via expressa e, dividindo uma pista da outra, o canteiro central dá lugar, de três em três quadras, a uma ilha de estabelecimentos comerciais. Na comercial do açougue Triângulo, na altura da QI 9, o auge do movimento é mesmo no domingo pela manhã.

“Não gosto nem de folgar no domingo. Todo dia vem cliente especial, mas no domingo vem mais. Eles vêm, gostam de bater um papo. Normalmente são sempre os mesmos clientes, né. E se eu vendo vinte jornais na semana, no domingo eu vendo cem.” Conta Heloy, dono da Banca da Felicidade.

Lá pelas dez e meia, onze horas da manhã, eles começam a chegar. Cabeças brancas, barrigas de chope cuidadosamente cobertas por camisas polo. Bermuda e sandália. O uniforme de domingo do brasileiro de bem. Vez ou outra, um pedaço de caderno na mão com a lista de compras feita pela esposa. Nessa hora o açougue Triângulo é o santuário do guerreiro, com três churrasqueiras industriais a bafo na calçada cuspindo fumaça, uma parede inteira de freezers cheios de carne e cerveja. E, claro, a companhia de outros brasileiros de bem instigados a discutir política e futebol.

Os responsáveis domésticos pelo almoço de domingo não reclamam da incumbência. Em uma mesa de alumínio, escolhem entre potes variados de arroz branco, arroz carreteiro, feijão tropeiro, mandioca cozida e vinagrete. Decidem na hora o pedaço de carne que lhes vai servir a família. Um dos quatro funcionários escalados para o dia – todos com bons anos de casa – já tempera na hora e manda o pedido para a churrasqueira. Enquanto esperam a carne assar, os clientes bebem uma cerveja – ou várias – e jogam fora quilômetros de conversa. Os pedaços menores de carne e linguiça que vão saindo, já entram na roda e o pessoal cai matando ali mesmo. Não é raro, nesses momentos de festa, alguém beber e papear demais, pagar a conta e esquecer de levar o almoço para casa.

Foto: Vitor Camargo de Melo

Futebol é o assunto oficial da nação. E a galhofa corre solta. A colônia de Minas Gerais é a maior do bairro, com mais de 13% da população. Estabelecimento da estirpe mineira, que o nome não deixa negar, o açougue Triângulo tem na figura do dono, Marquinhos, um exemplar raro de cruzeirense.

“Às vezes um cliente atleticano passa aqui no dia seguinte de um jogo só pra me sacanear.” Ele conta. Mas a conversa também tem análise tática séria.

“O jogo foi bom, mas tá faltando o camisa 10, né. O meio erra demais.”

A maioria planetária de flamenguistas se faz representar tanto entre os distintos senhores clientes quanto entre os funcionários, a começar pelo gerente Eduardo. Vez ou outra é comum presenciar a cena de um cliente contando o jogo de sábado para algum dos funcionários que não conseguiu assistir por não assinar o pay-per-view do campeonato.

Do outro lado da rua, vem lá o vascaíno Heloy. Conhece meio mundo no bairro, aperta mão, paga cerveja e conta da ressaca do dia anterior. O dono da banca de revista diz, sorrindo, que hoje em dia só gosta de ler as manchetes. E que elas são todas iguais. Quando alguém dá corda, ele se derrete falando da filha mais velha, que estuda direito, orgulho do pai. Uma cerveja a mais e conta que ele mesmo nasceu em casa, porque a avó era a parteira da cidade de Itapipoca. É o filho mais velho, único homem no meio de oito irmãs. Quase virou lobisomem.

“As mais novas vieram gêmeas. Veio duas de uma vez, escapei dessa.” Ele ri.

Heloy veio do Ceará para Brasília aos quatorze anos de idade. Com dezesseis, já era empregado em uma banca de revista, em 1988. Lembra que só ficou afastado do ofício por um ano na vida, quando serviu no exército. Trabalhou no Lago Sul, na Rodoviária e na Asa Norte antes de chegar ao Lago Norte em 1996. Foi balconista, empregado, gerente. Tem orgulho de nunca ter apresentado um atestado médico na vida para faltar o serviço. Há cinco deixou a banca na QI 3 onde era gerente e comprou a Banca da Felicidade.

“Quando essa aqui pintou, em 2012, eu comprei. Foi quando o dono adoeceu. Ele tinha duas bancas, essa aqui e a da Asa Sul. Ele ia vender uma das duas, perguntou qual eu queria. Eu disse que queria essa daqui, porque já conheço a clientela do Lago. Aí peguei uns empréstimos aí, tô pagando e é isso aí.”

A esposa Eliana também trilhou o empreendedorismo. Trabalhou na lavanderia do bairro, e agora tem sua própria lavanderia em casa. Busca as roupas na casa do cliente e leva de volta.

