Fela Kuti cruza o Atlântico Negro

Dirigido por Joel Zito Araújo, o documentário “Meu amigo Fela”, sobre o artista e ativista nigeriano, tem sessões sexta (12/4) e sábado (13/4) no Festival É Tudo Verdade 2019

Foto: Cena do filme “Meu amigo Fela”/Reprodução

Ainda era verão e o Atlântico Negro separava eu e Joel Zito Araújo quando fizemos o primeiro contato.

Se não me falha a memória, entrevistei Joel Zito pela primeira vez ainda nos tempos de Correio Braziliense. Não me recordo a pauta, mas não me esqueço da emoção ao formular as perguntas que seriam feitas a um dos meus cineastas favoritos.

É dele a ficção “As filhas do vento” (2004), que arrebatou oito Kikitos no Festival de Gramado (RS); e o documentário “A negação do Brasil” (2000), que vi inúmeras vezes e é obra essencial para todas as pessoas que pensam e escrevem sobre mídia no Brasil.

Voltando a 2019: eu estava em uma ilha no sul da Bahia quando Tao Burity, cineasta e meu amigo há mais de 15 anos, sugeriu que eu entrevistasse Joel Zito. Mesmo há léguas de distância, mais precisamente na ilha africana de Cabo Verde, Joel topou a entrevista para a Revista Seca.

Desta vez, nossa conversa se concentraria na obra mais recente, o documentário-biografia sobre Fela Kuti (1938-1997). “Meu amigo Fela” é conduzido pelos encontros e diálogos de Carlos Moore com amigos e familiares do artista, conhecido por ser o pai do afrobeat.

Moore, intelectual e militante cubano, foi grande amigo de Fela e, não por acaso, seu biógrafo oficial. E foi justamente a partir do encontro de Moore com Joel Zito que nasceu a ideia de fazer “Meu amigo Fela”, registrando vida e obra do ativista pan-africanista – figura fundamental na música e na política nigeriana, que chorou após ler a biografia de Malcom X e que deixou recados importantes, entre eles: “a música não pode ser feita pelo prazer, mas que deve ser feita para revolução”.

Ainda sem data exata de estreia no circuito nacional, o documentário tem sessões nesta sexta (12/4), no Centro Cultural São Paulo; e neste sábado (13/4), na Estação NET Botafogo (RJ), pelo Festival É Tudo Verdade 2019.

Se seguir o script da última sessão no Instituto Moreira Salles (SP), o cineasta mineiro verá uma sala lotada e muitos minutos de aplausos após a exibição do filme.

Enquanto o aguardado “Meu amigo Fela” não chega ao Cerrado, leia a entrevista com Joel Zito Araújo sobre a obra mais recente:

Revista Seca: Carlos Moore é a figura fundamental para a criação de seu filme sobre Fela Kuti. Mas como você e Carlos se conheceram e se tornaram amigos?

Joel Zito Araújo: Carlos me procurou logo depois de ver meu filme “A negação do Brasil”. Ele ficou encantado. Depois, ele viu “Filhas do Vento”. Aí, resolveu me procurar e se apresentar. Eu já tinha notícias dele, já sabia quem ele era. Fiquei honrado com a iniciativa dele em me procurar. A partir daí, tornamo-nos amigos naturalmente. Anos depois, por meio das nossas conversas, surgiu a ideia de fazer o documentário. Ele me disse que eu seria o cara para fazer o documentário mais próximo da verdade do Fela Keti. No início, não existia nenhuma ideia ou compromisso de incorporar Carlos como condutor do filme. Também não havia a ideia de falar do Fela a partir dos amigos íntimos dele.

Qual era sua relação com o artista nigeriano e sua obra antes do filme? E depois?

Era pequena. Eu já tinha ouvido Fela e gostava muito, mas não tinha ideia de sua história e de como sua música se relacionava com isso. Já conhecia o afrobeat por meio de um documentário feito por brasileiros (Belisário França e Roberto Berliner) que estiveram na Nigéria nos anos 1980. Foi com a biografia de Carlos Moore que entendi a dimensão e a importância de Fela.

Familiares e amigos de Fela Kuti viram o filme? Se sim, qual foi a reação deles?

Não. Eles provavelmente só vão ver em outubro quando o filme está previsto para estrear na Nigéria.

Para não dar spoiler do filme: existe alguma história de bastidores da gravação que você pode nos contar? Algum fato curioso, emocionante, engraçado…

Existe uma história meio triste: a minha dificuldade em obter o visto para filmar na Nigéria. Eu perdi muito dinheiro com isso. Depois de pagar todas as taxas, enviar meu passaporte e toda equipe e de comprar as passagens de seis pessoas (que perdi), continuando as filmagens que ocorreram em Paris (França), a Embaixada Nigeriana em Brasília me negou os vistos dois dias antes do embarque, depois de reter nosso passaporte por dois meses.

Eu só pude filmar seis meses depois por intervenção direta de Wole Soyinka, Nobel africano de literatura, a meu favor. Numa ação articulada pela querida Elisa Larkin, amiga de Soyinka e esposa do falecido e também queridíssimo Abdias do Nascimento. E, para completar o quadro: não permitiram minha equipe de ir comigo e fui preso por um policial corrupto em Lagos (Nigéria). Enfim, não foi muito fácil.

O cinema independente atual tem uma série de vozes da periferia produzindo filmes. Você acompanha essa cena? Pode destacar alguns nomes para que o público fique de olho nesses cineastas?

Sim, acompanho de perto, especialmente por ter sido curador do Festival criado pelo Zózimo Bulbul por cinco anos. São muitos nomes, em várias partes do Brasil. Também vou evitar de destacar um ou outra, pois tem muitos talentos emergindo por aí e não quero provocar ciúmes.

Como você avalia a televisão do Brasil hoje, quase 20 anos depois do lançamento de “A negação do Brasil”?

A televisão brasileira acompanha a sociedade brasileira e tem muita dificuldade de mudar, de romper com o racismo estrutural que impede o desenvolvimento do país como um todo. Mas houve mudanças positivas, embora pequenas diante de uma realidade em que nós, os afrodescendentes somos 54% do total da população e, portanto, somos a maioria deste país. Continuamos sendo minoria e novidade na TV. Mas acho que a Rede Globo é quem efetivamente tem feito algum esforço de mudança. As outras redes parecem querer permanecer no atraso, e viver em um saudosismo do Brasil neo-colônia e neo-escravocrata.

“Meu amigo fela” estreou na Holanda; ganhou o Prêmio Paul Robeson de melhor filme da diáspora no maior festival de cinema africano do mundo, o FESPACO (Burkina Faso); e está sendo exibido no Festival É Tudo Verdade, aqui no Brasil. Imagino que deve entrar em circuito no país daqui uns meses… É um filme que está no ápice, mas ainda assim quero saber: já existe um novo projeto cinematográfico em mente? Você pode nos adiantar?

Sim, “Meu Amigo Fela” fez sua estreia internacional no prestigioso Festival de Cinema de Roterdã e já foi convidado para muitos outros festivais internacionais nos próximos meses (no momento em que Joel me respondia, ele estava no aeroporto de Casablanca, Marrocos, a caminho de Burkina Faso para participar da competição principal do FESPACO, o festival mais famoso da África). Em junho, o filme entra em cartaz nas salas de cinema de várias capitais brasileiras, sendo distribuído pela O2Play.


Maíra de Deus Brito

12 de abril de 2019