Os 50 anos do Festival

A cineasta e jornalista Camilla Shinoda foi ao 50º Festival de Cinema de Brasília e, de maneira doce e incisiva, conta para a gente sobre como foram as coisas por lá

Foto: Reprodução/Internet

Não sei exatamente o porquê, mas é fato que números redondos trazem uma dose extra de emoção para qualquer situação. Deve ser porque com números redondos fica mais fácil de fazer conta e, então, você percebe que já tem mais de quinze anos que frequenta o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ou apenas Festival de Brasília, para os íntimos como eu. Foi com esse espírito já amolecido que adentrei o Cine Brasília no último dia 15, para acompanhar a 50ª edição do evento. Confesso que não tive tempo de me antecipar à programação que estava por vir, então, o meu primeiro susto veio quando peguei o bom e velho caderninho de programação (esse negócio de acompanhar pelo celular não é comigo). O Festival cresceu. E muito. No número de dias, no número de filmes, de mostras, de atividades formativas e de atividades de mercado, de debates. Como eu também cresci e não mais disponho de todo aquele tempo livre, decidi que focaria minha atenção na Mostra Competitiva.

Como não fazia há alguns anos, acompanhei a Mostra Competitiva diariamente. Tinha me esquecido de como é interessante ver a reação do público a cada dia, as torcidas que se formam diante dos filmes preferidos, os burburinhos pós-sessão. Com essa visão geral da programação, pude tirar uma bela conclusão: aos 50 anos, o Festival de Brasília voltou a assumir o seu caráter político, que vinha capengando há alguns anos. A curadoria fez uma opção clara e certeira, afinal essa sempre foi a marca registrada do festival mais antigo e importante do país. Deixemos claro aqui que esse caráter político não se restringe à ideia dura de temas relacionados apenas à Esplanada dos Ministérios e às discussões que se passam por lá, mas também às micropolíticas que reverberam no cotidiano, às questões de representatividade, à resistência das vidas periféricas, às questões do afeto e da sexualidade, e outras tantas que são tão subestimadas como aspectos estruturantes da nossa sociedade. Não teve um único dia em que não vi mulheres, negros e negras, homossexuais, perfis e subjetividades tão ausentes das produções mais comerciais (veja pesquisa http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/) ocupando o palco e a grande tela do Cine Brasília. Por mais que o meu apreço pelos filmes tenha variado, não é possível deixar de parabenizar a curadoria por sua opção, principalmente no atual momento do país, em que tantos ataques tentam deslegitimar e retirar os direitos que os setores invisibilizados da população conquistaram.

Não passarei por todos os filmes da competitiva, mas destaco aqui os meus preferidos. O curta “Nada” (Melhor Trilha Sonora), de Gabriel Martins, e o longa “Arábia” (o grande vencedor do Festival: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora), de Affonso Uchoa e João Dumans, definitivamente conquistaram o meu coração. Os dois filmes se propõem a explorar o cotidiano de pessoas comuns: o curta nos apresenta o impasse de Bia, uma jovem negra que não quer fazer nada no vestibular, após finalizar o ensino médio; enquanto que o longa nos apresenta a vida de Cristiano, um jovem de periferia que decide viajar pelo interior do país e passa por empregos precários para sobreviver. São filmes sutis, que trazem fortes críticas ao modo de vida que levamos atualmente, à maneira irrefletida como reagimos a certas pressões sociais. O longa “Música para Quando as Luzes se Apagam” (Prêmio Especial do Júri), de Ismael Caneppele, e o curta “A Passagem do Cometa”, de Juliana Rojas, se sobressaem por trazerem a força política de temas relativos à intimidade. “O Nó do Diabo” (Melhor Ator Coadjuvante), de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi é um filme de terror que retrata de forma alegórica a opressão e a marginalização do povo negro como um processo histórico em nosso país. A montagem confusa dificulta, mas não lhe tira muitos dos méritos. O curta “Chico”, dos Irmãos Carvalho, também deve ser assistido. A proposta de usar o realismo fantástico na favela é boa e deve ser amadurecida. Sobre o esperado “Era uma vez Brasília”, de Adirley Queirós (Melhor direção, Fotografia e Som), digo que ainda está sendo digerido pela minha pessoa. Mas já é possível adiantar que o visual distópico de uma Brasília futurista amadureceu desde “Branco sai, Preto Fica”. Em um filme lento e de pouca ação, Adirley mostra que já pode fazer o que quiser. Eu vou aqui correr atrás para entender. São merecidíssimos os prêmios de Melhor Fotografia e Som para o longa brasiliense.

