Saturno e o Tempo de Sagitário a Capricórnio

Saturno passou pelo signo de Sagitário e até o final de 2020, segue em Capricórnio

Foto: Jana Koosah/Reprodução

Saturno passou pelo signo de Sagitário do dia 23 de dezembro de 2014 até 20 de dezembro de 2017. Desde então, e até o final de 2020, segue em Capricórnio. O que isso quer dizer? Muito. Para a Astrologia antiga ou tradicional, a conexão entre tempo e natureza é algo inerente aos planetas, que interferem nos nossos ciclos e ritmos em âmbito coletivo e pessoal, sendo o coletivo algo para muito além dos seres humanos. Saturno, ou Kronos, é o planeta mais distante dos olhos a partir da Terra, portanto o mais lento e que está no limite do céu. Vale ressaltar que Urano, Netuno, Plutão e demais planetas recém-descobertos não entram na sistematização hermética feita no período helenístico, que continua fazendo sentido simbólica e tecnicamente – a Astrologia de então utiliza somente os sete planetas visíveis aos olhos dos antigos. Em seu livro Astrologia Hermética, Eduardo Gramaglia explica que o termo grego Planetes, do verbo planao, significa errar, no sentido de errante. Ou seja, os dois luminares e os 5 planetas vistos pelos antigos vagueavam, se moviam, em comparação com as outras estrelas que se mantinham relativamente fixas.

É o grande maléfico, por sua natureza fria e seca.  Masculino e diurno. Seu dia é sábado, sua ação é implacável: denso como chumbo – um metal a ele associado – e ceifa como foice. Na natureza corresponde a montanhas, lugares áridos e também subterrâneos, como o fundo do mar e catacumbas. Associado também a animais que vivem em buracos, pássaros noturnos, dentre outros. No corpo, está relacionado à bílis negra, pele, ossos, ouvido direito e audição, a altura, os joelhos e a velhice. Em cartas natais representa avôs, pais e figuras de autoridade masculina. Do humor, representa a melancolia. Tendo posto alguns dados sobre algumas correspondências possíveis para o deus do Tempo, torna-se mais fácil compreender alguns temores e estigmas a ele relacionados.

Saturno nos fala sobre as coisas difíceis de serem atravessadas, porém inevitáveis. Se é o último dos planetas, nos fala de limite. É o fim da linha, o fim da vida, é a morte. É a velhice, que insistentemente se combate como se o fim não fosse chegar, a pele secar e a potência da vida acabar. Representado também como um velho magro, alto e ossudo que devora seu filho – ou a juventude sendo devorada pela velhice – dentre outros significados. O que fazemos do tempo que temos diante do único destino certo e comum que nos é dado ao nascer?

Durante o período que esteve em Sagitário, os temas significados por este signo foram acentuados em seu potencial destrutivo: o avanço do fundamentalismo religioso associado à educação e às decisões políticas em âmbito global, guerras bélicas e ideológicas por dogmas, verdades absolutas atropelando a galopes o que jamais será total. Adentrar a Astrologia mundana é um universo à parte, mas estes são alguns dos temas especialmente feridos durante o trânsito no signo do centauro. Sagitário é um signo representado pelo centauro, metade humano e metade animal. Instinto e razão, fé e questão, mas o “e” sai de cena e todos esses significados se emaranham, tornando a visão turva pela urgência do próprio desejo. E aí entra a foice de Saturno: não se pode apressar o que possui ritmo próprio.

E o que é cíclico retorna. Quando Ele retorna ao mesmo ponto em que estava quando nascemos, aproximadamente de 29 em 29 anos, ninguém sai ileso. Para quem possui Saturno em Sagitário no mapa natal, deve ter sentido que os últimos 3 anos foram divisores de águas. Os efeitos específicos se dão pela casa e o grau em que se encontra o grande maléfico, assim como as outras dinâmicas celestes, mas o tão falado/temido retorno não deixa ninguém como era antes. Neste período, a cobrança do que foi feito nos últimos anos é feita; daí em diante a vida pede seriedade para o que se deve, ou o peso se torna maior. Algo a ser temido? Se nos guiarmos apenas pela busca venusiana de prazer e diversão, será sofrido atravessar períodos de escassez e muito esforço, que fazem tão parte da vida quanto o bônus.

Pintura: Peter Paul Rubens/Reprodução

Para quem se incomoda com os termos maléfico e benéfico (especialmente estudantes/leitores/astrólogos da vertente moderna), geralmente alinhados com a ideia de livre arbítrio e incomodados com a noção de destino, é preciso ressaltar que estes termos não causavam conflito para a “mentalidade antiga”. Gramaglia, pesquisador desse sistema de pensamento, explica que não havia relativização entre o bem e o mal, ao menos não da forma que se faz na Astrologia massivamente praticada na atualidade. Era inegável a existência de oposições, assim como a aceitação desta luta entre polaridades como parte inata do modo de vida à época. Nesta perspectiva, que se alinha à ideia de padrão originária da geometria, vivemos repetidos ciclos e padrões – repetições constantes com novas roupagens.

No signo de Capricórnio, Saturno tem seu domicílio noturno. Quando em casa, um planeta se sente muito confortável, por assim dizer. Possui poder de ação para realizar os assuntos a que se propõe, e aí novamente é preciso ressaltar que isso varia bastante de acordo com os mapas de cidades, países, lunações, pessoas. O signo da cabra representa a determinação em rumo a um objetivo, seja o alto da montanha ou o lugar sonhado a se chegar. Traz a noção de que com estratégia e esforço é possível conquistar o suficiente para se estar bem, sem excesso, o que inclui atravessar períodos escassos com pouca queixa – ou perde-se tempo útil.

Apesar da lentidão do movimento, Capricórnio é um signo de modo cardinal, que inicia estações. É um período favorável para investir em projetos antigos, que envolvam muita dedicação e a capacidade de estar só também se desenvolva. Saturno tem júbilo na casa XII, a dos isolamentos voluntários e arbitrários, nos lembrando que da solidão pode-se extrair solitude – o prazer encontrado na solidão.

Ou, até para se estar junto é preciso saber estar só. Os cortes saturninos são feitos em profundidade, diferente dos marcianos, mais pontuais. Em um mapa natal, onde ele se encontra, há uma espécie de ferida crônica que nos paralisa e move ao mesmo tempo, assim como a oposição – aspecto saturnino. Que o ciclo seja proveitoso no sentido de aceitarmos os limites como atos de amor, a velhice como bênção e beleza e a morte física e simbólica como destino natural.


Raquel Portela

29 de dezembro de 2017