Com Pimenta

No Dia Internacional da Mulher, a coluna Com Pimenta e a Revista Seca mostram as impressões da jornalista e gestora cultural Jaqueline Fernandes sobre a questão de gênero nas políticas culturais do Distrito Federal

Na foto, Carolina Maria de Jesus, escritora negra e periférica que dará nome a uma das bibliotecas do DF. Créditos: Reprodução/Internet

Jaqueline Fernandes é jornalista, designer de moda, ativista do movimento de mulheres negras e gestora cultural. Atualmente, ela também trabalha como subsecretária de Cidadania e Diversidade Cultural na Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Lá, Jaqueline desenvolve políticas, programas e projetos voltados para a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais.

8 de março, Dia Internacional da Mulher. O que temos a comemorar? Quais reflexões devem ser feitas? Em uma data tão importante, costumeiramente resumida a flores e promoções em shoppings, a coluna e a Revista Seca trazem as impressões de Jaqueline Fernandes sobre a questão de gênero nas políticas culturais do Distrito Federal:

A população do Distrito Federal é composta por 52% de mulheres e aqui, acompanhando a realidade nacional, ainda temos muito a superar quando o assunto é equidade de gênero e as inúmeras desvantagens a que as mulheres estão submetidas. Embora hoje já possamos contar com um bom acúmulo de conhecimento nos estudos de gênero e uma produção expressiva de pesquisas e dados desagregados por sexo, é preciso admitir e buscar solucionar a invisibilidade desses diagnósticos, de modo a incluí-los na agenda do Estado. Além disso, é preciso desagregar outros dados, buscando superar vulnerabilidades históricas e lidar de maneira articulada com as interseccionalidades presentes nas interações entre gênero, raça, classe social, idade e orientação sexual, por exemplo. Vamos começar assumindo que, com um olhar geral, não é possível discutir estruturas de poder.

Trazendo o assunto para o campo das artes e da cultura, área que, de forma generalizada, sofre com a ausência de indicadores, a lacuna é ainda mais acentuada. Sob o risco de chover no molhado ao observar que a voz do patriarcado também ecoa na cadeia produtiva da cultura, é preciso atacar o mito amplamente difundido de que as artes são territórios livres de machismo ou minimamente desconstruídos por uma espécie de essência vanguardista natural do meio artístico. Apesar do reconhecido potencial de transformação social presente nos fazeres e saberes artísticos e culturais, a estrutura patriarcal nesses espaços também reproduz desigualdades e oculta múltiplas violências subjetivas. Ainda existe uma tendência histórica a generalizar as dificuldades e as demandas da cultura, restando pouco ou nenhum espaço para o debate de gênero − o que tem sido bravamente questionado pelos movimentos de mulheres. Se garantir direitos culturais é ainda um grande desafio, parece impossível defender um projeto de sociedade que ignore a importância de pautar ações afirmativas de gênero na política cultural, bem como as já mencionadas interseccionalidades.

É urgente ter respostas consistentes para perguntas como: De que maneira as desigualdades de gênero e raça presentes no mercado de trabalho se refletem na cadeia produtiva da cultura? Que medidas e estratégias o Estado precisa adotar no percurso de superação dessas desigualdades? Sendo mais que hipótese, em um contexto geral, a desvalorização do trabalho e das contribuições das mulheres para a sociedade está ancorada na distinção entre os papéis de gênero, historicamente construída dentro do patriarcado. Na cadeia produtiva da cultura essa realidade se revela da produção cultural aos fazeres artísticos. As áreas com maior predominância de mulheres são as mais precarizadas, seguindo a lógica dos indicadores de gênero no mercado de trabalho. Jornada tripla, menores salários, informalidade, violências, assédios e invisibilidade. Não existe imunidade para as mulheres da cultura. E a crueldade das estratégias de perpetuação dessas condições impostas assume complexidade e práticas de silenciamento tão diferenciados quanto difíceis de identificar em uma avaliação superficial.

Como minoria nas curadorias de museus e festivais, nos espaços políticos de notoriedade e à frente da captação de recursos, as mulheres acabam por ser minoria também nos palcos e galerias. E cada vez que a mulher conquista um desses espaços, eles são desvalorizados e precarizados. Vejamos o exemplo da produção cultural. Qual era o status e perfil dessa profissão há vinte anos, antes da presença massiva de mulheres nele? Os produtores eram figuras poderosas, endinheiradas, inacessíveis, chefes temidos, donos das carreiras artísticas, articuladores de grandes recursos e produções. Hoje somos maioria e o status da produção cultural diminuiu consideravelmente. O perfil esperado de nós é jornada incansável, disponibilidade integral, desenvolvimento de projetos sociais, baixa remuneração, voluntarismo. As produtoras culturais passam a ser encaradas quase como cuidadoras. E onde estão os recursos para a produção de mulheres no audiovisual, ou as artistas visuais nos grandes circuitos de exposições? Onde estão as mulheres da técnica? Qual o nível de reconhecimento e reverência tem de nós a nossas mestras das culturas populares? Como as mulheres do hip hop têm articulado estratégias de sobrevivência e viabilização da sua produção artística? Como dar conta das disparidades de acesso entre as mulheres cis/ heteronormativas/brancas e as mulheres trans, lésbicas, indígenas e negras às políticas e direitos culturais?

Nesse contexto de reflexões, em 2016, surgiu o Semina – Seminário Equidade de Gênero nas Profissões da Cultura. A primeira edição dedicou atenção especial às profissões técnicas. Além de debates, foram oferecidos cursos de sonorização, iluminação e videomapping. A ideia central era ter mulheres formando mulheres. Ao anunciar a abertura de inscrição para os cursos, a demanda superou em dez vezes a oferta. Em um primeiro momento, foi possível identificar dois indicadores aparentemente conflitantes: a ausência ou a sub-representação das mulheres nas profissões técnicas da cultura e um super interesse e demanda por formação nessas áreas. No entanto, longe de serem conflitantes, as duas situações revelam que a baixa representatividade das mulheres na técnica não está relacionada à falta de vocação, aptidão ou interesse (como muitos ainda querem acreditar), e, sim, ao machismo que ainda determina os espaços tidos como femininos ou masculinos e garante a tranquilidade de práticas misóginas. Dessa forma, o Semina se consolidou como um espaço de formação técnica e política e em 2018 apresenta uma política distrital de equidade de gênero no âmbito da cultura.

Para quem ainda acredita que a perspectiva de gênero nas políticas públicas seja papel apenas de secretarias específicas, é preciso se dar conta da importância de tratar as transversalidades presentes nas relações de gênero. As artes e a cultura, embora tenham muito a avançar, seguem sendo espaços estratégicos de transformação e disputa de narrativas e imaginários. Para que lugar de mulher seja de fato onde ela quiser, é bom admitir que temos muitos problemas a serem resolvidos e que o privilégio tem identidade de gênero, raça, classe e endereço. E o Estado precisa ter olhos para ver e vontade de transformar.


Maíra de Deus Brito

8 de Março de 2018