Com Pimenta

A coluna bateu um papo com Jaqueline Fernandes, estilista negra, periférica e referência na moda do DF. Ela comanda a Diasporic, uma das marcas presentes na Mimo Fashion, evento cuja segunda edição acontece neste sábado, dia 13 

Fotos da Diasporic: Rafael Viana// Stylist: Raoni Vieira// Produção: Black Fashion Model

Fotos de Jaqueline Fernandes: Acervo Pessoal

Neste sábado, 13 de outubro, acontece a segunda edição do Mimo Fashion. Idealizado pela estilista Jaqueline Fernandes, a feira terá a presença das marcas Fernanda Ferrugem, Taiana Miotto (www.taianamiotto.com), Miwa Project (www.miwaproject.com) e Diasporic (@diasporicbrasil).

Hoje, a Revista Seca conversou com Jaqueline. Nascida em Planaltina, a estilista de 37 anos passou boa parte da infância no bairro Jardim Roriz. Jaque me conta que o bairro surgiu de uma invasão e já foi considerado um dos locais mais perigosos do Distrito Federal.

“Desde criança eu me interessava pelas artes, embora não houvesse nenhuma referência familiar nesse sentido. Comecei com a dança e, aos nove anos, fazia apresentações. Dos 13 para os 14 anos me encantei com o movimento punk e comecei a escrever funzines, crônicas e letras de música. Foi aí que passei a dizer que queria ser jornalista e incidir sobre as histórias contadas sobre a minha cidade, sobre política e, claro, sobre cultura. Sou filha de ex-traficante e uma trabalhadora doméstica que criou, sozinha, três filhos. Como muitas, fui o primeiro diploma de ensino superior da família e, embora muita coisa me atraísse para o mundo das artes, o jornalismo, além de uma paixão, parecia ser uma escolha mais promissora àquela altura. Foi uma escolha bem racional e que me ajuda em vários aspectos da vida ainda hoje”.

Formada em Comunicação Social, ela também tem especialização em Políticas Públicas em Gênero e Raça pela Universidade de Brasília. Mas como ela mesmo destaca, para além da academia, sua formação está ligada às vivências de mulher negra, periférica e, principalmente, ao movimento negro e à cultura hip hop.

“Antes e depois de me formar em jornalismo estive diretamente ligada ao fazer artístico-cultural. Fiz parte de bandas de rock, publiquei crônica em coletânea de literatura periférica e cheguei a participar de uma coletânea de rap feminino. Justamente para viabilizar algumas dessas coisas, comecei a fazer produção e, como levava muito jeito, fui de projetos de garagem à coordenação de grandes festivais. Com trinta e sete anos, posso dizer que, 95% dos trabalhos que fiz na vida, remunerados ou não, foram relacionados à cadeia produtiva da cultura. Em algum momento eu passei a dedicar a vida para o fortalecimento da cultura negra. Produzi diversos artistas regional e nacionalmente e participei ativamente de coletivos, fóruns e iniciativas relacionadas ao movimento de mulheres negras. Em 2007, junto com duas amigas, criei a Griô Produções que, mais tarde, se tornou referência de produção preta na cidade”.

 

Outro trabalho de destaque na carreira de Jaque foi a criação do Festival Latinidades em 2008. De acordo com a multi-artista, o projeto é uma plataforma de impulsionamento de trajetórias de mulheres negras em diversos campos de atuação. O festival – que deu visibilidade ao Dia Internacional da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho – foi coordenado por Jaque até 2014, quando ela assumiu a subsecretaria da Cidadania e Diversidade Cultural do DF.

A moda sempre fez parte da vida de Jaque, mas foi recentemente que ela pensou nisso como profissão. Ela me explica que sempre soube do papel político da moda e, mesmo com poucos recursos, sempre dava um jeito de se destacar e criar visuais diferentes. Na adolescência, ela foi anarcopunk e skatista, e era viciada na marca Adidas. “Queria ter tudo. Mas o máximo que conseguia, com muito esforço da minha mãe, era um par de tênis por ano”, lembra. Sendo assim, ela comprava fitas adesivas coloridas e transformava todas roupas em Adidas.

