Notas sobre Vênus e Touro, Brasília e o concreto

Touro é o signo solar da cidade de Brasília e um dos domicílios de Vênus

Foto: Coletivo Transverso

 

Na madrugada do dia 6 de junho, Vênus entrou no signo de Touro e lá permanece até o dia 5 de julho. No céu, o planeta denominado pequeno benéfico por causa de sua natureza é o segundo ponto mais brilhante de onde o vemos a olhos nus. O signo do boi faz parte da triplicidade do elemento terra e sua expressão se dá por meio da busca por segurança material. Isso não significa excesso, mas um preparo para estações em que a abundância não estará presente e o conhecimento intrínseco de que as colheitas são sazonais. É o signo solar da cidade de Brasília e um dos domicílios de Vênus. O modo pelo qual opera é fixo: mantém e sustenta o que foi iniciado em uma estação anterior, retém a energia. No caso de Touro, a manutenção é da estação iniciada pelo equinócio de primavera, e, assim como Áries, signo cardeal que a inicia, e Gêmeos, signo mutável que prepara a mudança de estação, cada signo do zodíaco possui um modo. A ideia é entender que, para muito além de nós, a Astrologia fala sobre uma ordem natural e ciclos – como as estações do ano, que marcam a passagem do tempo e períodos propícios para objetivos diversos. Iniciar, estabilizar e mudar são verbos que sintetizam os modos básicos de ação dos signos e suas correspondências humanas e mundanas.

Vênus é o terceiro planeta da ordem caldaica – uma sistematização feita pelos babilônios que organiza os 7 planetas, do mais lento ao mais rápido, bem como suas relações e poderes de ação, na perspectiva geocêntrica. Também conhecida como Deusa do Amor, é de natureza benéfica – o que significa trazer boas influências, pulsar a favor da vida – e representa o princípio da beleza, da harmonia, do equilíbrio, dos afetos. Quente e úmida, associada à fertilidade. É de Vênus também o desejo de unir-se aos outros, a atração entre pessoas, a sensualidade e a facilidade – evitar o conflito e fugir da guerra. Os sentimentos são assuntos de Vênus, que possuem uma temporalidade diferente das emoções (atribuídas à Lua). Das idades do ser humano, é a juventude – ou adolescência – e a busca por satisfação amorosa. Ptolomeu descreveu essa fase da vida como “uma atividade que busca implantar um impulso para o abraço do amor, e que neste momento uma espécie de frenesi particular entra na alma, enunciando um desejo impetuoso de gratificação que nela se instaura”. Das partes do corpo, lhe são atribuídos os rins, a lombar e a garganta. Em um mapa, Vênus tem júbilo na casa V, que fala sobre prazeres, jogos, diversão, gestação e filhos. E isso significa que esses são seus assuntos, pois lhe são fáceis como a busca por realizá-los é um norte. Representa também as mulheres: mães em natividades diurnas, avós, irmãs mais jovens e esposas.

Vênus no signo de Touro está em casa, assim como estaria em Libra. Mas a busca aqui é outra: se em Libra o desejo move no sentido de se aproximar de um ideal que muitas vezes se distancia do possível, em Touro o palpável é força motriz. Nesse território o império é dos sentidos e não há arma além da paciência que pretende realizar o próprio desejo, clamando o amor sem pressa em tempos de violência desenfreada. Sem desperdício ou escassez, o corpo busca seus meios de obter afeto em abundância e viver a experiência concreta do amor como fonte de segurança para as batalhas cotidianas. Quando um planeta se encontra em um signo de sua regência, o melhor de sua natureza se manifesta e potencializa, fortalecendo sua ação e minimizando os efeitos de planetas de natureza oposta, como Marte e Saturno, que são secos e maléficos. Vênus em Touro pulsa amor como um antídoto ao que se opõe à vida: traz à tona a criatividade como resposta à destruição, a necessidade de prazer como remédio à dor, o adorno para que não se esqueça que há beleza no mundo, o toque para que o afeto seja um limite que nos protege da violência. Em essência, pode-se sintetizar o simbolismo desse posicionamento, mas seus efeitos a nível macro e micro envolvem muitos pormenores. Um planeta em trânsito pode ativar diversos assuntos em cartas natais e mundanas, que vão depender de sua relação com os outros astros e a natureza dos aspectos que os conecta. “Assim na terra como no céu” existem forças opostas agindo simultaneamente, não importando como as nomeamos. Em síntese, a Astrologia é uma leitura do mundo em correspondência com os movimentos naturais celestes, com jogos de força e poder, início e fim, origem e destino, vida e morte, amor e ódio, bem e mal. Nada novo sob o Sol.

Em Brasília, o Sol estava em Touro no dia de sua fundação. Não há convergência quanto ao horário, são duas hipóteses: uma seria à 00h e a outra seria o horário de 9h30min (quando simultaneamente ocorreram solenidades nos locais-símbolo dos 3 Poderes).  Se o horário considerado for 00h do dia 21 de abril de 1960, ascendia no horizonte o signo de Aquário, a Vênus estava exilada em Áries na casa III. O que isso quer dizer? É um recorte pequeno de um mapa complexo, que traz à tona, de modo simplificado, três aspectos da cidade:

  • – Ascendente em Aquário: a casa I, onde se localiza o ascendente, fala sobre corpo – ou como se apresenta fisicamente a cidade, uma promessa utópica de eliminação das diferenças entre as classes sociais. A utopia é um atributo associado à Aquário;
  • – Vênus em Áries na casa III: no signo que lhe dá exílio – uma das dignidades planetárias – os assuntos venusianos não são favorecidos. A ideia aqui é de algo que não acontece com facilidade, mas com o custo de aborrecimentos e testes de paciência. Uma das associações da casa III é a mobilidade terrestre e seus meios de transporte – desafio crucial da cidade, que produz exílios forçados no sentido de dificultar o ir e vir;
  • – Sol em Touro: o luminar diurno diz respeito à doação de energia vital, poder e espírito. O que é facilmente visível, que não fica encoberto ou à margem. No corpo, é o coração. O coração da cidade – ou espírito – irradia bucolismo, atributo taurino. Apesar de todo o concreto utópico, a essência é de uma cidade conservadora, de manutenção das coisas como estão – e dos poderes também (Asc. e Sol em signos fixos, regente do asc. é Saturno, que dentre outras coisas fala sobre danos causados por meio do mau uso do poder).

O corpo da cidade, sob regência de uma estrutura abusiva e viciada, remete ao boicote do próprio progresso – regente do asc. na casa XII. A Lua no céu do seu nascimento é Peixes na casa II, em trígono a Júpiter em queda: a persistência da fantasia não é escape, mas mecanismo de sobrevivência – excesso de sonho é realidade escassa. Vênus exilada dispondo o Sol em seu domicílio e a urgência de aproximar o desejo da realidade movendo o céu e os passos: no abismo da memória, o vazio se preenche com a experiência. Realidade é o que se compartilha para além do concreto.


Raquel Portela

14 de junho de 2017