“O sujeito trabalha a vida inteira e, se você não tiver uma cabeça de ‘vou enfrentar sozinho’, acaba sem nada.” Explica o Heloy.

Foto: Vitor Camargo de Melo

Os comerciantes falastrões só tiram o corpo fora quando o assunto descamba para a política. Homens de negócio, guardam uma posição neutra. Isso quando não conseguem sumir de cena por alguns minutos. Heloy estica os olhos para a banca, apoia a garrafa de cerveja na mesa de alumínio e sai apressado.

“Ah meu Deus, chegou cliente lá de novo. Tenho que ir lá. Já volto, não vai embora não.”

Enquanto isso, um conhecido trabalhador da atividade fim do Itamaraty atesta:

“Não se enganem, em uma imaginária comunidade internacional do DF, o Lago Norte é parte do circuito Elizabeth Arden.”

Mas o bairro carrega no sangue duas características que o fazem diferente dos seus pares: a começar pela idade avançada de sua população. Mais de 45% dos moradores do bairro têm mais de quarenta voltas completas em torno do sol. E um quarto da demografia lagonorteana está acima dos sessenta[1].

Em segundo lugar, o fato de que a candidata do PT, Dilma Rousseff, eleita presidenta no segundo turno de 2014, perdeu para o candidato conservador em todas as zonas eleitorais do Distrito Federal naquela oportunidade. No entanto, das regiões mais ricas do DF (Asa Sul, Asa Norte, Sudoeste, Lago Sul, Lago Norte, Águas Claras e Park Way), o Lago Norte foi onde a diferença entre os dois candidatos apresentou números mais modestos[2].

Grande parte da experiente população do Lago Norte é formada por profissionais liberais de sucesso e funcionários públicos de alto escalão, com trânsito nos andares de cima das autarquias instaladas na cidade. Por isso, no Lago Norte se bateu panela no processo de golpe por meio de impeachment de 2016, mas o som não se fez uníssono. O debate nas calçadas das bancas de revista e dos açougues do bairro não se aproximava da “ditadura do adeus, querida”, que Brasília encampou com tanto ardor. Entre os assuntos preferidos estão as novidades políticas e as novas regulamentações das mais importantes instituições da República. Mas, quando a discussão pipoca, as opiniões variam.

“O projeto da terceirização, quem propõe é empresário. A reforma da previdência tá sendo feita no achismo, e com terrorismo e covardia!”

“Tá difícil a coisa. Estamos perdendo o direito do trabalho, porra.”

“Difícil tá é o desemprego. Tem que flexibilizar pra gerar emprego, vocês não veem isso?”

Marquinhos, o dono do açougue Triângulo, explica que, em defesa do convívio civilizado e da sobrevivência pacífica do seu negócio, até no futebol ele tem que maneirar na contundência.

“Eu já fui mais cruzeirense. Hoje eu tô mais light.”

O pai de Marquinhos, seu Pedro, abriu o açougue em 1987, no mesmo espaço que ocupa hoje, com uma expansão quando compraram a loja ao lado. Marcos assumiu em 1998.

“Meu pai era uma pessoa muito comunicativa, e tal. O pessoal chegava, conversava. E criou uma rotina. O pessoal tinha mania de chegar, não só pra comprar carne, mas pra bater papo.”

Ele defende ainda que essa possibilidade de se aproximar das pessoas é uma das vantagens de manter um comércio de bairro. Além do contato comercial, diz que faz amizades. Sobretudo no Lago Norte, que, diferente de outros bairros, não é lugar de passagem. Quem chega ao açougue, é morador. O comércio então não vende muito, mas mantém a média estável. Puxando debaixo do balcão um estojo com milhares de fichas de anotações, Marquinhos explica como administra uma caderneta com os pedidos fiados. Alguns clientes acumulam pedidos e pagam a conta por mês.

“O Lago Norte, pra mim hoje, é o melhor bairro de Brasília. Eu só não moro no Lago Norte porque não tenho condição.”

Foto: Vitor Camargo de Melo

A hora vai apertando os calcanhares, e às duas da tarde o açougue já está fechando. Mas sempre há tempo para atender os últimos pedidos de quem almoça mais tarde.

“Mais alguma coisa?”

“Não, só isso mesmo.”

“Vai chegar mais ninguém lá pro almoço, não? Cunhado, sogra, isso é bicho que come quando chega, hein.”

“Hahaha, não. Não vai chegar ninguém.”

“Pô, então leva pelo menos um feijãozinho pra ajudar. Tem dez barrigudinhos lá em casa com fome.”

“Então me vê um pacotinho de pão de alho aí. Mas não quero da marca do Roriz, não.”

[1] Dados disponíveis em http://www.lagonorte.df.gov.br/category/sobre-a-ra/pdad-2016/

[2] http://www.tre-df.jus.br/eleicoes/eleicoes-2014/resultados-das-eleicoes-2014


Vitor Camargo de Melo

14 de junho de 2017