Diante da força da diversidade, aquilo que ainda se prende ao antigo logo se tornou incômodo. Basta ver a reação ao longa “Vazante” (Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Direção de Arte), da diretora Daniela Thomas, que recebeu duras críticas durante o debate. Presa a uma visão colonialista da escravidão no Brasil, a diretora nos apresenta personagens negros apassivados e desempoderados, mesmo viés que a história escrita por brancos tenta impor desde sempre e que já vem sendo descontruída por movimentos de militância negra. O primor técnico da obra não diminuiu o desconforto e o recado ficou dado: não é mais possível realizar obras sem refletir sobre a qualidade da representação do outro que é construída. “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, foi outro longa que trouxe discussões intensas ao debate. Na tentativa de abrir diálogo com aquele que considera seu opositor, o cineasta de esquerda opta por acompanhar a rotina dos membros da Tropa de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. Pedroso, no entanto, se perde diante do seu desejo de humanizar o inimigo, esquecendo de tensioná-lo e de questionar certos posicionamentos quando necessário. Na vontade de representar a sua própria subjetividade, já que o diretor se expõe durante todo o documentário, ele também se esqueceu de se aprofundar no tema e sequer citou a juventude pobre e negra, que é a parcela da população que mais sofre violência por parte da polícia militar. O grande exemplo de injustiça em que o longa se baliza é a foto de um militante branco que é atingido por gás lacrimogêneo enquanto pratica yoga em uma manifestação.

Além dos debates oficiais, era possível encontrar a maior parte dos realizadores em conversas calorosas regadas à uma boa cervejinha no quiosque no estacionamento em frente ao Cine Brasília. Sinal de que aquela cerca em volta do cinema, que não é exclusividade desta edição, não combina muito com o intuito principal de um festival: que a é capacidade de promover encontros e diálogos.

Mostra Brasília

A Mostra Brasília não recebeu a atenção que merecia, mas os dois dias em que estive lá me deixaram muito feliz. Primeiro porque a sala enorme do Cine Brasília estava absolutamente lotada, em pleno começo da semana. Não tem nada melhor do que saber que a cidade está curiosa pelo que seus realizadores estão produzindo. Destaco aqui os curtas “Tekoha – Som da Terra” (Melhor Edição de Som e Melhor Curta-Metragem), de Rodrigo Arareju e Valdelice Veron, e “O Menino Leão e a Menina Coruja” (Júri Popular e Direção de Arte), de Renan Montenegro. Produções bonitas, com histórias muito bem contadas e uma grande relevância política. Festivais paralelos

A mais do que necessária parceria entre O Festival de Brasília e a UnB enfim aconteceu. Resultado disso foi a primeira edição do FestUniBrasília, a mostra competitiva de filmes universitários, que trouxe uma bela curadoria para as manhãs do Cine Brasília. Além disso, a Faculdade de Comunicação promoveu debates interessantíssimos, levando filmes e realizadores do Festival de Brasília para um contato mais intenso com estudantes e pesquisadores.

O Festival de Curtas das Escolas Públicas, que já está em sua 3ª edição, é a cereja do bolo. Esse ano não pude acompanhar, pois estava justamente dando oficinas de audiovisual em escolas públicas da cidade, mas pelo que já pude conferir em suas outras duas edições é o momento mais animado do Cine Brasília.

Descentralização do Festival

Não é a primeira vez que o Festival descentraliza suas atividades, mas esse é o tipo de iniciativa que deve permanecer e ser aprimorada. Tive o prazer de fazer a oficina “Infortúnios e Virtudes do Roteiro – Possíveis Processos Criativos”, com o roteirista pernambucano Hilton Lacerda, no Sesc Ceilândia. Importantíssimo que as atividades formativas sejam espalhadas, ainda mais agora, momento em que outros autores começam a protagonizar a nossa produção cinematográfica. Ambiente de Mercado

Pela primeira vez, o Festival de Brasília contou com um ambiente de mercado para que os projetos nacionais possam pensar uma carreira dentro e fora do país. Quando lembramos que a distribuição é um dos grandes problemas do setor, percebemos o quão importante é dar continuidade a essa iniciativa. Que venham mais 50!

