1988, o ano que não terminou

Mais do que a resposta de quem matou Odete Roitman o último capítulo de “Vale tudo” prova que o Brasil sempre mostra a sua cara

Foto: Globo / Reprodução

Amanhã, sábado (9/2), mais de trinta anos depois da exibição de “Vale tudo”, já na era do streaming, o canal a cabo Viva transmite o último capítulo da trama, aquele que responde à famosa pergunta “Quem matou Odete Roitman?”.

Me lembro como se fosse ontem. Era 1992, na primeira reprise da novela, tinha seis anos e estava ligeiramente obcecado com esse crime. Mesmo com a pouca idade, eu, já noveleiro (meu primeiro crush, afinal, foi Claudia Ohana, a Natasha de “Vamp”), sabia que aquela era uma produção das boas, uma das mais incensadas da história da TV brasileira. O assassinato da ricaça ficou na memória afetiva dos fanáticos pela telinha, mas não foi só por isso que “Vale tudo” mostra-se atemporal. Alguns fatores podem ser determinantes para determinar o sucesso dessa trama, exibida em 1988, ainda excelente e relevante.

O primeiro é o bom e velho folhetim, uma história que prende o telespectador ao longo de 200 capítulos. Nesse caso, ao invés das agruras de mocinho e mocinha enfrentando dificuldades por oito meses para ficarem juntos, “Vale tudo” conta a história de Raquel (Regina Duarte) e Maria de Fátima (Gloria Pires). Os autores Gilberto Braga, Leonor Bassères e Aguinaldo Silva criaram uma trama à la “Alma em suplício”, filme americano da década de 1940 estrelando Joan Crawford: o conflito entre uma mãe-coragem e a filha mau caráter.

Outro fator é a representação certeira de uma época, seus costumes e idiossincrasias. Para isso, Braga partiu de uma simples pergunta, “Vale a pena ser honesto no Brasil?”. E, para isso, além da trama familiar central, foram criados outros personagens, tal como o empresário corrupto Marco Aurélio (Reginaldo Faria), o alpinista social Ivan Meireles (Antônio Fagundes) e, claro, a pérfida e endinheirada Odete Roitman (a saudosa Beatriz Segall).

Em 1988 o Brasil vivia a abertura política depois de mais de duas décadas de regime militar. Na primavera seguinte, teríamos a primeira eleição direta em muito tempo (veio Collor, o resto é história). Enquanto isso, a criminalidade, a pobreza e tudo o que havia sido colocado debaixo do tapete na ditadura atingia a superfície.

Arte: Edson Caldeira / Reprodução

Três décadas e passaram e, para ser bem justo, algumas coisas não são mais as mesmas. À época, o relacionamento homossexual de Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin) não tinha nem mãozinha dada (e hoje, ainda bem, o beijo entre pessoas do mesmo sexo está até na “Malhação”).

Também percebemos que a expressão “boy lixo” é nova, mas o conceito é velho. Que mulher empoderada do século XXI iria aturar os chiliques branco-hétero-classe média dos “mocinhos” Ivan e Afonso (Cássio Gabus Mendes)? Até mesmo os porres homéricos de Heleninha (Renata Sorrah), memes nos idos de 2000, já não parecem tão engraçados assim, visto que temos mais informações sobre alcoolismo, saúde mental e adicção.

Ao assistir à novela o que mais choca é ver a luta de classes, o racismo, a impunidade, que parecem continuar em reprise eterna na vida real.

Não vale a pena ver de novo.


Arthur H. Herdy

8 de Fevereiro de 2019