A vida e obra de Mateus Gandara

A Revista Seca entrevistou Renata Azambuja, curadora da mostra “Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara”. Na conversa, ela conta detalhes da exposição do quadrinista, morto em 2015

Até domingo, a exposição “Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara” ocupa uma das galerias  do Museu Nacional Honestino Guimarães. Em cartaz desde 3 de novembro, a mostra conta com 110 obras, entre quadrinhos, ilustrações e cadernos pessoais de Mateus Gandara.

Natural de Goiânia, Gandara viveu em Brasília desde os 10 anos de idade. Em janeiro de 2015, aos 28 anos, morreu vítima de linfoma, deixando as publicações “D.E.E.P. (Diário Erótico Estético Pornográfico)” [2017], “Mondo colosso” [2014], “Flagelos noturnos” [2013] e os zines “Bizonho” [2013] e “Canis liber” [2013].

Em entrevista à Revista Seca, a curadora Renata Azambuja conta que o projeto nasceu do desejo da mãe do artista, Marlene Gandara, e da irmã, Jessica Gandara, de celebrar a vida de Mateus e apresentar a produção dele em uma exposição.

Há um ano, Eduardo Belga, amigo de Mateus, convidou Renata para fazer a curadoria da série D.E.E.P. Em 2017, o convite foi ampliado para que ela fizesse a curadoria da mostra, e ela aceitou novamente. Além de curadora, Renata é arte historiadora e foi professora do quadrinista no curso de artes plásticas da Universidade de Brasília.

“Tínhamos grande carinho um pelo outro”, conta Renata, que descreve Mateus como um artista que “desenhava o tempo todo, em todos os suportes, com materiais diferentes, em várias ocasiões”.  Tanta criatividade resultou em um amplo conjunto de trabalhos e em um difícil processo de escolha das obras para a exposição.

“Propus uma curadoria baseada na ideia de que estávamos apresentando a produção de um jovem artista, ainda pouco conhecido – apesar de ser muito conhecido no meio dos desenhistas – e no fato da família querer encerrar um ciclo. Os trabalhos, todos super bem organizados e guardados pela família, tentam obedecer a uma ordem cronológica, mesmo que não tenhamos conseguido datar muitos deles. Mas há, também, núcleos temáticos e um desenho expositivo que têm a ver com episódios da vida do Mateus”, explica.

Renata frisa que todo processo de escolha das obras foi emocionante:

“Do começo ao fim. Perceber como o desenho foi ficando cada vez mais denso e intenso; conhecer a escrita dele: tão boa e tão pessoal; perceber como ele não se entregou, mesmo já muito doente; ver a sua versatilidade com os temas, com os materiais e perceber como ele era generoso com a vida e com os amigos”.

Vida, morte, ficção, biografia. São inúmeras as inspirações de Mateus para seus trabalhos. Mas em tempos de ascensão do conservadorismo, sobretudo, em relação às artes, o projeto D.E.E.P. (Diário Erótico Estético Pornográfico) chama atenção na mostra.

D.E.E.P. une ilustrações e anotações do quadrinista em que ele aborda o erotismo e o afeto a partir da observação de momentos íntimos e relações sexuais entre casais.

Quando perguntada como foi incluir o projeto na mostra, Renata afirma: “Acredito em liberdade”.

“O papel da arte é pôr a vida pra jogo; venha como vier. Nem pensei muito nisso, mas fiquei apreensiva com algum vandalismo, mas estamos todos conscientes de que o sexo, o corpo, as relações humanas são naturais para todos, inclusive para os conservadores, mesmo que eles acreditem, hipocritamente, que não. Essa série é uma das coisas mais lindas que eu já vi”.

De acordo com Jessica Gandara, produtora executiva da mostra e irmã do quadrinista, “Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara” será registrada em um catálogo e adaptada para chegar em outras cidades do Brasil. Entre os projetos, também está prevista uma publicação com a obra completa do Mateus Gandara, sob coordenação do artista plástico Eduardo Belga.

Exposição “Traço Suspenso – Desenhos de Mateus Gandara

Até 3 de dezembro, na Galeria 2 do Museu Nacional Honestino Guimarães (Eixo Monumental). De terça-feira a domingo, das 9h às 18h30. Entrada franca. Não recomendado para menores de 16 anos.

 


Maíra de Deus Brito

27 de novembro de 2017