Com Pimenta

À convite da coluna, o comunicólogo e produtor cultural Guilherme Tavares comenta a importância de um festival como o Favela Sounds

Foto:NuAbe/Divulgação

Guilherme Tavares é comunicólogo e produtor cultural, diretor da agência Um Nome Produção e Comunicação; e criador, coordenador geral e curador do festival Favela Sounds. O evento está na segunda edição e vai além dos shows. A programação também conta com oficinas em várias cidades do DF e debates sobre música de periferia.

A maratona de shows gratuitos começa nesta sexta (3/11), às 18h, com ABRONCA (RJ), Linn da Quebrada (SP, foto no alto), DJ Darlly Matos (MA), Wesli (Haiti), Rosa Luz (DF), Xande de Pilares (RJ), Iasmin Turbininha (RJ) e Larissa Luz (BA). No sábado, o palco do Museu Nacional recebe África Tática (DF), Thabata Lorena (DF), DJ Donna (DF), Baco Exu do Blues (BA), Magu Diga How (DF), Dama do Bling (Moçambique), Pati Egito (DF), Titica (Angola), Telefunksoul (BA), Tati Quebra Barraco (RJ) e DJ Kacá (DF).

À convite da Com Pimenta, Tavares escreveu porque é urgente falar, pensar e ouvir a música periférica do Brasil e do mundo:

No final dos anos 2000 e início dos anos 2010, o Brasil vivia fase de empoderamento político, social, estético e financeiro da chamada classe média e, por consequência, os moradores de favelas tornaram-se público-alvo dos mais distintos mercados de consumo. A publicidade, a imprensa, os processos de produção de produtos e as marcas criaram, então, um selo que remete à expressão “made in periferia”. Este selo elegeu ícones de uma representação que seguia longe da produção cultural genuína das “quebradas” e, vez por outra, flertava com alguns de seus agentes.

Este comportamento em nada destoa da prática histórica de trocas simbólicas da mídia com o lugar de fala do “favelado”, haja vista a origem do samba nos anos 1920, que só se firmou definitivamente como gênero musical genuinamente brasileiro quando invadiu as ondas do rádio através das vozes de cantoras brancas e não-periféricas.

Outro exemplo destes ajustes econômicos da história é o rap norte-americano que, mesmo ocupando primeiro lugar nos rankings musicais de todo o mundo, vez por outra se enquadrou em um sistema de mercado gerido por pessoas não-periféricas e só hoje – com a diversificação dos meios – tem real autonomia para equilibrar suas proposições estéticas aos anseios de agentes dispostos a gerir estes produtos culturais.

A favela sempre esteve ali, pungente e cada vez maior, com mecanismos próprios de vivência em comunidade. E é claro que a música destes lugares, tão cheios de autonomia e de reivindicações que só dizem respeito aos seus próprios moradores, segue viva e igualmente pungente, à revelia de qualquer tendência de mercado.

No Brasil de 2017, um tanto desprovido de alavancas para o futuro e pautado pela ingerência política e por crises de corrupção, o fator “classe média” e a “marca favela” têm sido deixadas de lado na mesma proporção em que as duras conquistas de minorias são pouco a pouco minimizadas e até mesmo desfeitas.

Reconhecer as trajetórias artísticas das favelas brasileiras torna-se ato simbólico fundamental para a consagração e o entendimento de estéticas que, mesmo amplamente difundidas entre todas as classes sociais, ainda são tidas como marginais.

Na mesma medida em que se reconhecem os mestres da cultura popular, cumprindo-se demanda de se preservar o patrimônio imaterial da identidade nacional, deve-se reverenciar os ases da cultura urbana periférica, agentes vivos da constante e inexorável transformação cultural à qual as cidades brasileiras passam. A este reconhecimento devem-se os esforços para realização do Favela Sounds .

 

 

 


Maíra de Deus Brito

3 de novembro de 2017