Com Pimenta

Monólogo com Leno Sacramento, “En(cruz)ilhada” é o nó na garganta, é o choro entalado, é o soco no estômago

Foto: Raissa Tuany/Divulgação

Mais de um ano depois da estreia, “En(cruz)ilhada” chegou a Brasília. O espetáculo teve curta temporada e não deu para quem quis. Nos dias 15 e 16 de março, a peça com direção de Roquildes Junior ocupou o Espaço Cultural Renato Russo. Duas únicas sessões. Lotadas.

No monólogo, Leno Sacramento (que também assina o texto) fala sobre as diversas mortes do povo negro. Ou melhor: Leno não fala. Todos os diálogos são gravados e alternados peça trilha de Gabriel Franco. O quase silêncio do ator só é interrompido quando Leno canta o Shosholoza, canto da África do Sul, que virou hino tradicional nos estádios daquele país. O Shosholoza uniu negros e brancos na terra do apartheid. Um cântico negro que superou o racismo.

“En(cruz)ilhada” tira o ar. O espetáculo é extremamente incômodo porque é extremamente real. Ele fala do racismo que enfrentamos dentro dos ônibus, das lojas, nas ruas. É o racismo que a gente sente quando alguém muda de calçada ao nos avistar.

Muitos insistem em dizer que é mal-entendido. Mas sabemos que não é. São signos com os quais – infelizmente – estamos acostumados. É a porta do mercado de trabalho que se fecha pela ausência da “boa aparência”. É a angústia diante do deboche e do pouco caso da branquitude a cada caso de racismo denunciado.

Quando a peça completou 1 ano de estrada, Leno Sacramento (que também integra o Bando de Teatro Olodum) levou um tiro enquanto andava de bicicleta na Avenida 7 de Setembro, em Salvador (BA). A polícia confundiu o ator com um assaltante. Corpos negros são constantemente confundidos por aí. Nunca com médicos, advogados, engenheiros. Muitos insistem em dizer que é mera coincidência.

Na época, Leno comentou que na véspera da estreia da peça teve dificuldade de ver a obra ganhar destaque na mídia. Entretanto, quando ele levou um tiro, viu o episódio ser destaque em todos os jornais da cidade.

“En(cruz)ilhada” é o nó na garganta, é o choro entalado, é o soco no estômago. “En(cruz)ilhada” nos deixa entre a cruz e espada e nos provoca: “você vai seguir em silêncio?”.

A cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil, deixando família, amigos e um vasto potencial cultural, econômico e intelectual.

Eu já escolhi meu lado nessa trincheira.

 

*Texto em memória de Kauan Peixoto, de 12 anos, morto no dia 16 de março de 2019, após ser baleado em Chatuba (Mesquita, Baixada Fluminense, RJ). Kauan deu entrada no hospital com um tiro no abdômen, um no pescoço e um na perna. O jovem tinha saído de casa para comprar um lanche. No mesmo momento, havia uma operação da Polícia Militar na comunidade.


Maíra de Deus Brito

18 de março de 2019