Com Pimenta

Depois de lançar o livro de quadrinhos “Historietas de Bicicleta”, a artista plástica Ju Lama prepara uma nova publicação: “Enquanto houver muros”

Fotos: Cled Pereira/Divulgação

Em 2017, Ju Lama lançou o livro de quadrinhos “Historietas de Bicicleta”, sobre mulheres que andam de bicicleta pela cidade. Agora, ela se prepara para lançar o “Enquanto houver muros“, livro homônimo ao projeto que espalha lambe-lambes pelas ruas do Distrito Federal com narrativas de mulheres (parte desse trabalho está em cartaz na exposição Transborda Brasília, até 7 de outubro, na Caixa Cultural!).

Pensando que há cinco anos Ju reflete em espaços públicos as vozes femininas, a Revista Seca fez cinco perguntas para a artista plástica.

Confira!

Como o “Enquanto houver muros” surgiu?

Coleciono histórias de mulheres há uns cinco anos, escrevendo-as em um caderninho sempre que me tocam, em um formato de microcontos. Também sou apaixonada por quadrinhos e por cartazes espalhados pela cidade. A ideia de unir essas linguagens veio junto com a vontade de contar essas histórias em um formato que atingisse pessoas diversas, refletindo em espaços públicos as vozes femininas que trazem. Colocar na rua, desfazer uns silêncios e unir essas histórias às várias vozes que já falam nos muros.

Onde as pessoas poderão ver o projeto? 

Os lambes estão nas ruas da Ceilândia, do Paranoá, do Guará, do Conic e do Setor Comercial Sul. Por enquanto. Quero que eles se espalhem por mais cidades do DF. Os lambes também estão em Manaus e em São Paulo, cidades que cresci visitando e onde vivem as minhas avós, inspiradoras dessas histórias. Gosto de colar os lambes acompanhada de amigas e amigos. Geralmente, colamos nas cidades em que vivemos, onde sabemos que as pessoas caminham, esperam pelo ônibus ou conversam nas praças.

Quando as histórias foram para os caratzes?

Difícil dizer quando começou. Essa investigação é muito antiga, mas encontrar o formato que mistura os microcontos com cartazes ilustrados de desenhos e colagens se iniciou há dois anos, quando fiz os primeiros dos 24 cartazes que já estão nas ruas.

Por que transformá-lo em livro?

Fazer cartazes nasceu na contramão do fluxo agitado da cidade. Existe nos cartazes essa leitura rápida, que capta o olhar de quem passa. Uma curiosidade provocada principalmente pelas imagens, mas há uma leitura mais minuciosa e lenta para compreender as histórias e os detalhes das imagens. As fontes dos textos, por exemplo, não são muito usuais para dimensões urbanas, são pequenas e instigam uma parada maior do que faz a publicidade quando se comunica.

Essa diferença das dimensões me fez pensar que o formato de publicação também seria possível para essas artes, incentivando que outras pessoas coloquem nas paredes e muros essas histórias. Eu fui contemplada com um edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) para publicação em artes visuais que me permitiu transformar esse material em um livro, que terá as páginas dos cartazes destacáveis exatamente para que não percam o formato inicial. O livro também une histórias que outras mulheres parceiras escreveram, exercendo na prática a coletividade e a sensação de que não estamos sós. Além de um registro, esse livro foi pensado como uma continuidade do projeto.

O fio narrativo condutor do projeto é o desenvolvimento de reflexões de mulheres no cotidiano da cidade. Conte-me alguns temas abordados nas 24 histórias presentes no livro…

Centrar nas histórias de mulheres é antigo pra mim, desde que comecei a me interessar pelo feminismo, na minha própria transformação e na parceria de diversas manas, com suas próprias histórias de reconstrução quando o assunto é gênero, sexualidade e raça. Fiquei muito sensível a essas vivências ou relatos e comecei a escrevê-los ainda sem um fim expecífico para esses textos. Os cartazes falam bastante de minhas três avós, cujas vivências são muito ricas e inspiradoras. Queria que a trajetória delas fossem valorizadas e que não ficassem esquecidas. O projeto também conta com cartazes sobre a descoberta da sexualidade, desejo, gêneros não binários, estratégias de sobrevivência, afetos, legalização do aborto e violências contra o corpo de mulheres.

 


Maíra de Deus Brito

11 de agosto de 2018