Confira a lista completa da premiação:

Prêmios oficiais

Troféu Candango – Longa-metragem:

Melhor filme: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans

Melhor direção: Adirley Queirós por Era uma vez Brasília

Melhor ator: Aristides de Sousa por Arábia

Melhor atriz: Valdinéia Soriano por Café com canela

Melhor ator coadjuvante: Alexandre Sena por Nó do diabo

Melhor atriz coadjuvante: Jai Baptista por Vazante

Melhor roteiro: Ary Rosa por Café com canela

Melhor fotografia: Joana Pimenta por Era uma vez Brasília

Melhor direção de arte: Valdy Lopes JN por Vazante

Melhor trilha sonora: Francisco Cesar e Cristopher Mack por Arábia

Melhor som: Guile Martins, Daniel Turini e Fernando Henna por Era uma vez Brasília

Melhor montagem: Luiz Pretti e Rodrigo Lima por Arábia

Prêmio especial do Júri: Melhor ator social para Emelyn Fischer, por Música para quando as luzes se apagam

Júri Popular – longa-metragem: Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio

Prêmio Petrobras de Cinema para o melhor longa-metragem pelo Júri Popular: Café com canela, dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio

 

Troféu Candango – Curta-metragem:

Melhor filme: Tentei, dirigido por Laís Melo

Melhor direção: Irmãos Carvalho por Chico

Melhor ator: Marcus Curvelo por Mamata

Melhor atriz: Patricia Saravy por Tentei

Melhor roteiro: Ananda Radhika por Peripatético

Melhor fotografia: Renata Corrêa por Tentei

Melhor direção de arte: Pedro Franz e Rafael Coutinho por Torre

Melhor trilha sonora: Marlon Trindade por Nada

Melhor som: Gustavo Andrade por Chico

Melhor montagem: Amanda Devulsky e Marcus Curvelo por Mamata

Prêmio%u200B %u200Bespecial: Peripatético, dirigido por Jéssica Queiroz

Júri Popular – Curta-metragem: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina

 

Outros Prêmios

Prêmio Canal Brasil: Chico, dirigido por Irmãos Carvalho

Prêmio Abraccine de melhor filme de longa-metragem: Arábia, dirigido por Affonso Uchoa e João Dumans

Prêmio Abraccine de melhor filme de curta-metragem: Mamata, dirigido por Marcus Curvelo

Prêmio Saruê: Afronte, direção de Marcus Azevedo e Bruno Victor

Prêmio Marco Antônio Guimarães: Construindo pontes, dirigido por Heloísa Passos

Prêmio ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo: Marco Curi, Manfredo Caldas e Gerlado Moraes

Prêmio CiaRio/Naymar Para o melhor curta pelo Júri Popular: Carneiro de ouro, dirigido por Dácia Ibiapina

 

Mostra Brasília – 22º Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal

Prêmios do Júri Oficial

Melhor longa-metragem (R$ 100 mil): O fantástico Patinho Feio, dirigido por Denilson Félix

Melhor curta-metragem (R$ 30 mil): UrSortudo, dirigido por Januário Jr. e Tekoha – Som da Terra, dirigido por Rodrigo Arajeju e Valdelice Veron

Melhor direção (R$ 12 mil): Dácia Ibiapina, por Carneiro de ouro

Melhor ator (R$ 6 mil): Elder de Paula, por UrSortudo

Melhor atriz (R$ 6 mil): Rafaela Machado, por Menina de barro

Melhor roteiro (R$ 6 mil): Januário Jr., por UrSortudo

Melhor fotografia (R$ 6 mil): Gustavo Serrate, por A margem do universo

Melhor montagem (R$ 6 mil): Lucas Araque, por Afronte

Melhor direção de arte (R$ 6 mil): Bianca Novais, Flora Egécia e Pato Sardá, por O Menino Leão e a Menina Coruja

Melhor edição de som (R$ 6 mil): Maurício Fonteles, por Tekoha – Som da Terra

Melhor trilha sonora (R$ 6 mil): Ramiro Galas, por O vídeo de 6 faces

 

Prêmios do Júri Popular

Melhor longa-metragem (R$ 40 mil): Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

Melhor curta-metragem (R$ 10 mil): O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro

Prêmio Petrobras de Cinema – Para o melhor longa-metragem pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

Prêmio Plug.in Para o melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

Prêmio CiaRIO de melhor longa-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: Menina de barro, dirigido por Vinícius Machado

Prêmio CiaRIO de melhor curta-metragem escolhido pelo Júri Popular da Mostra Brasília: O Menino Leão e a Menina Coruja, dirigido por Renan Montenegro

 

FestUniBrasíla – 1º Festival Universitário de Cinema de Brasília

Melhor filme: O arco do medo, dirigido por Juan Rodrigues (Universidade Federal do Recôncavo Baiano)

Melhor direção: Fervendo, dirigido por Camila Gregório (Universidade Federal do Recôncavo Baiano)

Júri Popular: O homem que não cabia em Brasília, dirigido por Gustavo Menezes (UnB)

Menção Honrosa – Método de construção criativa: Afronte, dirigido por Bruno Victor e Marcus Azevedo (UnB)

Menção honrosa – Fotografia: Gabriela Akashi, por Serenata (USP)

Menção Honrosa – Filme de animação: Mira, dirigido por Janaína da Veiga (Unespar)


Camilla Shinoda

29 de setembro de 2017