Com Pimenta

A Revista Seca conferiu o espetáculo “Madame Satã”, em cartaz na Caixa Cultural Brasília até o dia 17 de junho

Fotos: Ândrea Possamai/Divulgação

País forjado no patriarcado, no machismo, no racismo e na homofobia, o Brasil teve a primeira travesti famosa no início no século 20. Naquela época, não deveria existir uma viva alma que não soubesse quem era Madame Satã, figura importante da Lapa carioca.

Pobre, preto e homossexual (em entrevista ao jornal O Pasquim, Madame se refere todo tempo com adjetivos e substantivos no masculino). Por toda resistência que representou – e que representa, Madame Satã é a inspiração para o espetáculo homônimo do coletivo mineiro Grupo dos Dez. Em cartaz na Caixa Cultural Brasília até 17 de junho, a peça impressiona e incomoda por trazer um cenário de quase 100 anos atrás que ainda se apresenta contemporâneo.

O espectador se surpreende logo de cara, com aquilo que vou chamar de “prelúdio” do musical. Ali, vemos uma travesti morta e sentimos um nó na garganta, que será recorrente ao longo de todo espetáculo.

Nós somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo.
Alcançamos o terceiro lugar no ranking de países que mais encarcera.
E, até hoje, as cotas raciais são criticadas (e fraudadas) pela população branca brasileira.

Essas são algumas dores que vêm à tona na peça cuja direção geral é de João das Neves e Rodrigo Jerônimo. Bia Nogueira comanda a direção musical – outro ponto alto da montagem. A trilha sonora é original e formada por 17 músicas, que passam por boleros, blues, sambas e batuques de terreiros – sempre saudando nossa ancestralidade.

Por fim, destaco o certeiro figurino de Cicero Miranda e Débora Alves.

“Madame Satã” tem sessões de quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h. Ingressos e classificação indicativa aqui.

 


Maíra de Deus Brito

12 de junho de 2018