“Depois passei, junto com uma amiga, a comprar malha de cores diversas, criar vestidos com listrinhas e mandar costurar. Muitas pessoas perguntavam em que loja nós tínhamos comprado aquelas peças tão diferentes. Respondíamos sempre: em São Paulo! (risos).  Aos dezoito fui convencida por uma grande amiga a ser modelo. Fiz alguns poucos desfiles e passei por maus bocados diante dos padrões racistas que queriam mudar o meu penteado ou diminuir dois centímetros dos meus quadris, mesmo que eu já fosse extremamente magra. Não durou muito tempo eu decidi que não precisava passar por mais aquele teste de autoestima na vida. Além disso, não tinha paciência, nem afinidade”.

Em 2015, 17 anos depois desses episódios, a estilista passou a fazer cursos relacionados à moda e a criar os primeiros croquis. Jaque, cuja “primeira e eterna referência” é Grace Jones, ainda não costura as próprias roupas, mas está em processo para chegar a essa etapa.

Adama Paris é outra grande referência. Ela é senegalesa, estilista e produtora de moda. Está à frente do Dakar Fashion Week. Eu admiro muito Ronaldo Fraga porque a pesquisa em moda é algo que realmente me encanta e motiva – ninguém faz isso como ele. Recentemente adquiri um livro da estilista e pesquisadora norte-americana Constance C White. Se chama “How to Slay” e conta, principalmente por meio de imagens, como a moda negra deixou sua marca na cultura mundial.

Ultimamente, Jaque tem observado e estudado a arte contemporânea africana e afro-diaspórica, buscando possibilidades de diálogo. Nessa seara, ela destaca dos trabalhos de “artistas incríveis’ como Zahira Kelly, Osborne Marcharia, Osengwa, Omar Victor Diop, Hassan Hajjaj, Esther Mahlangu, Amadou Sanogo, Renata Felinto e Rosana Paulino, entre outras.

Eu, que não entendo tanto de moda, mas estou ligada em tudo que está rolando no Brasil e no mundo, quero saber qual é a visão da estilista sobre a importância de corpos negros serem protagonistas na moda. O primeiro ponto que Jaque chama atenção é o fato de sermos maioria da população e a relevância disso ser representado nas passarelas e na cadeia produtiva da moda.

“Muitos acham que responsabilidade social se resume em fazer roupas de couro ecológico e ser contra o trabalho escravo. Mas não refletem como a invisibilidade proposital de pessoas negras na moda e na mídia incide negativamente sobre a sociedade, reforçando estereótipos, violências, racismo”.

A artista também fala como a história oficial da moda nega a contribuição das pessoas negras. O legado africano é localizado apenas como mero vestuário, apesar dos símbolos, dos códigos e das estéticas da cultura negra estarem nas grandes marcas.

“Um dos maiores exemplos vivos é a expansão da cultura urbana pelo mundo e quem está lucrando com isso. É uma relação de apropriação cultural tão naturalizada, tão difícil de reverter, que faz com que quem reivindica referência e respeito seja apontado como violento, enquanto quem se apropria, como defensor da diversidade. Então, não é só sobre os nossos corpos na passarela”.

Por fim, pergunto a Jaque como ela analisa a questão tão racial na moda dos últimos anos. A estilista percebe um avanço, por meio de ativismo e resistência, nítido com a maior presença negra em editoriais, passarelas, influencers, pesquisadores e pesquisadoras da área. Entretanto, assim como em outros campos, ainda há muito o que ser feito.

O racismo é um projeto antigo, reiterado por meio de muitas estratégias perversas. O povo negro nunca se conformou com esse projeto. Pelo contrário, criou, historicamente, diversas estratégias de sobrevivência a ele. E para além de sobreviver, sabe que precisa lutar diariamente pela defesa da sua humanidade e dignidade. No mundo da moda não é diferente. Temos um longo caminho pela frente. Ainda hoje, está na moda ser negro, negra, desde que você não seja negro, negra.

Mimo Fashion
Mimo Bar (105 Norte). Sábado, 13 de outubro, a partir das 16h, exposição das marcas, música e talk show especial, preparado pelo coletivo Distrito Fashion. Entrada franca. Classificação indicativa livre.


Maíra de Deus Brito

11 de outubro de 2018