Chuck Berry, casa XII e a música como remédio à invisibilidade social

“Eu queria tocar blues, mas eu não era triste o suficiente, eu sempre tive comida na mesa” – palavras dele mesmo, um nativo de Sol e Vênus em Libra na casa XII

Foto: James A. Finley/AP Photo

Chuck Berry morreu em março, deixando uma obra-legado que abriu os caminhos do que chamamos de Rock´n´Roll. Não há consenso sobre o dia do nascimento desse gênero musical, que tem nos significados associados a seu nome uma metáfora para sacudir, perturbar ou incitar.

Mas não há mesmo um sujeito único na música, um criador oficial: a criação é, em si, um processo orgânico e contínuo, multiplamente influenciado. Um momento crítico de segregação social tomava conta dos Estados Unidos entre o final dos anos 1940 e o início dos anos 1950, enquanto o rock crescia exponencialmente, com influências do jazz, gospel, blues, R&B. Apesar de ter ficado com Elvis o título de rei, é inegável a origem negra do rock.

O mapa natal é uma das ferramentas da Astrologia para evidenciar, entre outras coisas, a jornada de vida, relações com o coletivo e as instituições. Tomemos então como exercício alguns significadores astrológicos do mapa do nascimento de Chuck Berry, afinal nenhuma teoria produz maior testemunho do que a experiência de quem está inserido no destino coletivo do que moveu o Rock. Charles Edward Anderson Berry nasceu no dia 18/10/1926, às 06:59hs, em Saint Louis, Missouri.

Ascendente em Escorpião, Saturno e Mercúrio na casa I

Em Astrologia das natividades, as casas astrológicas dizem respeito aos diferentes “setores” da vida. A casa I dá testemunhos sobre o corpo físico, a formação do caráter, o alicerce do nativo, enquanto Saturno é denominado o grande maléfico por representar as limitações e restrições de todo tipo. É também conhecido como Kronos, trazendo a foice como ferramenta e a lentidão como ritmo. Na jornada de vida de Chuck Berry ocorreram longas pausas criativas posteriores às vezes em que foi barrado pela lei.  Associado à velhice e ao fim das coisas, Saturno é o planeta mais distante da Terra. No corpo, diz respeito a tudo que estrutura e dá limites: ossos, pele, articulações. Chuck Berry era alto, magro e com ossos protuberantes, assim como a imagem personificada do Senhor do Tempo. No que diz respeito à densidade saturnina – pesada como o chumbo –, uma frase dita por ele a sintetiza: “É impressionante o quanto você pode aprender se suas intenções são realmente sérias”. A seriedade é um dos atributos associados ao signo, assim como suas lições, que exigem nervos de aço.

Escorpião dá domicílio noturno a Marte, neste mapa exilado em Touro, na casa VII, e em oposição a Mercúrio. Marte é um significador natural de contendas, e também o regente do seu ascendente. Já Mercúrio é o mensageiro dos deuses e está relacionado à comunicação ao nível cognitivo, à velocidade e à inquietude. Temos então o astro que dirige os passos do nativo no mundo em um signo de voz forte, domicílio de Vênus – significadora natural das artes –, em oposição a um signo mudo. A garganta é atribuída a Touro, assim como o domínio do seu uso, o canto. Desse conflito constelado no céu de seu nascimento, o que não era dito se materializava na eletricidade vista em seu corpo no palco e na voz que cantava os temas da juventude venusiana, uma resposta à realidade fria e seca da natureza saturnina.

Lua em sextil com Marte

No mapa de Chuck Berry, a Lua se encontrava em Peixes, na casa V – júbilo de Vênus –, próxima à parte da Fortuna, um lote que dá testemunhos de onde vem o dinheiro do nativo. A Lua em sextil com o regente da casa I – significador das contendas – em uma casa que tem como temas a diversão, o lazer, os jogos, a busca pelo prazer. Por meio da música, foi um dos pais do rock. O jeito que usava corpo e voz se tornou histórico – vide duck walk, dança icônica e inspiradora de performances. Sextil é um aspecto que facilita a comunicação entre os planetas, ou seja, a realização dos assuntos por eles significados. Seu dinheiro e os problemas relacionados à sua fortuna vieram do entretenimento, por diversas vias. Já foi preso por sonegar impostos e por empregar uma adolescente em sua casa noturna. Em um terceiro momento, foi preso por porte de maconha e por ter colocado uma câmera escondida no banheiro feminino de um de seus restaurantes. Possuía uma casa chamada Berry Park, um complexo de diversões que foi usado como estúdio na década de 1950. Seu sustento foi marcado por situações que envolveram o entretenimento sucedidas pelos cortes vindos do que representa o outro em uma natividade, a casa VII –  onde está Marte.

Sol e Vênus na casa XII, Júpiter na casa IV

A casa XII é considerada o local do mau augúrio, o júbilo de Saturno. Nela estão as instituições que privam a liberdade e os sujeitos que as povoam, ou seja: todo conteúdo que é socialmente indesejado e negado, se materializando nos manicômios, prisões, asilos. Fala sobre invisibilidade social, literalmente. E também sobre os sofrimentos por paixões, a excessiva busca por prazer e sua possível consequência, a ruína. No mapa de Chuck Berry, a casa XII é Libra.  Vênus está em trígono com Júpiter, em Aquário na IV, disposto por Saturno na I: os conflitos com a Lei cíclicos em sua vida, desde a adolescência –  fase da vida associada a Vênus assim como os temas de suas músicas, que falavam sobre festas, paixões e aventuras.  A primeira vez em que foi preso tinha 14 anos, quando passou 3 anos em um reformatório e começou a se rebelar.

Porque a casa XII não aspecta o ascendente, o nativo não vê e não tem controle sobre seus assuntos e os males daí advindos. Seu Sol está em Libra, onde tem queda, regendo a casa X – que fala sobre o legado deixado. Além do reconhecimento por tudo que fez pela música, sua fama também remete à trajetória de desafiar a lei. O signo da balança está relacionado aos pesos da justa medida, que, pela distância da realidade, traz consigo a melancolia pelo fato de um prato persistir em pesar mais: “eu queria tocar blues, mas eu não era triste o suficiente, eu sempre tive comida na mesa”.

Famoso por sua música, mas também pelas interrupções na carreira e sua história de exílios por conflitos com a arbitrariedade da lei. Temos então os significadores de carreira e fama na casa X e o exílio por vezes voluntário de um Sol em queda, não tão confiante de seu brilho pela forma com que foi retratado e pelas marcas do isolamento forçado, movido pelo desejo de extrair beleza e prazer das situações limitantes que atravessaram seu caminho.


Raquel Portela

25 de julho de 2017