Com Pimenta

“Nós, Os Tincoãs”: as histórias e as memórias do trio baiano

Foto: Reprodução/Internet

A ideia da coluna Com Pimenta desta edição era fazer uma resenha do livro “Nós, Os Tincoãs”. Era, não. É. O lance é: como falar do livro sem antes falar da trajetória do último remanescente¹ do grupo baiano, Mateus Aleluia? Sem Mateus não tem livro e sem livro, não tem resenha.

Mateus Aleluia nasceu na década de 1940 em Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano e há pouco mais de 100km de Salvador. Mateus só chegou ao trio – que ficaria conhecido pelo hit “Deixa a gira girá” – em 1964, quando substituiu Erivaldo. A partir dali, Os Tincoãs iam ganhar o som que nós conhecemos hoje.

O trio que começou no bolero ganhou visibilidade e sucesso quando passou a gravar sambas de roda, ritmos do candomblé e músicas sacras católicas. Tudo junto e misturado. Foi algo tão simbólico e tão forte que virou conceito: o afro-barroco, presente até hoje no trabalho solo de Mateus Aleluia.

Recentemente, Mateus passou por Brasília para lançar “Nós, Os Tincoãs” e fazer o pré-lançamento de “Fogueira doce”, segundo disco solo do músico. Nas letras, as vivências e as saudades de Luanda (Angola), cidade onde morou por 19 anos.

Mas essa é uma longa história.

Voltando ao livro: a publicação tem textos do próprio Mateus, do mestre Martinho da Vila, de Yeda Pessoa de Castro e de Capinam, entre outras figuras importantes que nos contam porquê o trio baiano é uma das principais referências da música brasileira.

Além de fotos, críticas musicais, matérias de arquivo e biografia dos integrantes, o livro tem encartado três discos remasterizados que, até então, só existiam em LP: “Os Tincoãs” (1973), “O africanto dos Tincoãs” (1975) e “Os Tincoãs” (1977). Ouro puro.

Um dos textos mais importantes é de Adelzon Alves, radialista que descobriu o grupo e que acabou produzindo vários de seus LPs. Adelzon, melhor do que ninguém, pode falar tão bem da onda tincoânica que invadiu o Brasil na década de 1970.

“Nós, Os Tincoãs” é um livro de muitas histórias, e eu gostaria de recontar uma delas para vocês. No texto “Os Tincoãs e a música ancestral”, Mateus Aleluia lembra da vez que foi apresentado a Francis Ifá Caiodê, príncipe nigeriano e antropólogo:

Francis Ifá foi para dentro da música dos Tincoãs. Queria explicar. Dissemos pra ele que a música dos Tincoãs é a música que era cantada pelos nossos antepassados, os mais velhos, e a gente nunca procurou saber muito deles não. Esse negócio de explicar muito é pra quem não é, porque quem é, é. Já sabe, sente, já está. Mas ele não se conformou, o que foi bom. Ele falou mais como o homem que passou por Harvard: “A antropologia de vocês dá ao Homem organizado, sei lá, tantos mil anos, vamos supor, 50 mil anos, na nossa antropologia doméstica nigeriana, o homem nigeriano já vem, organizado aqui, há muito mais tempo, a mais de não sei quantos mil anos, e essa música dos Tincoãs percebe tudo isso. Essa música que vocês cataram foi cantada pela entidade quando pela primeira vez ela pisou aqui na Terra antes de existir o Homem.”

A partir das pesquisas de Caiodê, muita gente passou a se interessar pelo trabalho dos Tincoãs. Mateus, sempre alerta, percebeu que foi a forma de muita gente respaldar o trabalho daqueles jovens do interior da Bahia. Mas “só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”² e foi o tempo que confirmou o que a gente já sabia: não era preciso ninguém com título para afirmar que aquele trio era grande. “Quem é, é”.

Outro trecho que gosto muito é quando lembram da ida de Mateus, Dadinho e Badu para Luanda em 1983. Os Tincoãs ficariam em Angola por dois meses, participando e projetos da Secretaria de Estado de Cultura daquele país.

Badu não queria ficar longe do Brasil por tanto tempo e saiu do grupo. Dadinho e Mateus ficaram os dois meses e perceberam que Luanda – o Shangri-la dourado que Mateus canta em “Fogueira doce” – era a nova casa deles.

Em 2000, Dadinho pariu para o Orun³ após um derrame cerebral. Em 2002, Mateus Aleluia voltou para o Brasil. Mas aí, são as histórias de Mateus que, quem sabe, tornam-se livro também.

¹ Importante frisar que também estão vivos dois ex-integrantes de Os Tincoãs: Erivaldo Brito e Badu.

² Frase de Raduan Nassar no livro “Lavoura Arcaica”.

³ Céu, na tradição Iorubá.

 


Maíra de Deus Brito

14 de junho de 2018